Se eles tivessem falado menos

Uma festa de aposentadoria nunca é, no real sentido da palavra, uma festa.Sempre há um luto do término de carreiras que entraram em decadência por alguns anos.  Naquela quente noite de verão, os convidados sexagenários bem comportados  fingiam risadas nada autênticas enquanto saboreavam uma janta sem sal, um drink sem álcool e uma sobremesa sem açúcar nos jardins da nova tradicional classe média brasileira.


O velho “Comandante”, empresário mais bem sucedido da festa, estava sentado a beira da piscina. Nunca gostou de festas, muito menos de aposentadoria,era um comunista desiludido com seus companheiros e com a vida. Iniciou sua trajetória no movimento estudantildefendendo pautas progressistas. Após alguns anos no serviço público,construiu um pequeno império no ramo imobiliário. A auto destruição de sua imagem honesta e confiável começou quando ele havia sido expulso do partido comunista ao ser  acusado de lavagem de dinheiro.Voltou há comandar eleições quando fora convidado para fazer parte da “Defesa de Nicolas Maduro” na Venezuela, deu no que deu. Voltou ao Brasil desiludido e desamparado. Nenhuma das cinco mulheres que teve suportavamo fato dele não ter assumido suas crias.

O dono da festa, chamado de “Xerife” pelos mais próximos, descobrindo a melancolia de sua festa, sentou-se junto ao velho comandante. “Xerife” era um neoliberalista que viveu uma vida tipicamente burguesa. Não conseguiu ficar rico com sua ideologia e nem fazer a felicidade de sua mulher, que, ao sofrer de grave depressão durante a vida, cometeu suicídio ano passado. “Executivo” chegou a morar nos EUA, mas voltou ao Brasilao perceber que o sistema de saúde norte americano dava margem ao comunismo. Desapontou-se profundamente com o partido republicano (um partido conservador para chamar de seu) que elegeu um presidente com ideias econômicas muito semelhantes a de Fidel Castro. Claro, um ponto que pesou para ocorrer seu retorno ao Brasil foi o fato de ter entrado irregularmente no Brasil e ter sido descoberto.  Continuava detestando imigrantes.

Xerife e Comandante não suportavam um ao outro. Durante suas vidas, unidos somente por laços sanguíneos, realizavam brigas intermináveis sobre política, economia, sociologia, moda e gastronomia.Ambos nunca escutavam um ao outro e ressaltavam que a discordância era afeto.

Porém, todavia e contudo, acredite se quiser, aquela noite era diferente, ao invés de brigas, havia o silêncio: os dois carregavam os pesos de suas ideologias terem sido destruídas. Seus líderes políticos estavam presos e suas crenças fanáticas enterradas no túmulo de Marx ou Smith.

A maior decepção de ambos, talvez nem fossem o fato de suas vidas terem sido construídas em cima de um grande muro de hipocrisia, mas sim, o fato do país ter dado certo através de uma política centralista e conciliatória. O amado radicalismo parte de suas vidas não era útil ao país.

A vida, havia tornado suas ideologias insignificantes. O silêncio que antes os separava, agora os unia por um fio quase que invisível de compreensão. Não houveram abraços ou aclamações, havia apenas a vida, e todo o seu peso e seu significado.

Ali ficaram, os dois imóveis enquanto caia em suas cabeças a primeira bomba nuclear já construída. Era o início da terceira guerra mundial iniciada por um presidente norte americano da direita que defendia maior participação do Estado na sociedade e um ditador Comunista que adorava ir à Disney.

Donald Trump, Kim Jong-un e seus mísseis (vexels)

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