O que dizer de 1983? Comentário sobre a enchente na visão de um acadêmico

Jamais poderíamos nós, geração dos anos 1990, reclamar que nunca vimos tamanha destruição em Blumenau depois da catástrofe acontecida em 2008. Até ali foram várias pequenas cheias durante os anos que culminaram a tragédia de cinco anos atrás. Vimos sofrimento, famílias sem lar, sem entes queridos, estávamos assustados e por um momento os mais ligados na história se perguntavam: “Será que foi assim mesmo em 1983, ou teria sido pior?”

E ai que fica a pergunta que faço depois de 30 anos passados da maior enchente que Blumenau teve notícia neste século: O que nós, a tal “geração Y” pode dizer do que foi sofrido por nossa cidade em 1983?

Prefeitura alagada

Muitos vão me tirar de louco, dirão “há, você não nasceu pra sentir o que foi”, e tantas sandices mais. Mas não é preciso ir muito longe para tirar conclusões e se espantar pelo que aconteceu naqueles meses de julho e agosto daquele ano. Provas do que foi aquilo tudo se encontram em todos os cantos da nossa vida. Pais, tios, avós, TV e radio, uma visitinha ao Arquivo Histórico, internet, redes sociais…Não tem desculpa para não saber o que se viveu, o que se sofreu e o que se trabalhou naquele ano difícil para reerguer uma cidade praticamente debaixo de lama.

E outra pergunta, como o Vale não consegue esquecer tamanha tragédia, mesmo ainda se curando das cicatrizes de 2008?

Vamos por partes. 1983 já começara chovendo. Foram se seguindo algumas pequenas enchentes em meio a água que desabava. Julho não seria diferente, com tanta chuva no ar não tinha jeito de algo grande acontecer. E aconteceu. Por um mês praticamente os blumenauenses dividiam sua vida na cidade amada com água, lama e estragos, para não falar dos 70 que pereceram na tragédia.

Arrepia imaginar na mente as imagens que as fotos e os poucos arquivos de TV disponíveis pelos meios de comunicação tinham para registrar o que acontecia em Blumenau naquele mês. A água tomava o prédio da recém-inaugurada prefeitura, as ruas como a XV, ponto comercial totalmente perdido embaixo de lama. Muito se perdeu nas empresas como a Teka, casas em bairros tradicionais ou sumiam na água, ou boiavam no rumo do rio. Era como uma guerra, em que a população não podia lutar contra o Itajaí-Açu.

Mas, o que não dá mesmo pra esquecer, e felizmente, são as histórias de luta e coragem de muitos que deram o sangue embaixo das turvas águas para salvar vida, trazer conforto e estender o braço a quem precisa. Os hospitais fazendo o possível mesmo sem energia elétrica para salvar vidas e manter as que estavam internadas. Soldados do 23º Batalhão mostrando o significado do slogan do exército brasileiro – “Braço Forte, Mão Amiga” – indo a todos os lugares e se mobilizando numa verdadeira força-tarefa atrás do alivio. Abrigos, que se estendiam em escolas, igrejas, clubes de caça-e-tiro, onde tantas famílias procuravam conforto e fuga das águas…

E a comunicação? Como acadêmico de jornalismo fica impossível não deixar de imaginar os esforços, tanto de jornalistas como o dos radioamadores, para tentar levar informações e coordenadas a todo o canto do Brasil. Os valentes profissionais de rádios e da TV Coligadas (RBS Blumenau em 1984) que faziam malabarismos na água para buscar as imagens do que acontecia em nossa região, colocando o pé na lama, voando e recorrendo as confiáveis bateras, tudo pela informação precisa e de caráter de socorro em uma cidade as escuras.

Mas os radioamadores, ah! Pessoas incrivelmente dispostas ao trabalho. Que transformaram de simples “shacks” separados pela cidade numa incrível rede de solidariedade, transmitindo coordenadas e informações de canto a canto, seja da prefeitura ao 23ºBI, ou ao Ceasa, ou a Vila Itoupava. Onde estivessem, estavam em trabalho constante, escrevendo seus nomes como verdadeiras vozes de Blumenau.

Nomes como Tontini, Alda, Dalto, Boos, Nóbrega, Motta…e tantos outros cuja memória não ajuda nesta hora, estão grifados como grandes colaboradores em meio ao caos. As águas subiam, desciam, subiam, desciam…só não saia a persistência do blumenauense em querer dizer em sua teimosia aceitável que “Não! Eu vivo aqui e daqui não saio” e foi assim. Viria outra em 1984, mas uma enchente para um blumenauense, muitas vezes seria como “um dia após o outro”, pela tamanha vontade de vencer.

Concluindo todas estas coisas que vi e falei acerca de 1983, sem contar as que ainda não sei e que ainda muito quero saber, a resposta do que posso falar desta tragédia é de que: A enchente de 1983 não foi um momento apenas de choro, tristeza, morte e desolação ao observar as águas caudalosas do Itajaí-Açu a cruzar a cidade. Muito além disso, foi um verdadeiro teste de fogo a todo o blumenauense que, mesmo sem contar com os meios mais eficientes, brigou contra a corrente para dizer que não iria sair de sua querida cidade, arregaçou mangas e se pôs ao trabalho no socorro do próximo, na informação e na mensagem precisa. E ergueu com todo o custo a cidade que hoje vemos, e que ainda luta em quaisquer calamidade que lhe venha a ocorrer.

As lições aprendidas em 1983 (podem muitas ter se esquecido) serviram de regra para outras cheias, para 2008, e ainda podem servir para qualquer luta que Blumenau ainda tenha que lidar com seu rio a sua volta. Creio que este comentário sobre a enchente não seja o mais correto e o mais próximo do que foi a calamidade de 30 anos atrás. Mas é o melhor que pude me aproximar, com meus 23 jovens anos, do que o blumenauense sente ao lembrar desses dias. Algo que o Vale jamais esquece, é verdade, mas que aprontou a região para qualquer contenda futura contra as forças da natureza, as únicas que o querem tirar a vontade de brigar pela sua terra.

Para finalizar, as frase de José Nóbrega que vale sempre lembrar: “A enchente é assim: O rio destrói, o rio constrói. O rio sepulta, mas também edifica. O rio, água lodosa como o fogo, retempera a alma deste povo imbatível: O blumenauense”.

Bom dia a todos!

(Cortesia fotos: Internet / Antigamente em Blumenau / Santa)

Um comentário

  1. Eu fui soldado do 23º BI em 1983. Hoje moro em Joinville. Eu sei o que foi aquilo. Servimos de verdade, trabalhando na água. Peguei tétano e fui dado como desaparecido. Depois de 30 dias, o comando não sabia mais nada de nós. Foi trágico. Regressei ao quartel tendo água na rua amazonas ainda.

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