O casamento dos outros

Eu as conheço e você as conhece: são pessoas que não se destoam das outras, que nos parecem perfeitamente racionais e compreensivas, mas que então se aproveitam de uma deixa que você infelizmente deu (em um jantar de família, um simples passeio no parque poluído, o aniversário da sobrinha) e decidem compartilhar sua lógica fascinante conosco. Elas são as pessoas que nos dizem coisas como “mas se o casamento gay for legalizado, aí o incesto também vai ser permitido.” O que é como acreditar que, se você deixar que todos comam peixe, logo o mundo inteiro também vai querer devorar uma lata de goiabada cascão.

As pessoas (em especial as pessoas de lógica tão singular) costumam pensar na sociedade como algo imutável, que sempre foi e sempre será como se apresenta a nós hoje; ignorando o fato de que há um mundo vasto além de suas portas, que há uma História milenar de como as coisas eram feitas e deixaram de ser feitas, mas depois foram feitas de novo, porque a sociedade e a História são o que são: quase um organismo vivo, algo que nunca para de se transformar, que apenas nos lembra de como são passageiras as coisas, de como é única a experiência humana.

Mas insistimos: enraizamos ideias, nos convencemos de que o mundo é o que achamos que é e que nada pode ser diferente. Comparamos o casamento de gays ao incesto, a algo que vai destruir nossa sociedade, convenientemente nos esquecendo de que uma coisa não é igual à outra (e de que, para o choque de quem joga suas pedras em gays sob essa justificativa, alguns deuses já permitiram incesto; Abraão e Sara eram meio-irmãos, e de sua longa linhagem, nos diz a Bíblia, nasceu Jesus).

Mas ainda insistimos: mesquinhos que somos, nos seguramos à posição que temos na sociedade, com medo de que ela mude. Fazemos isso às custas dos direitos de outros. Apontamos o dedo e dizemos “eu posso, mas você não.” Porque eu penso assim. Porque meu deus pensa assim. Porque sempre foi assim e nunca deixará de ser. É a lógica (a fascinante) que nos leva a comparar a relação perfeitamente consensual entre dois adultos do mesmo sexo a incesto, a dizer que homossexuais vão trazer a destruição, o fim da procriação humana, o fogo do inferno ou qualquer evento apocalíptico de sua preferência. É a lógica, a mesmíssima lógica, que faz com que quem não pensa como nós se torne o Outro; aquele que é uma abominação, que não pode ser como nós, ainda que seja, ainda que pague seus impostos, que ame o lugar em que nasceu e que queira ser feliz e constituir uma família.

Existem coisas terríveis que acontecem diariamente. Existem países onde ainda se persegue pessoas por suas crenças, onde elas são executadas e tratadas como sub-classe. Assistimos a tudo na televisão, ficamos revoltados, nos condoendo com o abuso que sofre quem compartilha da mesma fé que nós, seja ela qual for. Mas nossa revolta se limita ao que nos toca: porque a partir do momento em que é necessário ver a dor do Outro, nos retraímos. Uma vez mais voltamos a ser mesquinhos, enclausurados e com medo (porque não pode ser nem amor e nem fé a mover essas pessoas; só pode ser o medo), nos recusando a entender que as os outros são pessoas como nós, e que merecem ter os direitos que nós temos. É uma espécie invejável de negação. As pessoas no jantar em família, no passeio no parque poluído, na festa da sobrinha; elas pensam que o mundo em que vivemos é apenas delas, quando não é. Elas pensam que o mundo pertence apenas a um deus, quando não pertence. Porque o mundo é de todos nós, com todos os nossos deuses, nossas crenças ou não-crenças.

Porque estamos aqui, e todos merecemos que a sociedade nos trate como iguais.

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