Dagen H – O bom “nó” no trânsito da Suécia

(Wikipédia)
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Manha de domingo, 3 de setembro de 1967. Ruas, avenidas, vielas, pontes e qualquer trecho trafegável do trânsito das cidades da Suécia estava literalmente sem um único veículo na pista. Nas vias, operários a todo vapor revelavam placas por detrás de plásticos, pintavam faixas, davam os últimos retoques em cruzamentos e alças de acesso novinhas em folha e se preparavam para uma data história e, ao mesmo tempo, inusitada. Na manhã seguinte, milhares de motoristas entortavam os neurônios imersos no seu primeiro contato com uma nova forma de percorrer o caminho para casa ou para o trabalho.

Estavam escritos assim os primeiros capítulos do que é conhecido até hoje como o “Dagen H” ou “Dia H”, ou ainda o “dia da mudança de tráfego para a direita”, que, apesar da confusão preliminar ajudaria os suecos a marcarem o nome do país como uma das referencias em trânsito seguro no mundo. No entanto, passados mais de 35 anos desde a data, o assunto ainda é visto com uma certa dose de curiosidade e questionamento. Afinal, como que, como da noite para o dia, a Suécia simplesmente trocou o lado de direção, superou os problemas e hoje é um marco em matéria de segurança e respeito as leis de tráfego?

Impopular, mas necessária

Para entender esta curiosa história voltamos aos anos antes de 1967. Uma época até hoje lembrada com certa nostalgia por muitos suecos, mas que aos poucos mostrava a necessidade de uma revolução total no trânsito de praticamente todo o território do país. Até o Dagen H a Suécia adotava, assim como a Inglaterra, a Austrália e outros países, o tráfego pelo lado esquerdo – ou “left hand drive (LHD)”. No entanto, praticamente todos os veículos fabricados no país já tinham o volante do lado esquerdo, o que tornava dirigir nas numerosas estradas de pista simples suecas um risco quase calculado, potencializando ainda mais a possibilidade de uma colisão frontal por falta de visibilidade.

A necessidade de mudar o sentido de tráfego na Suécia foi impopular no começo, mas se mostrou imensamente eficiente no decorrer dos anos (Prewarcar)
A necessidade de mudar o sentido de tráfego na Suécia foi impopular no começo, mas se mostrou imensamente eficiente no decorrer dos anos (Prewarcar)

Além deste argumento, outro ponto problemático era a diferença de sentido de tráfego com os países vizinhos. Das nações escandinavas, apenas a Suécia ainda guiava no lado esquerdo, o que trazia enormes problemas aos suecos que cruzavam a fronteira para a Finlândia e a Noruega, países fronteiriços que tinham o sentido de tráfego à direita (Right Hand Drive ou RHD). Apesar de dois fortes pontos favoráveis a mudança de direção, a população era contra a alteração, que fora rechaçada várias vezes em diversos referendos e consultas públicas nos 40 anos anteriores a mudança.

Mesmo com 83% dos suecos contrários a alteração do trafego, segundo o censo de 1955, o Riksdag (parlamento sueco) seria o responsável pela cartada final na intransigência popular. Em 1963, a proposta de mudança do sentido do trânsito foi aprovada, juntamente com a criação dos primeiros mecanismos de estudo, divulgação e reeducação dos motoristas, com o auxilio de psicólogos.

Até 1967, a Suécia empreendeu uma verdadeira batalha estrutural e psicológica visando uma mudança radical no trânsito de suas cidades. Mesmo ainda impopular, a troca de direção foi sendo constantemente lembrada por meio de uma massiva campanha de divulgação que incluiu até mesmo um concurso em busca de um tema musical para as ações, tendo como vencedora a canção “Håll dig till höger, Svensson (‘Mantenha-se à direita, Svensson’), executada pelo cantor Boris, juntamente com a banda “The Telstars”.

Conforme o Dagen H se aproximava, cruzamentos novos em folha eram inaugurados, novas placas de sinalização eram colocadas e envoltas em plástico preto. Depois de tanto trabalho – estrutural, publicitário e psicológico – chegava o tão aguardado dia 3 de setembro de 1967, era o Dagen H, e um misto de expectativa e imprevisibilidade rondava as grandes cidades da Suécia.

O Dia D…ops, Dia H

Na manhã do Dagen H, todo o tráfego da Suécia deveria parar no período que iria da 1h às 6h, a exceção apenas de carros de serviço e outros veículos que tinham autorização especial para circular. Em Estocolmo e Malmo, o período de bloqueio do tráfego foi maior que em todo o país, ocorrendo entre as 10h de sábado até as 15h de domingo. O objetivo desta pausa servia para os grupos de trabalhadores reconfigurar alças de acesso e cruzamentos, além de efetuarem as pinturas nas pistas e revelar as novas placas de trânsito recém-colocadas em pontos estratégicos.

Assim estava o centro de Estocolmo na manhã seguinte ao Dagen H (Hemmings Daily)
Assim estava o centro de Estocolmo na manhã seguinte ao
Dagen H (Hemmings Daily)

Na segunda-feira seguinte ao Dagen H, a cena era de completo pandemônio nas ruas suecas, mas que não tomou nada do que quatro horas de reprogramação dos cérebros de centenas de motoristas que, conforme o horário estipulado pelo governo sueco, trocariam de pista, da esquerda para a direita. Nos primeiros dias, eram inevitáveis cenas como de motoristas cruzando erroneamente vias ou entrado em ruas pelo lado contrário. Mas nada que o tempo fosse fazendo o trabalho de ajustar o motorista sueco a nova realidade do tráfego em seu país.

Outras duas mudanças em especial foram, sem dúvida, os maiores encargos financeiros da Suécia durante os procedimentos do Dagen H. A primeira era com relação aos faróis dos automóveis, que precisaram ser trocados por novos, calibrados para o tráfego na direita e que evitavam o ofuscamento dos condutores no novo sentido.

A outra, sendo a mais cara de todo o esquema de alteração, foi com relação ao transporte coletivo, onde cerca de 9000 ônibus foram adquiridos ou adaptados com a porta para o lado direito. Além disso, na maioria das cidades suecas o serviço de bondes foi desativado, permanecendo em funcionamento apenas nas cidades de Gotemburgo e Norrkopping até os dias de hoje.

Da confusão a excelência

Com o passar do tempo, as mudanças começaram verdadeiramente a deixar um bom resultado para o futuro do trânsito na Suécia. Os índices de acidentes no país, altos nos primeiros meses da mudança, baixaram consideravelmente, alcançando números até abaixo dos registrados no período anterior a 1967. Um dos responsáveis por estas estatísticas positivas, além do melhor campo de visão dos motoristas, foi uma espécie de “concentração forçada”, já que para se adaptar a nova mão de direção, o motorista sueco ativou uma espécie de “piloto automático”, passando a guiar mais cautelosamente e mais concentrado.

Ao longo dos anos, a Suécia foi se tornando também, graças a iniciativas no campo da segurança veicular, um dos países mais seguros para se dirigir no mundo. Em 1997, 30 anos após o Dagen H, os suecos entraram definitivamente na vanguarda da luta contra as mortes no trânsito com a criação do programa “Visão Zero”, que busca zerar por completo as estatísticas. Investimentos em veículos mais seguros (tendo como exemplo maior os automóveis da Volvo) somaram-se ao planejamento de vias exclusivas para pedestres, estradas com ênfase na segurança e prioridade a novos meios de locomoção alternativos. Os resultados tem sido extremamente positivos e servidos como molde até então.

Suécia nos dias atuais. Transito que priorize a segurança é o segredo da excelência (Flatout)
Suécia nos dias atuais. Transito que priorize a segurança é o segredo da excelência (Flatout)

Chegando a 2014, a Suécia continua como modelo mais do que exemplar na busca por um trânsito mais seguro, democrático e prazeroso para quem precisa, seja de locomoção para o lazer ou para o trabalho. Uma peregrinação paciente que começou com um ato ousado, impopular, mas que passados 47 anos, coloca esta simpática nação em uma posição de excelência nas estradas.

Quer exemplo de planejamento melhor para o trânsito? Pergunte a um sueco, pois para eles, exemplos não faltam. E tudo começou com uma curiosa mudança para a direita.

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