Roland Ratzenberger na frente de Ayrton Senna

(divulgação)
Ratzenberger – Três corridas e um final trágico
de, talvez, uma futura promessa (divulgação)

Vem um flash na minha mente nestes dias que lembramos da passagem de Ayrton Senna, que ainda hoje trazem lágrimas e saudades a muitos que puderam o ver correr, vencer e maravilhar seus fãs. Foi no Globo Repórter especial sobre ele, em 1994.

O pai e o filho, um menino de mais ou menos 3 anos, faziam parte do fã-clube mais famoso do piloto brasileiro, a Torcida Ayrton Senna (TAS). O pai pergunta ainda sorridente para o filho a seguinte questão:

“Papai do céu fez um autódromo, e tava precisando de quem?”

O pequenino, inerente ao que acontecia a sua volta mas sabedor do que acontecia no esporte favorito da família responde prontamente “dois pilotos”. O pai volta a perguntar-lhe, “dois pilotos? Quem que é o outro piloto?”

O filho, talvez não querendo falar de Senna, volta a responder, “é o Ratzenberger”.

A Simtek em 1994: Poucos recursos, pouca estrutura e um desempenho sofrivel (F1 Nostalgia)
A Simtek em 1994: Poucos recursos, pouca
estrutura e um desempenho sofrivel (F1 Nostalgia)

Poderia ter sido o primeiro alarme de que algo não estava bem em Imola? Poderia ter impedido até mesmo a morte de Senna? Muitos jamais vão saber, como também jamais vão saber detalhes da carreira prematuramente encerrada deste austríaco de Salzburg, nascido no mesmo 1960 em que nasceria o tricampeão.

Seria ele uma futura promessa? Seria apenas um piloto pagante?

Ninguém saberá, certeza apenas foi que Roland Ratzenberger, conseguiu ir a frente de Ayrton para o dito “autódromo do papai do céu”, como se referia o pai que mencionara acima.

Ratzenberger, aos olhos de muitos, era um modesto “pay-driver”, pilotos que, por determinada quantia vinda dos patrocinadores, conseguiam de certa forma “comprar” um lugar em uma equipe. O interesse do austríaco em pisar na F1 era o mesmo interesse que a Simtek, equipe criada no fim de 1993 na Inglaterra, também tinha. O team foi fundado pelos projetistas Nick Wirth e Max Mosley (este último o então presidente da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) na ocasião) e não dispunha de recursos abundantes para poder criar raizes na categoria.

David Brabham, Ratzenberger e Nick Wirth (em pé), sugestões para o inacertável carro (F1 Nostalgia)
David Brabham, Ratzenberger e Nick Wirth (em pé)
, sugestões para o inacertável carro (F1 Nostalgia)

A Simtek, nada mais era do que um pequeno escritório de projetos a baixo custo para equipes de competição. Seria o mesmo escritório responsável em 1992 pela criação do carro da Andrea Moda, considerada a pior equipe de F1 de todos os tempos.

Na verdade, o carro do team de Andrea Sassetti nada mais era do que um antigo projeto da BMW repaginado e que conseguiu marcar os piores momentos possíveis de uma equipe na categoria. Depois de uma tentativa de projeto para a recém-criada equipe Bravo, em 1993, Wirth decide dar a cara para bater em 1994, com diminutos recursos e pouquíssimos – quase inexistentes – equipamentos de ponta.

O primeiro piloto do team era o australiano David Brabham, filho da lenda da F1 Jack Brabham, que com o ingresso de seu filho na equipe se tornava também acionista da Simtek. Tendo opções de pilotos experientes para chamar ao time, como Andrea de Cesaris e o brasileiro Gil de Ferran, Wirth decide chamar Ratzenberger, que não era simplesmente um piloto aventureiro na categoria, teve participações destacadas em categorias como a F3 e a F3000, e por muito tempo competira em categorias no Japão, também já havia participado das 24 horas de Le Mans, com carros de equipes niponicas.

Roland no Brasil: Apesar do esforço, não se classificou para o grid (F1 Nostalgia)
Roland no Brasil: Apesar do esforço, não se
classificou para o grid (F1 Nostalgia)

No entanto, a vaga de Ratzenberger tinha suas condições, o contrato que havia conseguido valia apenas por cinco corridas. Portanto para ele, o mais importante era demonstrar trabalho para garantir alguma coisa futuramente, se não na Simtek, talvez como piloto de testes de algum time da F1.

Seu patrocínio principal que o bancaria por estas cinco provas vinha da empresa da gerente de esportes da equipe, Barbara Behlau, e outros potenciais pagadores ameaçavam seu posto no team. Era preciso se concentrar, se ele quisesse fazer muito mais do que cinco corridas.

Na primeira prova logo a primeira frustração. Roland não consegue se classificar no Brasil e, dos boxes, vê David Brabham levar cuidadosamente o seu bólido na 12ª posição, quatro voltas atrás do vencedor Michael Schumacher. Não era por falta de talento de Roland, simplesmente era a falta de estrutura da Simtek. Guardadas as esperanças, Ratzenberger consegue melhor desempenho no Japão, onde larga em último e termina em 11º, cinco voltas atrás do vencedor e há 30 segundos atrás do carro mais próximo.

Em Imola, buscando melhorar o 11º lugar conquistado no Japão (F1 Nostalgia)
Em Imola, buscando melhorar o 11º
lugar conquistado no Japão (F1 Nostalgia)

No entanto, para Roland era motivo de alegria um resultado deste tipo, no entanto o desempenho da equipe era sofrível para uma estreante.

Visando alguma melhora no início da parte européia do mundial, o austríaco viaja empolgado para Imola, onde tentaria algo melhor e, provavelmente, se empenharia ainda mais em buscar um “bom” resultado, pois faltariam ainda apenas duas corridas a cumprir.

Ele foi para sua tentativa, era simplesmente um mero desconhecido que acelerava uma máquina caquética em busca de um lugar no grid, quase garantido por sinal, pois Rubens Barrichello já havia sofrido o grave acidente com sua Jordan na sexta-feira e estava fora do GP.

Após aquecer os pneus, Roland acelerou tudo, despejou as poucas cilindradas do motor Ford de sua Simtek, mas não esperava que um golpe do destino acabaria o fazendo chocar-se a quase 320 Km/h no muro da curva Villeneuve. Causa do acidente? Um spoiler de seu carro que se soltara depois de uma saída de pista antes da abertura da volta.

O choque fez o carro, já com Ratzenberger desacordado, parar na curva seguinte (a chamada “Tosa”). Era uma cena que a F1 não estava mais acostumada a ver em muitos anos, descordado (ou até morto), com o capacete predominantemente branco adornado macabramente com sangue, Ratzenberger era focalizado pela lente da câmera de TV em seu último close. Foram múltiplas fraturas no crânio e no pescoço, mas a morte de fato seria decretada oficialmente horas depois dos treinos, no mesmo Hospital Maggiore em Bolonha que recebria no dia seguinte o corpo desfalecido de Ayrton Senna.

O Simtek quase desintegrado, trazendo Ratzenberger desfalecido no cockpit (F1 Rejects)
O Simtek quase desintegrado, trazendo Ratzenberger desfalecido no cockpit (F1 Rejects)

Há quem diga que, se o anuncio da morte de Ratzenberger fosse dado antes poderia até ter sido cancelado o GP por falta de segurança. Nada feito. Apesar de duas colisões violentas, sendo de Roland a fatal, nada podia parar o “show” que seria em Imola, e a inexpressividade da Simtek não iria ser a determinante maior para decretar o cancelamento de uma prova que teria todos os ingredientes de um GP normal. Morria o austríaco, ficava o esquecimento, mas também o prenuncio de uma lição que seria duramente aprendida apenas no dia seguinte, quando uma estrela do circo “precisava” morrer para tanto.

David Brabham em Mônaco, e a singela homenagem a Ratzenberger (F1 Rejects)
David Brabham em Mônaco, e a singela homenagem a Ratzenberger (F1 Rejects)

E dentre toda essa mistica que traz a participação precoce de Ratzenberger, um desconhecido que na busca do sonho acabou perdendo a vida pela ignorância da mudança de regulamento incompleta, Senna tinha planejada uma homenagem para o piloto no dia seguinte. Havia pedido para seu empresário, Julian Jakobi, uma bandeira da Áustria, que a usaria em caso de vitória. O acidente na décima volta não deixou o brasileiro saudar o desconhecido Roland.

No entanto, durante algumas corridas pós-mortem de Roland, a Simtek prestou uma justa homenagem, ao colocar no topo da entrada de ar dos carros, onde ficava a marca do seu patrocinador, uma inscrição estilizada nas cores do capacete do austríaco, com a mensagem “for Roland”.

Foi há 20 anos, e se Roland nas pistas nunca teve a chance de duelar com estrelas do circo, pode-se dizer que ao menos, chegou a frente de Senna diante das estrelas do céu.

Roland Ratzenberger (1960-1994)

Senna atrás de Roland, uma imagem que não necessita de comentários (F1 Nostalgia)
Senna atrás de Roland, uma imagem que não necessita de comentários (F1 Nostalgia)

2 Comentários

  1. Parabéns pessoal do FAROL BLUMENAU, sempre com noticias sucintas e bem elaboradas, com censo crítico e ética profissional. Continuem a nos brindar com artigos e fatos relevantes…

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