Portugal – Uma história contada em cravos

Celebrações dos 40 anos da Revulução dos Cravos, no largo do Quartel do Carmo, Lisboa (RTP)
Celebrações dos 40 anos da Revulução dos Cravos, no largo do Quartel do Carmo, Lisboa (RTP)

Era tarde, alheia a situação tensa em que os soldados enfrentavam durante o levante que derrubaria seu presidente, a florista Celeste Caieiro deu aos militares a única coisa que lhes poderia presentear de pronto: Um cravo.

Tão logo Celeste presenteou o soldado, a população massiva e os soldados começavam a empunhar os tão marcantes cravos vermelhos. Era uma “arma” sem poder de fogo nenhum, mas que marcaria indelevelmente o que seria aquela tarde e noite de 25 de abril de 1974, dia que marcou o fim da ditadura fascista mais longa da Europa. A de Portugal, com a deposição de seu presidente, o professor doutor Marcello Caetano.

São 40 anos de celebração, lutas contra seus próprios dilemas e problemas, e a esperança de que o espírito daquela geração não se perca diante das dificuldades econômicas portuguesas após a crise do Euro. O dia de hoje, para muitos, é de festa e exaltação a figuras, como o capitão Salgueiro Maia, responsável pelo comando do levante que colocava fim tanto ao governo retrógrado de Caetano, como nas guerras coloniais do país em seus territórios africanos.

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No mesmo lugar, em 1974, população se junta as forças armadas e espera aflita a queda de Caetano (divulgação)
Salazar: Repressão e politicas retrógradas que condenaram a mais longa ditadura fascista da Europa (divulgação)
Salazar: Repressão e politicas retrógradas
que condenaram a mais longa ditadura
fascista da Europa (divulgação)

A origem do problema

Desde 1933, Portugal vivia em um governo de intensa repressão política e estagnação econômica. Ainda dependente da produção agrícola e pesqueira e com suas colônias ultramarinas na África em ebulição, o governo de Antônio de Oliveira Salazar começava a causar descontentamento, tanto da população quanto dos mais altos setores das forças armadas.

A ditadura de Salazar era fortemente influenciada pelas correntes fascistas dos anos 30 e 40, como o nazismo de Adolf Hitler (Alemanha) e o fascismo de Benito Mussolini (Itália) e de Francisco Franco (Espanha). Mecanismos repressivos como a temida DGS (Direcção-Geral de Segurança), polícia política do governo, eram treinados pela Gestapo em Berlim. Com os movimentos pela independência das colônias africanas entrando em efervescência, Salazar não pensou duas vezes ao mobilizar suas tropas para o Ultramar, buscando manter seus territórios sob o controle de Lisboa.

Foram 13 anos de conflitos em Angola, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Moçambique, ao custo de mais de 8 mil soldados portugueses. A economia lusitana era a principal vítima, já que mais da metade do PIB era destinado ao front de batalha.

Como se não bastasse, a chamada política do “orgulhosamente sós” deixava Portugal totalmente isolada da comunidade européia, que criticava fortemente a intervenção em suas colônias. Toda esta situação, somada a censura e o descontentamento popular e militar, gerou a bolha que explodiria na madrugada de 25 de abril de 1974.

Marcello Caetano, herdeiro político de Salazar e derrubado na revolução (divulgação)
Marcello Caetano,
herdeiro político de
Salazar e derrubado na
revolução (divulgação)

Do rádio para o Quartel do Carmo

Ainda em 1973, as forças armadas começaram clandestinamente a tramar os detalhes e caminhos para um possível golpe de estado que colocasse fim a ditadura, agora em poder de Marcello Caetano, que sucedeu Salazar, após sua morte em 1970. Na noite de 24 de abril do ano seguinte começavam os primeiros movimentos, com a ocupação dos primeiros canais da imprensa, como a RTP (Radio-Televisão Portuguesa), jornais e emissoras de rádio.

Seria dos rádios que viria o sinal inicial para o início das operações. Eram duas musicas tidas como “senhas” para determinar a confirmação e o começo efetivo do golpe. A primeira era a canção “E Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho, sucesso da época e escolhida do país para o Festival Eurovisão de 1974.

https://www.youtube.com/watch?v=Engj_bWvJIc

A segunda, era a música “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso. Adotada como hino da revolução, a canção estava censurada pelo governo por incitar o socialismo. Foi esta canção que deu o start definitivo no golpe.

A partir deste momento, os principais quartéis das forças armadas portuguesas eram tomados um a um. O único momento de tensão foi na tomada do quartel da DGS no Largo do Camões, em Lisboa. O tiroteio fez 45 feridos e apenas quatro mortos, os únicos de todo o processo, já que era insistência do movimento que se evitasse a todo custo o derramamento de sangue.

O cume máximo do processo golpista foi na parte da tarde, quando o Movimento das Forças Armadas (MFA), comandado pelo capitão

Capitão Salgueiro Maia durante as operações (casa comum)
Capitão Salgueiro Maia durante
as operações (casa comum)

Salgueiro Maia, cercou o Quartel do Carmo, onde estavam Marcello Caetano e alguns defensores do governo, além de alguns militares fieis ao regime. Foram horas de negociação tensa, nervosa e que, apesar de um tiroteio breve, não fez a população em volta do quartel se dispersar. Eram milhares de pessoas que dividiam praticamente o mesmo espaço do largo em frente ao quartel com os soldados e os carros de combate.

Por volta das 17h chega ao local o general Antônio de Spinola. Um dos principais mentores do movimento, Spinola tinha chegado a perder sua patente por discordar de muitas ações do governo nas colônias. A posse do general foi uma exigência de Caetano para que, segundo ele, o poder “não caísse na rua”. Com esse movimento, estava consumado o golpe, e a festa popular começava sem hora para terminar.

Cravos multiplicavam nas mãos dos populares, até mesmo um helicóptero do exército atirava as flores do ar para o público. No entanto, nem tudo foram flores durante o processo revolucionário. Uma tentativa de golpe por parte da área conservadora das forças armadas, somadas a sucessivos governos provisórios, foram momentos de tensão e preocupação, que terminariam em 1976, com a promulgação da nova constituição portuguesa, ainda em vigor.

O cravo, na boca da jovem, simbolo de uma revolução que não terminou (divulgação)
O cravo, na boca da jovem, simbolo de uma
revolução que não terminou (divulgação)

Ao chegar aos 40 anos da Revolução dos Cravos, Portugal ainda sonha com um movimento como o de 1974, que, ao ver de muitos, sacudisse novamente o país vitimado pela crise do Euro e que ainda luta contra vários dilemas econômicos e políticos que dividem até os jovens portugueses em suas opiniões.

No mais, o dia de hoje para muitos lusitanos celebra, o que pode ser dito, o nascimento de uma Portugal renovada, disposta a estar de mãos dadas com a Europa e que cola com a Revolução dos Cravos outra grande figurinha em seu álbum de preciosos e riquíssimos momentos históricos de sua existência.

Fica a celebração, e com ela também ficam os cravos. Inúmeros, belos, marcantes e imortalizados no coração de milhares de portugueses. A revolução teve fim, mas para muitos, ela ainda não terminou.

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