Cemitério de Gatos: mais de um século de história

“Ao esmagar, hoje, uma aranha perguntei-me se me era lícito matar a quem Deus dera, como a mim, parte igual nos dias desta vida.” Esta reflexão sobre a supremacia do homem sobre os animais, atribuída ao escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe, se encontra gravada numa placa no bloco de pedras que sustenta a estatueta de dois felinos no centro do Cemitério de gatos, localizado nos fundos da Fundação Cultural, em Blumenau, Santa Catarina.

A frase retirada da biografia de Edith Gaertner, disposta em sua versão original em alemão e traduzida para o português, demonstra um traço marcante da sua personalidade: uma apaixonada pela natureza e pelos animais, o que hoje podemos chamar de consciência ambiental. O terreno de 1775m², onde o Cemitério está, se manteve preservado desde quando ela o doou ao município em 27 de agosto de 1951, sob a condição de que a área fosse mantida tal como a dona o deixara.

Cemitério de Gatos de Edith Gaertner (Flávia Madrigano)
Cemitério de Gatos de Edith Gaertner (Flávia Madrigano)

O aspecto atual, com diversas espécimes de plantas e uma escultura rodeada por nove lápides, foi construído entre os anos 1991 e 1992 durante a restauração do lugar. “A área como conhecemos hoje foi uma estratégia para explorar e incentivar o turismo nos museus na cidade”, conta a historiadora do patrimônio histórico museológico de Blumenau, Sueli Petry.

Na matéria intitulada “Poucos turistas visitam o Museu da Família Colonial”, publicada pelo jornal de Santa Catarina no ano de 1992, o historiador José Ferreira da Silva, responsável pela reforma, conta que inicialmente existiam quase cinquenta sepulturas naquele local, mas que foram reduzidas em função do tempo que o parque ficou abandonado depois da morte de Edith.

Cemitério de gatos, uma das curiosidades para quem visita a cidade Blumenau. Publicação do jornal O Estado, 3 de julho de 1983.
Cemitério de gatos, uma das curiosidades para quem visita a cidade Blumenau. Publicação do jornal O Estado, 3 de julho de 1983.

Em todos os documentos que mencionam a descendente de alemães no arquivo da Biblioteca Municipal Dr. Fritz Muller, é enfatizada sua intensa dedicação aos animais e obsessão por felinos. Sueli ressalta: “Edith não permitia que os passantes recolhessem os frutos das árvores, pois serviam de alimentos para os pássaros que ali viviam”.

Os nomes imortalizados, em pequenos pedaços de mármore nos jazigos, foram os de Pepito Peterle, Putze, Sittah, Schnurr, Mirl, Mirko, Musch e Bum. Não se sabe até então o porquê da escolha desses bichanos
em especial.

Como disse o “Seu Zé”, eletricista da Fundação Cultural e morador de Blumenau há mais de meio século “é difícil contar uma história de mais de cem anos, os funcionários vão mudando e assim a história também vai ficando defasada”, conclui o sergipano José Meceda.

Sobre Edith

Nascida no século XIX, a sobrinha-neta do fundador da cidade, Hermann Bruno Otto Blumenau – mais conhecido como Doutor Blumenau – era considerada a frente do seu tempo por sua autonomia decisória e espírito livre. Foi para a Alemanha sozinha com 20 anos para estudar artes cênicas. Em seu repertório
estão peças de Goethe, Shakespeare, Schiller e Molière.

“Além de sua paixão por gatos, ela também gostava de se autofotografar, já naquela época ela possuía um dispositivo que permitia a realização do autorretrato. E sentia prazer no hábito de tomar o “chá das cinco”, costume europeu que adquiriu nos anos em que morou na Alemanha”, descreve a historiadora.

Voltou a Blumenau em 1924 para cuidar dos irmãos, Erich e Arnold, que estavam doentes, motivo pelo qual abandonou sua carreira.

Dezesseis anos antes de sua morte, Edith cedeu o terreno herdado por sua família à prefeitura. Herdeiros futuramente tentaram revogar sua decisão alegando que ela não estava lúcida e possuía doenças psicológicas.

Sua decisão foi mantida. Essa forte e temperamental artista morreu no dia 15 de setembro de 1967, deixando o exemplo de altruísmo e amor… a todos os seres.

Edith Gaertner
Edith Gaertner

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