A maldição do calor blumenauense

Nenhum ser humano foi feito para algo assim.

A aproximação do verão blumenauense é algo que me assusta (mais ou menos da mesma forma que a chegada das temporadas de chuva me deixa inquieta). Aprendi a ter medo do calor desde que me mudei para cá; já havia morado em São Paulo e no Rio de Janeiro, e embora o calor do Rio seja também mítico, não chega perto do que da praga bíblica que é o verão de Blumenau. Eu com certeza penso que, se eu acreditasse em um deus, seria ele que eu culparia por essa maldição; como não acredito, culpo a natureza, culpo os homens.

Calor blumenauense (Jaime Batista)
Calor blumenauense (Jaime Batista)

Sei que o verão blumenauense chegou quando acordo e já sinto a necessidade angustiante de ligar o ar-condicionado, mesmo sabendo que ele me causa dores de cabeça, que só gasta mais energia e que atira gases malignos na atmosfera, para sempre ajudando a sustentar esse ciclo de calor mortal. Mas ligo o ar-condicionado porque não sobreviveria de outra forma; um simples ventilador não consegue me salvar do mormaço que entra na minha cabeça e nubla meu cérebro.

Sou uma criatura inútil durante os verões: quando tenho que sair, me arrasto pelas ruas. Sou um zumbi que está respirando ar quente, sou a morta-viva do calor. Eu vou até os lugares e compro minhas coisas e faço o que preciso fazer e depois me esqueço dos porquês; por que estou ali, por que decidi sair sob um sol que está fritando não só minha pele, mas possivelmente meus neurônios? Faço uso fervoroso do protetor solar, mas ele consegue me deixar pior, com a pele grudenta, desconfortável a cada passo que dou, aumentando aquela sensação: a de que estou derretendo aos poucos. Descubro que estou diante da ponte do Ribeirão Garcia, vendo as capivaras nadando, e sou tomada por um impulso louco: pular da ponte e ir nadar com elas, me refrescar um pouco no meio das águas turvas antes que as capivaras percebam que não sou uma delas e me rasguem com seus dentes gigantes (uma morte tão inusitada que com certeza faria meu nome ir parar nos jornais).

Mais comuns do que meus impulsos suicidas são meus impulsos preguiçosos. Fico na cama, encarando o teto, recebendo o ar frio do ar-concidionado, mas ciente do calor monstruoso que tenta entrar na casa através de todas as frestas; que me espera assim que coloco os pés da rua, o ar que me acerta na cara como o vapor do inferno. Fico na cama. Declaro que meu corpo é inútil e que não posso fazer nada exceto permanecer deitada. Começo a elaborar teorias: penso que talvez Satã exista mesmo, e que talvez more entre nós, em algum apartamento da Alameda. Porque nenhum ser humano foi feito para apreciar um calor tão demoníaco.

Eis o que eu queria para o povo de Blumenau: o feriado do verão. Com a duração de meros três meses.

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