Senna e Tancredo: O intenso 21 de abril de 1985

(Reprodução)
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Poucos dias na história nacional, o brasileiro viveu dias tão intensos em emoção. Falar nestes dias podemos recordar de casos como as finais de copa, os protestos de 2013, o impeachment de Collor (1992), as Diretas e tantos outros momentos. São aqueles dias que, de alguma maneira, mexem com o sentimento tupiniquim, seja de alegria, revolta ou de imensa tristeza, o que é absolutamente normal.

No entanto, ao batermos num dia como 21 de abril, é impossível não se recordar do que deve ter sido o dia mais intensamente emocional que o Brasil já viveu nos últimos 30 anos. E, justo, este dia completa exatos 30 anos em 2015 e causa arrepios até hoje. De um lado, a alegria por um esportista. Do outro, o choro e tristeza pelo tombo de um “quase” estadista.

Tancredo ao lado de José Sarney, o vice-presidente. Eleição do mineiro era recheada de esperanças vindas dos brasileiros (Radio Jovem Pan)
Tancredo (dir) ao lado de José Sarney, o vice-presidente. Eleição do mineiro era recheada de esperanças vindas dos brasileiros (Radio Jovem Pan)

Era manhã de um domingo de 1985. Feriado, pois era dia de Tiradentes, e marcava, talvez, o início de mais uma semana agoniante diante das péssimas notícias acerca do quadro clínico do presidente eleito Tancredo Neves. Uma nação inteira colocava fé em cima do que este mineiro de São João Del Rey poderia fazer para limar do Brasil os problemas econômicos gravíssimos surgidos no fim do regime militar. Neves significava muito mais do que um simples presidente eleito indiretamente, era o primeiro civil eleito após o período militar. E, não apenas resolver a marafunda econômica brasileira era a principal missão dele, mas também de devolver a liberdade e a democracia cerceada em 1964.

Infelizmente, a semana não era de flores, muito menos de esperança. Diagnosticado com diverticulite, doença grave que acomete os intestinos, Tancredo foi internado as pressas e as notícias de que o quadro clínico do presidente eleito eram desanimadoras se sobrepunham as que mostravam alguma esperança de recuperação. Os dias eram longos, os temores eram vários, as conspirações eram assustadoras, e o temor de que a liberdade virasse cinzas mais uma vez ia tomando conta da mente do brasileiro.

Largada em Portugal. Senna parte na ponta para dominar a prova, como já vinha fazendo desde os treinos (Continental Circus)
Largada em Portugal. Senna parte na ponta para dominar a prova, como já vinha fazendo desde os treinos (Continental Circus)

No turbilhão de apreensões com Tancredo, o Brasil parece ter encontrado um tempo para respirar. Foi justo num dia 21 de abril, um corriqueiro domingo de F1, que o brasileiro apreensivo desligou os holofotes do Instituto do Coração, em São Paulo, para acompanhar a segunda prova da temporada de 1985. Na pista, dois brasileiros iriam enfrentar o dilúvio que se abateu no Autódromo do Estoril, em Portugal. Ayrton Senna, que largaria motivado com a Lotus na pole-position, e Nelson Piquet, no meio do pelotão com uma inconstante Brabham.

Durante as duas horas de prova Tancredo parecia ter virado nota de rodapé, envolto nas nuvens de água do carro de Senna que, com a classe de campeões mundiais de antes dele, conduzia a carruagem negra de Norfolk e se encaminhava, ao que tudo indicava, para a primeira vitória na F1. Era o primeiro ano dele em um time competitivo, o que não excluía-se a pressão por, enfim, mostrar resultados concretos e mais constantes do que ele conseguira, a duras pernas, com a modesta Toleman, em 1984.

Senna conduziu com classe o Lotus-Renault embaixo do dilúvio no Estoril. Alegria da vitória naquele domingo seria "momentânea" (Sutton)
Senna conduziu com classe o Lotus-Renault embaixo do dilúvio no Estoril. Alegria da vitória naquele domingo seria “momentânea” (Sutton)

Foram duas longas horas de prova, de chuva torrencial que não desconto a corrida inteira. Enquanto os outros pilotos se debatiam com a pista molhada, em escorregadas e brigas fantásticas, Senna fazia a própria corrida, controlando o carro com finesse e cuidado para conquistar a primeira das 41 vitórias que rechearam a carreira do brasileiro. Diante do péssimo começo de temporada de Piquet e da temporada apagada dos brasileiros em 1984, o triunfo de Senna, o primeiro da Lotus desde 1982, era um grito de alívio dos brasileiros, que assistiram a um espetáculo de águas dançantes regido por Ayrton.

A euforia da vitória de Senna em Portugal parece uma injeção de ânimo ao povo esperançoso por alguma melhora do estado de saúde de Tancredo Neves. Mas o dia passava, o quadro clínico do presidente eleito caminhava de mal a pior. A alegria vinda de Ayrton pela manhã se dissipou como vento às 22h23 da noite, quando no secretário de comunicação da presidência, Antônio Britto, leu o boletim de número 42, que anunciou o fim do sofrimento de Tancredo Neves. A nação parecia ter se desligado, vivido uma gangorra de emoções que culminou naquele 21 de abril.

Antônio Britto, secretário de imprensa do governo, dá o comunicado derradeiro. Tancredo está morto (Radio Jovem Pan)
Antônio Britto, secretário de imprensa do governo, dá o comunicado derradeiro. Tancredo está morto (Radio Jovem Pan)

Tancredo foi enterrado na terra natal, a pequenina São João Del Rey, no dia 24 de abril, deixando plantada a semente para a Constituição de 1988 e o renascer da nova República e da liberdade, princípio de todo bom mineiro. Ayrton Senna continuaria a evolução na carreira e, ainda na temporada de 1985, venceria o GP da Bélgica, podendo desfrutar da alegria do brasileiro em plenitude. Dalí, foram 41 vitórias, três títulos mundiais e um fim de história que todo mundo já conhece.

Hoje, passados 30 anos desta data, chega a ser impressionante imaginar como foi aquele domingo. Dentro daqueles tempos turbulentos, agitados, um tanto românticos, A vitória de Senna e a morte de Tancredo, caídos justo no dia de tombamento de Tiradentes, soam como poesia, conto fantástico que a história imortalizou.

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