O materialismo E da classe C

O ex-presidente Lula gostava de se gabar do crescimento econômico promovido pelo seu governo, de quantas milhões de pessoas saíram da extrema miséria, quantas migraram para a classe média, entre outras afirmações. A atual presidente Dilma bate na mesma tecla.

No entanto, a qualidade da educação no Brasil está abaixo até da Palestina no ranking da UNESCO. E a criminalidade migrou para as cidades pequenas, sem deixar de crescer nas grandes metrópoles. A pergunta é: em que crescemos?

O que houve foi o deslocamento de uma população de uma classe econômica para outra, mais elevada. Isto, porém, não implica no crescimento totalizante de um povo.

Mas o que seria um crescimento “totalizante”?

Infelizmente, mais renda não significa mais instrução, mais cultura, mais profundidade. Uma verdadeira mudança implicaria numa mudança de costumes, algo mais interior que exterior. E, para isso, não é preciso estar na classe X ou Y.

Ao investigar esses “costumes”, encontrei uma empregada doméstica, Valcira (nome fictício), de 30 anos. Ela parou de estudar na 8ª série para trabalhar, na época, de vendedora. Ao casar, parou de trabalhar, mas não retomou os estudos. Após separar-se do marido, sem instrução nem experiência suficientes, teve que abraçar o serviço doméstico.

Não se saiu mal. Ela hoje tem um carro popular, uma casa alugada e um cartão de crédito. E além dos gastos domésticos, o que gosta de comprar? “Roupas são meu objeto de desejo”, diz Valcira, que gosta de ouvir funk e sertanejo universitário e tem três calças no guarda-roupa. Segundo ela, as três são “de marca”.

Inversão

Infelizmente, os valores humanos estão desaparecendo em benefício dos bens materiais. Nossa sociedade vive uma crise moral sem precedentes. Valores se confundem ou são invertidos, naturalmente ou por manipulação do poder.

Exemplos dessas inversões de valores, temos aos montes, certo? Pergunto para o lojista Oscar (nome fictício), 46 anos. Ele aponta para um carrão importado passando na rua à nossa frente. “Ali pode estar um riquinho que faz pós-graduação, mas é preconceituoso, recalcado e violento, ou pode estar um ex-pobre, novo rico, que nunca leu um livro e ouve música num volume capaz de atingir um bairro inteiro”.

E o que Lula ou Dilma responderiam ante tais argumentos? Talvez usariam o exemplo de Valcira para legitimar seu discurso. E não tocariam nas implicações culturais da situação. Sem menosprezar os avanços econômicos obtidos no governo do PT, mas seria bom se esses avanços viessem acompanhados de uma reforma cultural, mais que política.

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