O desejável fim das agressões domésticas

Apesar de indesejável naquele momento, o sol parecia pensar em fazer sua retirada no estilo próprio dos célebres dias quentes: ao som das músicas dos trovões juntamente com as reluzentes luzes dos relâmpagos. As aves já notavam a mudança no clima e o céu começava escurecer. Da bipolaridade do tempo para a vida que corria dentro das paredes de construídas em concretos, o asfalto quente da velha cidade queimavam as patas dos cachorros que andavam perdidos nas ruas. Enfrentando o calor, Verônica, cansada por mais um dia de trabalho atropelava os passos em sua suada sandália para chegar em casa antes dos pingos de chuva.

Chegar em casa, esse era o problema.

A camisa de manga longa não era o suficiente para esconder as marcas das agressões que ela sofria de seu companheiro, as marcas em sua alma eram maiores. Os olhos marejados combinavam com a sensação de culpa sofrida por não conseguir sair daquele relacionamento. De início, aquele homem não parecia real. Um príncipe educado apareceu em sua vida. Suas constantes mensagens e seu evidente ciúme eram apenas uma prova de sua paixão turbulenta, era isso que ela pensará naquela época. As grosserias, que antes ele fazia apenas com garçons, com o tempo tornaram-se para ela. A primeira agressão aconteceu com um empurrão, ali ela pensou em terminar com tudo, mas não quis ver a realidade, as desculpas ardentes calaram qualquer pensamento que referia sobre o término do namoro. Os socos eram mais profundos que qualquer dor física. Os tapas atingiam as entranhas da vergonha e da humilhação. Ela era uma mulher machucada pelo príncipe. Vomitava todos os dias de manhã. Não sabia se o dia que raiava seria um dia de glória ou um dia em que terminaria caída no chão do banheiro com suas roupas rasgadas. Toda agressão terminava em choro com o cheiro de mijo de seu banheiro. Os vizinhos escutavam as brigas. Os vizinhos escutavam as reconciliações. Ela mentia para os vizinhos escondendo as marcas dos socos. Os vizinhos mentiam fingindo que tudo estava bem naquele condomínio residencial.

O condomínio Residencial. Ela dava importância aquilo que adquiriram juntos. Os filhos em colégio particular também. Eram como âncoras que a prendiam sob o mar revolto.

Enquanto chegava mais perto de casa, mais sua barriga embrulhava. No céu, os trovões começavam junto com os ventos. Ao chegar no portão de sua casa, ela vomitou, vomitou seu almoço nas velhas sandálias. A zeladora fez um sinal de desaprovação. Ela não aguentava mais, deu meia volta, e, sem olhar para trás, fugiu do homem miserável. Não sabia como recomeçar, mas recomeçou sem ele e, apesar dele, foi feliz.

* Nos primeiros 11 dias do ano, 33 mulheres foram vítimas de feminicídio e 17 sobreviveram

Nenhuma a menos

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