Um pouco sobre a festa da democracia

foto de Michel Filho
Apoiadores de Dilma e Aécio se enfrentam em São Paulo (Michel Filho)

Quando você terminar de (ou começar a) ler esta crônica, é provável que o próximo presidente do Brasil já tenha sido eleito (ou reeleito). No momento em que escrevo, nada sei sobre a decisão, mas adianto, a alguns dias das votações, que não me sinto particularmente empolgada por nenhum dos dois candidatos. Acho que nunca me senti, por nenhum presidenciável, em nenhuma eleição, desde que tirei meu título e comecei a cumprir essa obrigação cívica, o voto. Foi bem em 2003; eu estava com 16 anos e Lula venceu as eleições. Me lembro de que houve comemoração e festa até pelas ruas de Blumenau, como se uma grande onda de mudança finalmente tivesse chegado, como se fosse a hora do Brasil. Onze anos se passaram, e agora estamos aqui, uma vez mais, como se dá há pelo menos 20 anos, para presenciar (ou não) o que uma amiga chama de a troca de chaves: descobrir na mão de qual partido, PSBD ou PT, fica a chave do cofre.

Queria falar de um vídeo que vi outro dia, e que acho que muita gente também viu, que mostrava os eleitores mais devotos da Dilma e do Aécio; enquanto assistia ao vídeo, fui tomada por um tipo de vergonha alheia muito forte, quis me esconder debaixo da mesa, mas aí me lembrei de que estava diante de um computador, com um mouse na mão, e que era meu o poder de simplesmente clicar e impedir o vídeo de continuar. Não impedi: deixei a tempestade seguir. E, entre falas como “precisamos trazer de volta a ditadura” e “tenho 18 anos e não tenho liberdade de expressão porque o PT tira todos os direitos,” é difícil levar as pessoas a sério (as de 18 anos ou não); é difícil digerir quão pouco elas sabem da História do próprio país, é difícil digerir a ignorância dos dois lados, e às vezes me vejo como aquela pessoa que odeia a banda por causa dos fãs da banda (meu entendimento, por exemplo, com o Teatro Mágico).

A televisão mostra a origem dos ânimos exaltados: em debates e em propaganda, Dilma e Aécio são só ataques, um tentando provar que o outro é pior, o outro tentando rebater que seu adversário é pior ainda, o deboche, as risadas, que se transforma em coisas de verdade, em brigas nas ruas, em ovadas, em fachadas de editoras vandalizadas, em gente xingando os nordestinos pelas redes sociais. A grande verdade: nenhuma das flores que nos oferecem cheira muito bem. É possível reconhecer avanços no governo do PT, como a vida das pessoas de baixa renda beneficiou-se com o bolsa-família, como a pobreza diminuiu, mas é possível também reconhecer os escândalos criminosos em que o partido se envolveu; como também acontece com o PSDB, qualquer benefício que o governo dele tenha trazido. A política é uma coisa simples, na teoria, mas complica-se nos bastidores; se torna suja, e ninguém quer largar a chave e perder acesso ao cofre.

É o que vai acontecer no domingo. É o que está acontecendo enquanto você lê a crônica. Ou a chave mudou de mãos ou continuou nas mãos de sempre. E não há muito que me empolgue, na tal da festa da democracia.

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