Para este Natal: menos

Faz algum tempo que decidi voltar a me exercitar. As razões são muitas, mas a principal continua a ser o assustador histórico de diabetes na família, pelo lado da minha mãe. E também porque estava cansada da vida de sedentária, vida essa que muitos escritores costumam levar, bundas sentadas nas cadeiras enquanto encaram telas vazias, esperando uma grande ideia surgir (grandes ideias são inconvenientes; geralmente chegam quando você está no mercado, ou no meio de uma consulta com o dentista, razão pela qual você vai ver muitos escritores andando com caderninhos no bolso. Se há um caderninho: é um escritor).

A rotina física, por enquanto, consiste em 40 minutos de esteira todos os dias. Às vezes, troco a esteira pela rua, e é nela que enxergo Blumenau durante sua manhã, o trânsito já dando sinais do caos que vai aparecer um pouco mais tarde, as pessoas correndo, levando seus cães para passear. Foi na caminhada de hoje que, passando pela Alameda Rio Branco, me deparei com um casarão, que ali estava desde que eu cheguei, sendo destruído; para dar lugar a um prédio, logicamente (um empreendimento, como chamam). O casarão, com ares coloniais, nunca me encantou muito, nada sei sobre quem o construiu ou quem morou ali, mas fiquei um tanto sentida ao me dar conta do fim que ele teria. Algo a respeito daquelas árvores todas derrubadas e da grama revirada pareceu simplesmente injusto.

Consumismo de natal (David Dixon/UK)
Consumismo de natal (David Dixon/UK)

Andei lendo o livro de uma jornalista, Naomi Klein, e recomendo-o para todos: “Sem Logo.” Não existe uma associação óbvia entre as árvores do casarão colonial derrubadas e o que Klein escreveu, mas enquanto observava a destruição, foi no livro dela que pensei.

Costumo pensar que nós, seres humanos, temos a deselegante tendência de tomar espaço demais, mais do que precisamos. Fizemos (ainda fazemos) isso com animais, levando muitos à extinção, e fizemos até com outros seres humanos, aportando nossos navios em suas praias e fincando nossas bandeiras em seus lares e gritando: “Agora é meu” (ninguém perguntou para os índios que habitavam o vale o que eles achavam da colônia de alemães que chegava, afinal).

Algo dentro de nós sempre quer mais; e isso pode ser bom, mas como qualquer dom, também pode ter seu lado ruim. Somos a cultura do mais. Mais consumo, mais lugares para tomar e construir coisas para ainda maior consumo. E de onde vêm as coisas que consumimos? Naomi Klein conta. E conta tão bem que me deixou traumatizada, que agora vejo coisas em vitrines e sinto certo nojinho quando penso em comprar. Comprar. Comprar é tão fácil. Há o preço na etiqueta e, se podemos pagar por ele, levamos. Mas há um outro preço, que pouco consideramos, que envolve o que custou produzir o que você está levando na sacola da loja. Os funcionários mal pagos, de países pobres, fazendo turnos absurdos, agrupados em dormitórios desconfortáveis e fedorentos, costurando aquele tênis que você vai usar; a água que é consumida para se fazer um automóvel; as árvores que são cortadas para todo o resto. Não costumamos pensar nesse outro preço, mas acho que devemos começar.

É quase Natal: época de consumir ainda mais, mais e sempre mais. As pessoas lotando shoppings e ruas, comprando seus mimos e brinquedos made in China, sem ter muita consciência do que o “made in China” significa para o chinês que está agora mesmo trancado em alguma fábrica, costurando ou soldando ou respirando gases nocivos. Mas avante vamos: construindo e consumindo.

Não faço mais desejos para Papai Noel. Papai Noel, como revelou a imagem registrada de um shopping em Curitiba, em que ele cobre o rosto da criança que tem no colo só porque os pais não quiseram pagar pela fotografia que eles mesmos tiraram, não é gente boa, e também só pensa no dinheiro. Mas se Papai Noel, a entidade mágica, se ele existisse, pediria de presente pessoas querendo menos, pessoas dando mais espaço, no lugar de destruir e de tomar, de engolir tudo; pessoas pensando mais no mundo; pessoas pensando mais em pessoas.

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