Ele chegou

Ele chegou. Eu disse que chegaria e ele chegou. A mudança não foi tão brusca; mesclou-se com alguns dias amenos e com alguns dias de chuva, mas agora ele está aqui, e ele chegou para ficar pelos próximos três meses. Meu grande inimigo: o calor. Abro a janela e sinto aquele bafo entrar, e ainda nem meio-dia é; assim o calor me cumprimenta, assim avisa que já está aqui.

Exercícios nas ruas: só em dias nublados. Às vezes, nem isso funciona, porque mesmo sem ver o sol o calor capricha e faz da cidade uma estufa, uma panela de pressão. Dei de fazer esteira: mente sã, corpo são. Quando acabo de andar, sinto que sou um picolé que ficou tempo demais sob o sol. Nem ar-condicionado ajuda. O que ajuda é uma boa ducha, que parece tirar do meu corpo o calor e mais cinco quilos de brinde. Existe algo mais fantástico do que um banho depois de se exercitar? Especialmente sob a influência do verão demoníaco? Eu acho difícil encontrar algo que possa competir.

Papai Noel (Rayssa Natani/ G1)
Papai Noel (Rayssa Natani/ G1)

Quando chegamos nesta época, os meados de novembro, o início de dezembro, me encho de pena por uma criatura em particular: o imitador de Papai Noel. Quando vejo o pobre homem barbudo e vestido dos pés à cabeça como se estivesse para enfrentar 20 centímetros de neve algo no meu coração se parte. A gente faz o que é preciso para sobreviver, eu entendo, e o blumenauense há de ser piedoso com seus Papais Noéis. Debaixo daquele chapéu cor de embalagem de Coca-Cola existe um ser humano que precisa fingir ter chegado do Polo Norte, e não do calor mortal que faz com que o concreto das calçadas pareça fumegar. O infeliz Papai Noel: que aceita que crianças sentem em seu colo e falem de coisas que querem, que os pais secretamente já compraram, e que suporta a tudo com uma alegria forjada que jamais pode vacilar. Mais amor por ele.

Em texto passado, quando mencionei o calor, sugeri que o povo de Blumenau ganhasse um feriado de três meses. Agora proponho outra coisa: uma revisão do vestuário do Papai Noel. Alguém dê uma bermuda para o coitado. E chinelos. E uma regata decente. E quem sabe alguns dias em algum resort no litoral, para que ele possa apreciar o verão à sombra de um guarda-sol, bebendo coco gelado e falando mal das crianças que causaram a artrite precoce em suas juntas. Até o Papai Noel merece um descanso quando ele, o calor, chega. E ele chegou.

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