Só polícia não dá conta da marginalidade

Quando, em novembro de 2010, a polícia do Rio de Janeiro, com apoio das Forças Armadas, e cobertura ao vivo pela TV, invadiu o Complexo do Alemão, parecia que estávamos entrando numa nova era. Surgia a esperança de que finalmente o bem estava vencendo o mal e a partir dali o crime organizado estaria com os dias contados. Ali estava um exemplo que poderia ser usado em todo o Brasil. O que não estava explícito naquela manobra é que a tomada do território dos traficantes era apenas uma medição de forças.

Policiais e militares entraram em território inimigo com armas pesadas, blindados, carros de combate, monitorados por helicópteros e por satélite. Puseram os bandidos para correr e fincaram sua bandeira onde antes tremulava a do tráfico. Depois instalaram a conhecida Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), projeto que visava aproximar a polícia das comunidades, dando proteção aos moradores e desenvolvendo políticas sociais. Isto no papel, claro. No período pós Alemão, várias outras unidades pacificadoras foram instaladas em áreas de conflito dominadas por marginais no Rio de Janeiro.

Soldados da UPP (Agência EBC)
Soldados da UPP (Agência EBC)

Passados quatro anos e meio temos uma nova realidade: policiais dessas unidades sendo mortos, bandidos dando novamente as cartas nas comunidades de onde foram expulsos e contínuos enfrentamentos armados entre quadrilhas, e entre bandidos e policiais, que têm resultado na morte de bandidos, policiais e cidadãos comuns. Não se pode deixar de lado também a morte de cidadãos por policiais, como foi a do pedreiro Amarildo, caso até hoje não totalmente esclarecido. Mortes por balas perdidas, então, nem dá para contabilizar. Recentemente um menino foi atingido por um tiro disparado por um policial de uma unidade pacificadora, mas, neste caso, a bala não foi perdida. Tudo leva a crer que o policial atirou julgando que o menino estava apontando uma arma. Concluindo, a tal pacificação é um mito.

Hoje os críticos do projeto condenam com veemência a forma como foi conduzida a ocupação das comunidades. Faltou, segundo eles, uma visão abrangente da necessidade dos moradores, como se a segurança fosse tudo o que os cidadãos almejassem ou precisassem. E todas as vezes que uma comunidade é invadida pelas forças policiais, os bandidos fogem, instalando-se em outros lugares. A própria televisão mostrou ao vivo a debandada dos marginais, quando um helicóptero acompanhou a fuga deles pelas estradas abertas nos morros.

Com a chegada da polícia, os bandidos não somem, simplesmente instalam-se em outro lugar. O que foi feito e o que está sendo feito no Rio fica de lição para o resto do país. Não adianta expulsar bandidos de onde estão instalados, pois eles vão tocar terror na vizinhança ou vão dar um jeito de voltar, e é o que está acontecendo. Não adianta invadir a comunidade, lá instalar um batalhão com soldados armados até os dentes, com canhões antiaéreos, com o Robocop, naves interplanetárias, minas terrestres e tudo mais.

Os idealizadores de projetos que funcionaram em comunidades que hoje vivem prósperas e felizes não levaram fuzis, metralhadores e pistolas. Levaram projetos educacionais, de lazer, projetos esportivos, de valorização da cultura e da pessoa. Evidentemente é preciso dar segurança, afastar criminosos e impedir o tráfico de drogas. Mas isto começa com a educação e políticas de inclusão social. Combater criminosos compete à polícia e ela saber fazer isto muito bem. O que não se pode fazer é jogar todas as fichas apenas num projeto de segurança e deixar todo o resto desguarnecido.

A polícia pode, sim, participar de projetos educacionais e esportivos como já faz em várias cidades do Brasil. Um projeto grandioso como esse não pode deixar como legado apenas containers carregados de armas e policiais como ocorre em muitas das UPPs do Rio.

* O autor é jornalista

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