quarta-feira, 29 de junho de 2022
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21 de fevereiro – tomada de Monte Castelo: recordando os bravos

Em outubro de 1943, criou-se no Brasil a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE), com a finalidade de participar dos combates na Europa. A 1ª DIE, que viria a se tornar conhecida como Força Expedicionária Brasileira (FEB), era comandada pelo general João Batista Mascarenhas de Morais. Brayner chefiou o Estado-Maior da FEB a partir de janeiro de 1944, e foi portanto uma das mais altas autoridades entre os oficiais brasileiros integrantes da força.

Em maio de 1944, Brayner passou a integrar o estado-maior especial que tinha a missão de planejar e executar o embarque da 1ª DIE, juntamente com os tenentes-coronéis Amauri Kruel e Humberto de Alencar Castelo Branco e dois oficiais norte-americanos.

No dia 2 de julho, partiu para Nápoles, Itália, a bordo do navio General Mann, na condição de chefe do Estado-Maior Divisionário, órgão intermediário entre o comando e os organismos de execução. Seguia na mesma viagem o 1º Escalão da FEB, comandado pelo general Mascarenhas de Morais. O 2º e o 3º escalões chegariam a Nápoles em outubro, o 4º em novembro e o 5º em fevereiro do ano seguinte.

Em agosto de 1944, a 1ª DlE foi incorporada ao V Exército norte-americano, estacionado na Tarquínia, passando a operar como uma “grande unidade”. Na ocasião, Brayner reformulou seu estado-maior, criando serviços de destacamento: saúde, inteligência e polícia.

Em outubro do mesmo ano, Brayner compareceu, juntamente com o comandante da FEB, general Mascarenhas de Morais, a uma reunião de comandantes de grandes unidades, realizada em Passo di Futa. Nessa reunião avaliou-se o estado geral das tropas norte-americanas, considerado precário, e, em decorrência, tomaram-se diversas decisões, algumas das quais atribuíam aos combatentes brasileiros grandes responsabilidades. Segundo afirma em suas memórias, Brayner considerava essas tarefas muito superiores às forças e à experiência das tropas da FEB.

O coronel Brayner deixou essa reunião com a convicção de que se devia organizar um grupo de oficiais do Estado-Maior da FEB para atuar junto ao comando do V Exército norte-americano. Em suas memórias, relata que, entrou em choque com o tenente-coronel Castelo Branco, chefe da seção de operações do Estado-Maior, a quem teria acusado de obstar as iniciativas no sentido de conseguir um maior entrosamento com os oficiais norte-americanos, de maneira a abrir a discussão sobre o emprego das tropas brasileiras.

Quando, no inverno de 1944-1945, as tropas brasileiras foram incumbidas de tomar a localidade de Monte Castelo, Itália, ponto de defesa alemã de Castel Nuovo, principal objetivo militar da região, acirraram-se, sempre segundo Brayner, as discordâncias entre sua posição e a do comando norte-americano e de seus companheiros do Estado-Maior. Das tropas estacionadas na região, apenas as brasileiras receberam encargos de combate, embora fossem as menos aparelhadas e capacitadas para enfrentar o rigor do inverno europeu. Entre 27 de novembro e 12 de dezembro de 1944, quatro ofensivas foram rechaçadas pelos alemães, provocando um total de 350 mortes e ferimentos em centenas de combatentes da FEB.

Brayner afirma em seu livro que encontrou em Monte Castelo a demonstração cabal da ineficiência do comando norte-americano e dos inconvenientes da subordinação dos efetivos brasileiros ao V Exército. De resto, os próprios alemães aproveitavam-se deste problema, lançando panfletos redigidos em português nos quais escarneciam dos soldados brasileiros tutelados pelos norte-americanos, instando-os a retornarem ao Brasil.

As sucessivas derrotas em Monte Castelo se explicavam, para o coronel Brayner, pela repetição de erros táticos, e também pela atuação do tenente-coronel Castelo Branco, já que os preparativos para as operações partiam exclusivamente da seção de operações, sem que se tentasse promover um trabalho de equipe que envolvesse todo o Estado-Maior. Brayner achava, além disso, que Castelo Branco concordava com os planos formulados pelos norte-americanos sem proceder a uma avaliação das tentativas já feitas e frustradas.

Em janeiro de 1945, Brayner viajou ao Brasil em missão oficial junto ao governo, precisando fazer declarações para tranquilizar a opinião pública que, apesar da censura, se alarmava com notícias que falavam de pesadas baixas entre os combatentes brasileiros. Em visita ao Estado-Maior do Exército, concluiu que reinava ali total desinformação a respeito do teatro de operações na Itália, o que atribuía a falsos boletins de informação que o tenente-coronel Castelo Branco teria expedido sem o seu controle.

Após a tomada de Monte Castelo pela FEB em 21 de fevereiro de 1945, Brayner concluiu, em face do alto preço pago em vidas e das condições de combate, que a imposição feita pelos norte-americanos às tropas brasileiras contrariara todas as doutrinas de guerra, com características de primarismo e desumanidade por parte do comando do V Exército.

No dia 19 de abril, Brayner foi encarregado pelo general Mascarenhas de Morais de negociar em Collecchio, no vale do rio Pó, a rendição incondicional de 15 mil soldados alemães, proposta por 30 de seus oficiais. No dia seguinte, praticamente todos os prisioneiros e equipamentos bélicos já estavam recolhidos.

Encerrada a campanha militar do V Exército e da FEB em 2 de maio, as tropas brasileiras estacionaram em Francolise, aguardando o retorno ao Brasil, onde já ia avançado o processo de reconstitucionalização, reforçado pela derrota dos exércitos fascistas.

A campanha militar da FEB, cujos efetivos alcançaram um total de 25.334 homens, 15.069 dos quais utilizados em combate, deixou um saldo de 451 mortos, 1.145 feridos, 23 desaparecidos e 35 prisioneiros. Foram feitos 20.573 prisioneiros entre soldados alemães e italianos.

Com a iminência da volta dos combatentes, criou-se um destacamento precursor, incumbido de preparar, no Brasil, o retorno das tropas. Iniciava-se assim o desmembramento do estado-maior divisionário, a que Brayner se opôs por considerar a medida prematura e por entendê-la como uma manobra do governo para esvaziar a FEB. No seu entender, essa manobra se confirmou quando a chegada ao Rio de Janeiro do general Mascarenhas de Morais foi transferida à última hora do aeroporto Santos Dumont para a Base Aérea de Santa Cruz, onde se poderiam evitar manifestações populares.

Quando Tenente Coronel de Infantaria FLORIANO DE LIMA BRAYNER foi comandante do 32º RI de 08 de Janeiro de 1940 a 29 de Janeiro de 1941 em Blumenau-SC. Nasceu na Paraíba no dia 2 de janeiro de 1897, filho de João das Neves Lima Brayner e de Ana C. Brayner.

Em maio de 1913, sentou praça na Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro (então Distrito Federal), sendo declarado aspirante em fevereiro de 1918. Com exitosa trajetória entre maio de 1935 a dezembro de 1936, exerceu a função de oficial-de-gabinete do ministro da Guerra, general João Gomes. Classificado em seguida no 32º Batalhão de Caçadores, sediado em Blumenau (SC), entre janeiro e maio de 1937 estagiou no Exército francês. Instrutor-chefe do curso de infantaria da Escola de Armas, no Rio, de dezembro de 1937 a dezembro de 1939, retornou em janeiro de 1940 ao 32º BC. Promovido a tenente-coronel em maio do mesmo ano, deixou a unidade em janeiro de 1941, para exercer funções de instrução e direção na Escola Militar do Realengo, onde permaneceu até junho de 1943. Promovido a coronel em abril de 1943, em julho foi escolhido para estagiar nos Estados Unidos. Na ocasião, já iam avançadas as negociações que visavam à participação brasileira na Segunda Guerra Mundial.

O Brasil deveria enviar tropas para o exterior, em íntima conexão com os norte-americanos. Assim, abriram-se cursos especiais de emergência nos EUA para militares brasileiros. O coronel Lima Brayner cursou a Escola de Comando e Estado-Maior de Fort Leavenworth no Kansas. Os Oficiais diplomados Expedicionários superaram as expectativas durante a guerra, exercendo de forma espetacular as lições aprendidas no Forte. Entre os diplomados oficiais no Fort Leavenworth estavam Dwight D. Eisenhower, Omar N. Bradley e George S. Patton. Durante a Segunda Guerra Mundial, 19.000 oficiais completaram vários cursos no Forte Leavenworth.

Coronel LIMA BRAYNER também estagiou no Estado-Maior da 100ª Divisão, em Fort Jackson na Carolina do Sul, Estados Unidos.

Sérgio Campregher
Sérgio Campregher
Sérgio Campregher é historiador pela Uniasselvi/Fameblu e fala sobre política nacional e internacional e curiosidades. Escreve de Blumenau.