O dia que Sonic perdeu para Senna

É quase automático falar de Donington Park e lembrar do espetáculo de Senna em 1993. Ainda mais, lembrar deste feito nos 20 anos de sua ausência é quase como um bordão clássico da F1 que jamais sai da mente de quem viveu e viu ao vivo o grande prêmio encharcado e emocionante daquele 11 de abril.

Mas Ayrton não corria apenas contra a dupla Prost e Hill nos carros extraterrenos da Williams e contra o tempo maluco da cidade de Donington, que alternava entre chuvas e aberturas de sol. No mundo fantástico dos games era travada na pista inglesa uma corrida no mínimo esperada. Contra Senna, a presença constante do que é considerado um dos mais marcantes personagens dos jogos eletrônicos de todos os tempos: Sonic, o ouriço-mascote da empresa Sega e grande sucesso da marca no começo dos anos 90.

Donington Park era o momento de convergência de vários momentos. Ayrton havia começado com o pé direito a temporada de 1993. Com um carro astronomicamente inferior a Williams em equipamento, o brasileiro tinha de tirar leite de pedra, ou de alguma outra coisa, para acompanhar os sólidos bólidos do team de Groove.

Alain Prost ainda era o mesmo “professeur” de outrora, esbanjando boa forma e tendo um equipamento competitivo na busca do tetra, mesmo embora até aquela prova não se podia dizer que seria um campeonato fácil. Já Damon Hill, outro personagem da história, era o ilustre filho do bicampeão Graham Hill, que ainda precisava demonstrar que honraria o sobrenome do pai, mesmo com uma carreira tão precoce.

Vindo da vitória do Brasil, Senna era a grande sensação da F1 na temporada e sentia-se, mesmo com o McLaren em posição inferior, totalmente renovado depois da fraca temporada de 1992. No outro lado da corda estava outra sensação mundial. Sonic, um valente e atrevido ouriço que protegia junto com seus amigos a pequena cidade onde vivia dos ataques do temível Dr. Eggman. A nova franquia de games era a aposta máxima da Sega para bater de frente com o tradicional Nintendo e seu clássico Mario Bros, o ano de 1993 era o ápice do sucesso do game, e a Sega não queria perder nenhuma oportunidade para divulgar seu carismático personagem pelo mundo, especialmente da velocidade.

Além de um polpudo espaço publicitário nos carros da Williams, a Sega aproveitou para abraçar a ideia de patrocinar um GP todo seu. A corrida de Donington naquele ano marcava a volta do GP da Europa ao calendário, e seria realizada uma única vez na pista britânica, depois de ingentes esforços dos donos do autódromo. Não era uma desconhecida de muitos. Quem correra em categorias de protótipos ou andava por equipes inglesas já tinha frequentado aquela pista. Ironicamente, havia sido la o primeiro contato de Senna com um F1, dez anos antes e com uma Williams. Seria um sinal de algo apocalíptico?

No entanto, tudo marcava uma vitória antecipada de Sonic e das botas firmes de Prost e Hill, fechando a primeira fila no sábado de treinos. No domingo, o tempo dizia o contrário para todos que acreditavam que enfim a Williams mostraria sua face. La estava Sonic na ponta do grid, e logo atrás dele o atrevido cidadão de macacão vermelho que, de primeira, fazia lembrar Eggman, mas era Senna espreitando a melhor forma de largar.

A pintura da primeira volta é marcada a ferro e fogo nos olhos dos apaixonados de F1 até hoje. Caindo para quinto na largada, Senna inicia sua escalada de forma surpreendente. Supera o atrevido Michael Schumacher e sua Benetton logo depois do alemão largar ofensivamente sobre o brasileiro. Passa como um raio a Sauber de Karl Wendlinger e logo se vê ao encalço de Sonic e seus pilotos. O primeiro foi Hill, de forma até fácil, o último seria Prost, antes mesmo de virar o último cotovelo de entrada na reta. Estava consumado o espetáculo, e Sonic enfim havia encontrado quem era muito mais rápido que ele.

No entanto, Senna não teria vida fácil, teve de jogar muito mais do que com a velocidade, mas também com a inteligência no constante chove/para de Donington. Contava com a chuva amiga para desestabilizar Prost e Hill, e deixar o jovem ouriço azul nadando em problemas. Só o francês conseguiu a proeza de parar seis vezes no box para trocar pneus, sendo que em uma delas deixava o carro morrer na saída.

Nas correrias da prova é justo uma justiça com outro brasileiro que perseguia Sonic. Largando em 12º, Rubens Barrichello mostrava seu braço forte embaixo d’água domando a Jordan no seu ano de estréia. Correu com um carro conservado desde os treinos, fez uma largada sensacional, brigando no meio das cobras, e chegou a estar em segundo no melhor da prova. Demonstrou uma combatividade acima do comum e foi um dos destaques da prova, mesmo com um triste abandono a quatro voltas do fim, quando defendia sossegadamente a terceira posição. Mérito seja dado, pois era mais um no duelo contra Sonic.

E o ouriço perdeu. A vitória de Senna foi a coroa de uma carreira lendária, uma volta a frente de Prost e uma semana a frente de Hill. Foi a vitória máxima da inteligência, do arrojo e da ousadia de superar, mesmo em pneus slick, o tempo adverso de Donington. Sonic, que em tantos cantos da pista estava presente, voltaria ao pódio em forma de um pitoresco troféu, um dos dois prêmios de Senna naquele dia.

Para a F1, o 11 de abril de 1993 ficaria registrado como um dia único, um momento jamais repetível na história da categoria. E para Sonic, que ainda hoje corre pelos rincões dos games, fica a lembrança do sujeito brasileiro que vestia vermelho como Eggman, mas tinha um coração do tamanho de sua velocidade.

Foi a unica vez que o ouriço mais veloz dos jogos teve alguém a sua frente.

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