segunda-feira, 17 de junho de 2024
20.8 C
Blumenau

Homem bárbaro também compõe

Em um final de semana recente, durante uma apresentação em Alagoas, o cantor Zeca Baleiro interrompeu sua programação poética usual para um discurso de cunho político urgente. E, por consequência, foi provocado por algum anônimo na platéia.

A identidade do desviante, até o momento, é desconhecida. O que não ficou oculto, fora a reação intempestiva do Zeca, quem diria! Uma simples contradição em torno de um tema usual tirou a fera da jaula. O artista maranhense desceu bucéfalo do palco, esgrimou seu suposto algoz com o microfone e perdeu as estribeiras. Duro golpe em quem acredita no aspecto sensível e elegante da intelligentsia brasileira.

Já de volta à proteção que o palco lhe garantia, o poeta maranhense transmutado em orangotango-de-boteco afirmou que a lei beneficiava uma corrente imensa de trabalhadores, incluindo algum parente daquele que o contrariava.

Entre uma palhinha e outra, Zeca poderia ter consultado o estudo realizado pela Área Técnica de Cultura da Confederação Nacional de Municípios (CNM), que flagrou quase 80% dos recursos captados via incentivo fiscal da lei concentrando-se em produtoras da região Sudeste. O que surpreendia era que o show acontecia em Alagoas. Poucas chances do rosto desconhecido da platéia ter parentes beneficiados pela lei.

Zeca é tão apegado aos dados quanto à gentileza. Ainda em seu palavrório transtornado, sugeriu que o homem que desalinhou seu chakra deixasse o espetáculo. O incidente teve prorrogação em entrevista ao O Globo dias depois. Mais calmo e ainda confuso, o poeta reafirmou a importância da lei e que a provocação que recebeu é um recurso “dessa gente simpatizante do neo-fascismo” que espalha ódio e inverdades sem maior embasamento. A conferir.

Ilustração: fera com microfone - imagem de Bing Image Creator
Ilustração: fera com microfone – imagem de Bing Image Creator

O cantor bem que poderia tirar uma inspiração de um grupo de colegas seus. Na mesma semana do incidente em Alagoas, uma trupe de artistas fez sua peregrinação à Brasília. Uma nobre causa defendida em consenso: a entrega de uma carta pedindo a manutenção de um dispositivo que garanta o pagamento de direitos autorais por parte das plataformas digitais. Tudo isso na esteira do torcionário PL das Fake News.

Afeiçoado em seus trajes tenue de ville, a comitiva reuniu-se com deputados para externar suas dores e preocupações. Nesse episódio, diferente do colega José Ribamar, foram ao microfone e borrifaram ternura e empatia na casa. A sanha por pagamentos exige certos sacrifícios.

Curiosamente, não parece passar pela cabeça do cancioneiro que “essa gente simpatizante do neo-fascismo” também paga impostos e, por óbvio, espera ter essa cobrança devolvida na forma de serviços públicos minimamente operantes. Essa hipótese não é clara para o cancioneiro porque essa gente que reclama da Lei Rouanet não pode ousar alimentar uma indignação mesmo que falte atendimento no posto de saúde, que as crateras na rua abundam ou que as aulas não ocorram por falta de giz de cera.

Fosse eu artista, trataria de me precaver antes de endossar qualquer porcaria no palco. Para a defesa de uma política pública, cabe o mesmo critério que é cobrado a quem ataca: uma correta fundamentação. E nessas horas não vale cusparada de ódio para tentar disciplinar um fulano que ousou perguntar sobre uma lei que beneficiou da Claudia Raia ao Oktoberfest. Precisa ser um tipo muito paparicado para não perceber que o microfone carrega o bônus e o ônus da exposição, sendo estes, inseparáveis.

Lucas Lôbo
Lucas Lôbo
Analista de Redes de Fortaleza (CE) autor de crônicas e artigos
+ notícias

Últimas notícias

- publicidade -

Mais lidas