O fio que tece a história do Vale do Itajaí

O barulho das fiações é ouvido ao longe. O algodão, que entra de um lado cru e sujo, sai de outro em linha reta, branquinho. E é este fio que dará origem à diversas peças que são utilizadas no dia a dia da população. Este é um processo que se repete inúmeras vezes no Vale do Itajaí, uma vez que a região se consagrou como o polo têxtil do país.

Fios em um tear (Carolina Alves)
Fios em um tear (Carolina Alves)

São pais e filhos, donos e colaboradores, vendedores e consumidores que dependem destas empresas para sobreviver, para tocar o seu negócio ou para desenvolver outra atividade. Todos têm uma história para contar. Um registro recheado por tradições, costumes, transições financeiras e muitos momentos que valem a pena serem relembrados.

A história desta região está nas tramas de cada tecido, entrelaçada em cada fio que tece sua existência. Com a colonização europeia, em especial a alemã, vieram os costumes da manufatura têxtil. Quando se instalaram em Santa Catarina, os colonizadores foram desenvolvendo a atividade, primeiramente em suas famílias, com a ajuda de poucas pessoas e produzindo em baixo volume.

Com o avanço do tempo e da tecnologia, estes processos foram sendo, aos poucos, desenvolvidos e aperfeiçoados e os negócios foram expandindo e ganhando proporções cada vez maiores. Agregando colaboradores e aumentando suas cotas de produção, começando a atender cada vez mais mercados. Na região, há diversas empresas que passaram por este processo de aperfeiçoamento, entre elas estão: Karsten, Dudalina, Teka, Kyly, Brandili, Hering, entre outras. Muitas, desde hoje, são reconhecidas nacional e internacionalmente pelo seu trabalho e marca, tanto que a região é uma das mais premiadas no segmento.

Um verdadeiro museu em grandes proporções e em funcionamento, a indústria têxtil no Vale do Itajaí conserva um valor histórico-cultural enorme e de extrema importância para entender as antigas tradições e costumes dos povos que residiam aqui anteriormente. A empresa Hering, conserva em suas dependências, um museu onde mostra peças antigas de roupas. No local, é possível fazer uma linha do tempo das vestimentas, comparando a evolução dos trajes masculinos e femininos.

Outras empresas do segmento também conservam resquícios de sua história. Antigas máquinas de tecelagem, formas de manufatura, descrições de processos, entre outros, fazem parte do ambiente e dos documentos que as companhias possuem. Além disso, em muitos casos, trazem consigo, a história agregada na vida de seus fundadores, de maioria alemã, saídos da Europa entre os anos de 1920 e 1950.

Além da importância histórico-cultural, as empresas têxteis agregam um valor econômico muito alto. São empresas que valem de 50 milhões a dois bilhões de reais e que somadas, tornam-se um verdadeiro tesouro catarinense. São investidos a cada mês, cerca de 15 milhões de reais apenas para a compra de novos equipamentos e tecnologias para melhoria de processos.

Porém, além desta importância econômica para a região, as têxteis têm o papel de garantir o poder aquisitivo da população. Mais de 60% das pessoas residentes nos municípios desta região catarinense, como Indaial, Blumenau, Pomerode, Ascurra, Apiúna, Rodeio, entre outras, trabalha ou depende do segmento têxtil para seu ganho ou sobrevivência. Por ano, há uma média de cinco mil empregos gerados a partir de vagas no segmento. Isto acaba por ocasionar circulação no mercado de trabalho, sendo importante para localidade e desenvolvendo seus arredores.

Com 30 anos trabalhados em uma mesma empresa, Henrique Schrer, supervisor, conta que aprendeu e conquistou muitas coisas em sua vida através do que foi oferecido pela companhia a qual trabalha. “Devo minha vida a esta empresa, desde jovem eu trabalho aqui. Comecei como tecelão e com o tempo, fui estudando e conhecendo outros setores da empresa para me tornar mais apto a exercer cargos mais altos. A empresa onde trabalho me ofereceu chances de crescimento e hoje, só tenho a agradecer”.

Entretanto, ser uma região forte em determinado segmento, possui também seus malefícios e requer cautelas. Em 2011, o mundo viu inúmeras empresas têxteis quebrarem devido ao que ficou conhecido como crise do algodão. Como esta é a matéria prima principal para muitas destas têxteis, elas acabaram ficando sem mercadoria, não havia produção de estoque, não se efetuava venda e não entrava capital, o que gera dívidas e quebra uma empresa. Conforme fala o economista blumenauense, Luiz Antônio, “a empresa tem que ter um excelente plano de mercado para não ser engolido pelas crises. Todos os anos o segmento passa por altos e baixos e ela precisa estar preparada para enfrentar todas estas dificuldades”.

Falando em vendas, pode-se dizer que mesmo depois de anos constituindo mercado em Santa Catarina, em especial o Vale do Itajaí, as empresas do setor continuam a trazer muitos benefícios financeiros para as cidades as quais pertencem. Mayara Silva, que trabalha há dois anos no segmento televendas de uma empresa têxtil, afirma que “a cada ano, há uma procura muito grande pelos produtos oferecidos. São desde lojistas e institucionais, até o próprio consumidor final em busca do que se tem a oferecer”.

Contudo, há um ano e meio, o mercado têxtil vem sofrendo uma concorrência com os produtos que vêm da China. Desde que foram abertas as portas para a livre importação de produtos chineses, as vendas de companhias nacionais caíram em torno dos 17%.

“a empresa tem que ter um excelente plano de mercado para não ser engolido pelas crises. Todos os anos o segmento passa por altos e baixos e ela precisa estar preparada para passar por todas as dificuldades”.
Luiz Antônio, economista

Ainda segundo o economista Luiz Antônio, é preciso que o governo tome alguma medida para fiscalizar a comercialização destes produtos para não desestruturar o mercado nacional. “Sabemos que os produtos chineses têm um valor de aquisição menor, porém, também possui qualidade questionável. Os lojistas estão pagando pelo preço, assim como os consumidores, e estão deixando de lado as empresas brasileiras, o que está gerando crise em muitas delas. Se o governo não criar alguma medida, teremos um colapso na economia”.

Em Blumenau, todos os anos, ocorre uma das maiores feiras de produtos têxteis do país, a Texfair. Ela reúne grandes nomes da indústria têxtil, e é visitada por pessoas, especialmente empresários, de todo o mundo. O objetivo da feira é levar informações de método de produção, inovação em produtos, apresentação de novidades e a possibilidade de fechamento de negócios. Economicamente falando, gera um grande capital. Tanto que as empresas se preparam o ano inteiro para uma semana de feira.

A indústria têxtil na região é de suma importância para economia, desenvolvimento, cultura, tradição, entre outros fatores da localidade e de seus residentes. Elas conservam a história e inspiram modernidade. Bens de tão grande valor, que merecem o apoio e preservação necessária. As têxteis do Vale do Itajaí são um registro do passado agregado a esta terra, a vivência do presente, e uma perspectiva de futuro, aliado a conhecimento e credibilidade.

Matéria disponível na revista Interessa.

Por Alexandra Ittner | Especial

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