Sem arrependimentos

Toda dor por si só já é invisível. A dor é um mecanismo do cérebro para avisar ao nosso corpo que algo não está certo. Diferente é a dor na alma por um sentimento mal resolvido, as dores emocionais trazem consigo um aterrorizante mistério sobre sua causa e sobre sua resolução: não há remédios que curem as dores do coração. Carlos Drumonnd de Andrade carimba tal informação quando testemunhou em um de seus poemas: “em meu coração não cabem nem as minhas dores”.

Os males que atingem a alma podem ter como motivos os passados que não foram resolvidos, por exemplo. Nestes casos, as angústias começam com lembranças que deveriam estar na lata de lixo do esquecimento. Este esquecimento porém, não cumpre o seu papel. Em uma atitude subversiva ele se levanta da sala com timidez e descrição e dá lugar a Nostalgia, que nada mais é que uma intrusa que entrou sem ser convidada. Dessa forma, começa o drama: viramos o Sr.(a) Tristeza. Drumonnd em sua antologia poética ressoa: “Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo, mas estou cheio de escravos, minhas lembranças escorrem e o corpo transige na confluência do amor”.

Em instantes começamos a sofrer pelo passado e para o passado. De repente, ficamos imóveis em queda livre perante o abismo de nossas frustrações. Clarice Lispector parece nunca estar tão certa quando escreveu: “ será inútil esforçar-se para esquecer; tudo o que um dia se misturou carregará consigo partículas do outro”. Dessa forma, a culpa por erros que não são nossos são como restos de comidas em pratos sujos que não conseguimos lavar, mas seguimos em frente, porque é isso que temos que fazer, certo? Certo?!

Certo.

E assim,com mágoas (ou não) limpamos os pratos, tocamos a vida para frente, e como a música de Edith Piaf seguimos em frente sem arrependimentos. A Francesa que já sofreu de amores cantou a épica música Non, Je ne regrette rien, que em tradução livre versa: “Não me arrependo de nada, nem do bem que me fizeram, nem do mal, tudo isso tanto faz. Não me arrependo de nada, está pago, varrido e esquecido. Não estou nem aí para o passado, com minhas lembranças acendi o fogo. Minhas tristezas, meus prazeres eu não preciso mais deles. Varridos os meus amores e os seus tremores recomeço do zero, não me arrependo de nada, para mim tanto faz”.

E assim precisamos seguir, em frente. Se nos apegarmos em um passado que não existe mais, a vida segue sem a gente. Nem os museus vivem dos passados, eles sempre precisam de novas obras para se atualizarem.

Em frente, mesmo se isso indique algumas voltas para trás.

Atriz Bette Davis
Atriz Bette Davis

3 Comentários

  1. Entro no site para ver a coluna do Felipe schuze, a coluna sempre tem artigos que fazem refletir e pensar e no fim sempre acabo me informando pelo site. Parabéns a todos

  2. Um deile aos olhos, uma janela pra nosso mundo interior que as vezes não encontra em nossas palavras alforje para explicações sobre nos mesmos.

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