Oktoberfest

A primeira Oktoberfest que passei foi memorável por apenas um motivo: eu bebi cerveja de vinho. É importante que o leitor saiba que eu era (e ainda sou) o tipo de pessoa que detesta álcool, tanto vinho quanto cerveja, e a combinação maligna dos dois me deixou tonta pelo resto da noite, achando que enxergava em dobro a multidão a lotar os pavilhões da PROEB. Nunca mais fui em uma Oktoberfest para beber, o que algumas pessoas provavelmente diriam não fazer sentido; se vai para uma Oktoberfest pela cerveja, dizem os amigos de fora. Que exista a dança típica, o show, a culinária; detalhes. O que importa é o álcool. A cerveja é fato suficiente para movimentar milhares de turistas por ano, enchendo a medianamente calma Blumenau por duas semanas, monopolizando táxis e serviços em geral. Acho curioso como as fotos que turistas postam depois, no Facebook, são a mesma composição, uma cópia da outra, onde estão sempre com duas coisas: um chapéu de Fritz e um caneco de cerveja (geralmente já pela metade). Eles parecem felizes. Eu sei que estão felizes, porque os ouço quando estão aqui, vejo-os atravessando as ruas em grupos, cantando já no alto da noite, embriagados e, acima de tudo, felizes.

A Oktoberfest já me parece um mundo distante. Em algum ponto do passado (uns três anos atrás) deixei de frequentá-la por completo. Agora passo meus outubros como passo o restante dos demais meses: lendo e escrevendo, vendo porcaria na televisão, resmungando e escrevendo mais um pouco. Sou introvertida, o tipo de pessoa que Susan Cain estudou em seu bestseller, “O Poder dos Quietos.” Festas não fazem sentido para mim; multidões não fazem sentido; festas de multidões que envolvam álcool fazem ainda menos sentido (e parece que todas as festas do mundo envolvem álcool).

Mas seria impossível morar em Blumenau e não experimentar a Oktoberfest, mesmo que seja como um efeito conlateral. A cidade muda nos dias que antecedem a festa. Fica mais bonita, as ruas são decoradas, vestidos de Frida são feitos sob medidas e usados no desfile de abertura tanto por senhoras de idade quanto por bebês fofos (carregados em carrinho cercados de flores, ainda sem idade para andar com suas próprias pernas). A Oktberfest está na televisão, nos jornais, nas redes sociais. Faz certo tempo que Blumenau adotou a estranha campanha “Blumenau, Alemanha sem passaporte.” E o que penso é que tanto a cidade quanto o país estrangeiro compartilharem uma festa talvez seja a única coisa que reste em comum entre os dois, porque Blumenau, pelos outros onze meses que se distribuem antes e depois de outubro, em nada remete à Alemanha. Blumenau é apenas Blumenau. Um lugar onde as autoridades estão tão preocupadas com suas raízes que casas antigas, de um enxaimel lindo, são derrubados para dar lugar a prédios novos e medonhos; é o lugar onde coisas como o abandono e o posterior incêndio do Frohsinn acontecem. Aqui, o trânsito é caótico; o que não parece estranho em termos de Brasil, mas pense que a população local não é a de uma metrópole, nem de longe. Perco as contas de quantos acidentes já aconteceram perto de onde moro. A ponte do Ribeirão Garcia é ponto que hora ou outra está isolada pela faixa amarela, marcando o lugar em que algum automóvel despencou nas águas. E a Oktoberfest chega, o consumo do álcool aumenta e minha preocupação aumenta com ele.

Eu entendo o apego da população pela festa, no entanto. Entendo o simbolismo dela, e porque é tão importante, e porque a cada outubro eles embelezam as ruas e vão desfilar. Entendo também o fluxo de dinheiro que o turismo traz para a cidade, mas existem tantas coisas turísticas a mais que Blumenau poderia explorar. Como não participo da celebrações, o que sempre presencio com atenção é o fim delas: passa a Oktoberfest e vejo apenas os copos de plástico descartados pelas ruas, sendo recolhidos por garis de olhares indecifráveis, mudos; ouço Blumenau aquietar-se, a música morrer, a noite chegar e nascer um novo dia, o povo voltar às ruas mais uma vez, como se nada tivesse acontecido, pronto para enfrentar o trabalho, o calor, a possibilidade sempre existente de uma enchente nova, as verbas que não ajudam, a vida que segue.

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