Sobre momentos e capivaras

Fotos Cícero Blumeu 291

Num domingo qualquer, final de tarde, eu mais um amigo estamos caminhando na Lagoa Rodrigo de Freitas. Este ato simples deixou de ser simples há algum tempo por estas paragens. Uma bicicleta, um tênis, uma cara feia; qualquer coisa basta para que o passeio se transforme em pesadelo numa cidade onde poucos vivem maravilhosidades e muitos sonham com a noite das facas longas.

De repente um movimento brusco, um farfalhar na touceira. Um tímido pânico. Quem ou o que pode estar entre as folhagens? Acelerar o passo? Correr? Admitir ao amigo que o medo aumenta conforme o sol se esconde lá atrás da favela?

Recuperemos o fôlego. É uma capivara! Sim, uma única, feia e assustada capivara. Caímos no riso. Uma capivara, graças a Deus!

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Meus primeiros dias na “Alemanha sem passaporte”. 2007, creio. Desço a Floriano Peixoto em direção ao Itajaí-açu, lugar onde desaguam dejetos físicos e sentimentais; águas que refletem o laranja do entardecer, o verde dos arbustos e o gris dos edifícios da margem esquerda – ou direita, para quem olha de lá para cá. É um momento de contemplação, um momento de descoberta da primavera nem tão fria nem tão acolhedora. Vejo flores brancas em árvores que nascem de dentro da calçada, lembro que para lá da Curva do Passat, de onde eu venho, elas se chamam Patas-de-Vaca.

Penso na vida, penso no futuro. Presto atenção nos sons, reparo nas poucas pessoas num ponto de ônibus. É só um domingo deserto, talvez o primeiro, ou o segundo, de muitos que virão pelos próximos seis anos. Eis um misto de espanto e encantamento: uma família de capivaras! Gordas, barrentas, esnobes e comilonas capivaras. Renasce uma paixão.

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Idos dos anos 1990. A inocência reinando aqui dentro; não mais que a curiosidade. Olhos atentos que prevêem uma vocação? Indagações perigosas que prevêem uma futura necessidade de observar e explorar o mundo? Sem certezas, sem vontades latentes. Apenas infantilidade.

Uma mão forte, de músculos e melanina, segurando a minha. Caminhamos na passarela sobre o Rio do Peixe. Um universo  gigante de águas turvas lá embaixo, ilhas igualmente majestosas. Crianças vêem tudo aumentado.

Ratos gigantes nadando ao redor da ilha? Não se afogam? Não são ratos, menino, são capivaras! Você não pode levar capivaras para casa – onde já se viu? Você não pode descer para brincar com elas. Nem em sonho você pode ser uma capivara!        

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FIM

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