O Sul não é o seu país; O Brasil é

A vitória da Dilma trouxe uma segunda-feira muito estranha, embora previsível: cheia de gente chorando, com suas fotografias meio embaraçosas publicadas nos grandes portais, me levando a pensar mais em Copa do Mundo do que em eleição; cheia de xenofobia, de xingamentos, do preconceito das pessoas vindo à luz nos momentos de desespero; cheia de amizades perdidas, de Facebook apagado, de perfis bloqueados; cheia de gente curtindo um barato no Leblon, enquanto jurava que ia deixar o Brasil, tão feliz em ser considerado elite nacional que não parecia ter muita noção de como a vida é uma vez que você passa a ser imigrante em outros país. Mas deixemos essas pessoas por um instante. Penso que o tempo e, mais importante, a realidade, eventualmente traga um pouco de noção de volta à vida delas.

Quero falar é da outra herança da vitória do PT: a idiotice do movimento separatista, que vem à tona sempre que uma eleição mostra resultados que desagradam os que se entendem como elite do Sul e do Sudeste, um pouco como a criança que, quando perde o jogo de futebol no playground, fica brava e quer levar a bola para casa, dizendo que a bola é dela. A falta de entendimento básico do que significa uma democracia me deixa pasma. Diz-se um povo estudado, o povo do Sul, escolarizado e superior sob muitos aspectos, mas não parece entender conceitos básicos de política, ou de sociedade; alguns nem mesmo sabem da existência dos três poderes, mas se jogam imediatamente à causa do separatismo a partir do momento em que Dilma aparece na televisão, discursando, fomentado pelo seu ódio anti-petista.

Parem um pouco de ler e recuperem o ar. Façam um chá de camomila. Depois voltem para cá, porque precisamos conversar. O que posso dizer vai doer, mas como o band-aid que a gente puxa da ferida, precisa ser feito e, de preferência, de uma vez: o Sul não é o seu país.

Mais uma vez: o Sul não é o seu país.

Brasil: este é o seu país. Brasil, sim, com suas qualidades e defeitos.

Eu moro em Blumenau, cidade que se crê superior política e intelectualmente, mas que só é realmente memorável para o restante do país pela Oktoberfest. Uma cidade marcada pela tragédia da enchente, onde parte do povo perde tudo nas temporadas fortes de chuva, onde pouco se faz para se evitar as grandes desgraças, das quais Blumenau só se reergue graças à contribuição do governo federal, impostos gerados em outros estados, em outras cidades, as mesmas de que o sulista, que se enxerga tão independente, quer se separar. Aqui, habita um povo conservador, um povo que se acha europeu, seja lá o que possa significar ser europeu. Aqui, o governo se utiliza de uma campanha que seria hilária, se não nos parecesse tão triste; outdoors que se erguem pela cidade, anunciando “Blumenau, Alemanha sem passaporte.” O brasileiro que se acha alguma coisa além de brasileiro.

O brasileiro que deseja ser brasileiro na hora do aperto, mas que se declara outra coisa quando seu candidato não vence ou quando topa com o dedão do pé em uma quina de mesa.

O-SUL-É-MEU-PAÍS

Conheço bem o Sudeste; conheço bem o Sul. Nasci no Rio de Janeiro, morei na cidade, mas também fui criada em São Paulo, criada em Minas e em Santa Catarina; já percorri o estado inteiro, do litoral à fronteira estrangeira, já desci pelo Rio Grande do Sul, e posso constatar que o Brasil é o Brasil em todos os lugares; que existem divergências culturais, tradições, mas que somos todos inescapavelmente brasileiros, ligados pelo Jornal Nacional e pelas novelas da Globo. E que todos dependemos um do outro.

São Paulo é o estado mais rico do Brasil; dizem que é prova o suficiente para que ele se separe do restante do país. O que não mencionam são os milhões de nordestinos que trabalham em São Paulo, que fazem a máquina funcionar, que aceitam os empregos menores, os empregos que seu filho conservador de 24 anos não quer, porque prefere ficar no apartamento dos pais enquanto gasta o que ganha com vídeo-games e o tempo que tem escrevendo sobre os males do bolsa-família na internet, o que ele chama de bolsa-vagabundo. A gente que tem privilégios falando dos que não têm; tão típico comportamento brasileiro. Enquanto explora-se o Nordeste, suas terras e os bens naturais. Aí não se fala de separatismo, aí não se diz vítima. “Estão tirando nosso dinheiro para sustentar vagabundos” Estão tirando seu dinheiro para sustentar um país. O que significa investir nas áreas mais pobres, nas áreas onde há gente na miséria, sem água encanada e sem o que comer. É o que faz da sociedade uma sociedade.

Considere a hipótese, a hipótese maluca e estúpida, de que o Sul se separe, ou de que Sul e Sudeste se separem do restante e unam-se em casamento e sejam felizes juntos: as partes mais ricas do Sul não sustentariam as mais pobres do Sudeste? E vice-versa? É claro que sim. Ou se crê que a miséria, que a pobreza existem apenas mais ao norte do país?

Esquecendo um pouco de hipótese, vamos aos dados: acredita-se que o que elegeu a Dilma foi o Nordeste. Eis um mito que já foi esclarecido, porque todos os estados do país tiveram uma porcentagem significativa de votos para o 13. Até mesmo aqui, no Sul. Como seria sugerido o separatismo, sabendo o que se sabe? Uma vez que não se pode colocar um muro entre o Sul e as outras regiões do Brasil, colocaria-se um muro em cada cidade do Sul? Em cada estado? Deixo você resolvendo esse enigma (mas cuidado para não doer a cabeça) e sigo falando de Blumenau.

Blumenau: ode à cidade de trânsito caótico, de políticos envolvidos em escândalo, de conservadores e preconceituosos, de polícia que sabe onde ficam os pontos de tráfico, mas que nada faz a respeito, de quem toma proveito, de quem baixa filmes e música ilegalmente, de quem joga lixo nas ruas, de quem abandona cães, de ônibus que precisam parar longe de pontos ermos para que aquelas do sexo feminino, nós, possamos descer sem medo, porque segurança não, há, porque educação não há; Blumenau, a cidade em que se mata e que se assalta, a cidade que precisa se reconstruir a cada nova enchente, a cidade que desvia fundos, a cidade que uma parte e representação do Sul, que é uma parte e representação do Brasil.

Blumenau: que é igual ao restante do país. Sul: que é igual ao restante do país, também. Sulistas, os sulistas que querem o Sul independente, acordem; somos todos irmão, somos todos brasileiros. Não há linha de estado ou regional que nos separe. A verdade é que somos iguais, que sofremos dos mesmos problemas, chegamos aqui escravos ou exploradores, imigrantes a fugir da fome, imigrantes desmatando e assassinando ou tentando converter o povo que aqui já vivia para nos apropriarmos do que era deles. A verdade é que não vai haver separação. Em um mundo em que ela não se tratasse de algo inconstitucional, em um mundo em que separação pudesse existir, sulista, ainda seguiria sendo você um brasileiro, mesmo contra sua vontade. Ainda continuaríamos um país atrasado, de mente fechada, onde o que importa é o meu, onde os outros podem passar fome, onde elege-se o Congresso mais conservador em anos.

Sulista que deseja a separação: você é o retrato perfeito do Brasil. Separar-se por quê? Está em casa.

19 Comentários

  1. Quem fala sobre que o Sul do Brasil “sustenta” outros estados não entede de leis. Cada estado do Brasil tem sua arrecadação de impostos (ICMS, IPVA, ITBI, além de taxas de contribuições) que são receitas do próprio estado, que fica no estado para pagar o funcionalimo público, despesas estaduais, contas judiciais a serem pagas, etc. Por exemplo, as receitas desses impostos, taxas e contribuições recolhidos no Parána serão destinados para dentro do estado, e 50% da receita do IPVA são distribuidos entre os municípios, de acordo com a quantidade de placas registradas em cada um deles. No caso dos impostos federais, o IR (imposto de renda) tem o mesmo destino que o IPVA, 50% da arrecadação é destinada aos estados da união, e os outros 50% daquele imposto é para pagar despesas da própria UNIÃO. No caso de Minas Gerais, temos várias indústrias, prestação de serviços, uma das maiores economias do Brasil, e naõ reclamamos sobre “sustentar” o nordeste. Eu entendo de leis, e sou servidor publico no estado de MG.

  2. SÃO PAULO É SUL. O QUE NOS UNE É O IDIOMA DO COLONIZADOR.O QUE NOS SEPARA SÃO AS TRADIÇÕES E OS COMPORTAMENTOS.O BRANCO SULISTA TEM A MESMA PEGADA DO BRANCO NORTISTA,QUE NÃO É A MESMA PEGADA DO NEGRO.SEJA SULISTA,SEJA NORTISTA.POIS O NEGRO SULISTA TEM A MESMA PEGADA QUE O NEGRO NORTISTA.E DE TODOS O MAIS BRASILEIRO DOS BRASILEIROS É O CABOCLO,QUE É DIFERENTE DO NEGRO E DO BRANCO,PORQUE CADA ETNIA TEM SEU FELLING E É ISSO O QUE CONTA.O RESTO É TUDO POLITICAGEM.

  3. nunca antes na minha vida uma frase está fazendo tanto sentido:
    “Dividir para conquistar”

    Sou do interior de São paulo, o direito é válido, não se acha brasileiro, ok pede a separação!
    Mas depois não adianta achar que será a solução de todo o problema, o cancêr da corrupção está em cada estado e em cada cidade, lute contra a corrupção primeiramente em suas cidades, o grito é louvável mas estão agindo feito “brasileiros”, fico triste em saber que querem a separação em quanto eu lutaria por união, por mais que se sintam estrangeiros podem ter a certeza que certos costumes é igual de toda região.
    Lembrando a separação não é a resolução!

  4. A culpa por estarmos divididos é do LULA E DA DILMA. Dividiram o povo para vencer as eleições. Aquela velha história do NÓS contra ELES, a ELITE BRANCA contra os POBRES AFRODESCENTES, os gays contra os héteros.
    Agora, vêm falando em UNIÃO???
    SEPARAÇÃO, SIM, E JÁ!!!
    NÃO PODEMOS DEIXAR QUE NOSSOS IMPOSTOS SEJAM USADOS PARA COMPRA DE VOTOS!!!
    NÃO PODEMOS MAIS SUSTENTAR QUEM NÃO PRODUZ NADA!!!
    SEPARAÇÃO SIM, E IMPEACHMENT TAMBÉM!!!
    NADA DE DIÁLOGO!
    Quem gosta de “dialogar” com terroristas é UM REVÓLVER!

  5. O movimento além de ser muito mais antigo ke essa eleição, tem como seu principal objetivo a melhor administração e distribuição de recursos entre os três estados. Lógico ke o desgosto pelo resoltado da eleição trouxe velhos e novos adeptos a causa. Mas isso não significa ke esse movimento tem como objetivo repudiar o resultado da eleição. O movimento vê nos seus ideais a melhoria continua ke pode oferecer ao seu povo, uma vez ke esse se difere dos outros estados e regiões do país. E olhando para o bloco economico do euro, podemos perceber ke pekenas células buscando o melhor para si em cooperação com as células a sua volta pode trazer grandes resultados. A separação política do Sul trará ao paíz a força ke ele precisa para se desenvolver e solucionar seus problemas, uma vez ke não terá mais a preocupação de agradar a todos e não resolver nada com isso. São muitos os exemplos de separação positivas. Como a tercerização de setores em firmas. A separação do filho dos pais quando se casa para iniciar uma nova família. E nem por isso há o ódio ou qualquer perjúrio, simplesmente éuma forma de se evoluir.

  6. Verdade de fato é que o ente básico da Federação é o município e, este vem sendo tratado a pão e água há muito tempo. A arrecadação espoliadora feita por Brasília deixa os municípios com as obrigações legais e sem o correspondente dinheiro para arcar com estas obrigações. Queremos a independência do sul não porque somos diferentes, elites, brancos de olhos azuis; queremos a separação para que possamos fazer aquilo que hoje não é feito e nos mantém reféns de um governo com um viés orientado pelo Foro de São Paulo. A intenção da separação não surgiu agora. Olhemos a história. Não à violência, não à discriminação, não à truculência. Sim ao plebiscito! Só isto que queremos.

  7. Devido as dúvidas que pairam sobre essas eleições e urnas eletrônicas, fica difícil saber se de fato esse governo foi reeleito. Mas devido ao tamanho do país, da má administração visto que nenhum serviço público funciona, qual o problema em separar?

  8. Sra Maria.

    Gostaria de dizer que o que pregas e tenta reforçar é a união a força dos estados brasileiros. Nada tem haver o jeito de viver do Sul ante o estado do RJ (por exemplo) vivi em ambos para não ser uma questão de achismo. Não quero aqui refutar todos os argumento citados pela senhora para não perder meu tempo, pois acredito que só queres ganhar um pouco de fama neste momento onde o separatismo ganha força mas esquecesse que ele já existe desde a colonização da região Sul.

    Essa terra tem dono ( e não é o jornal nacional e as novelas da globo).

    Pátria amada tão explorada viva o Sul livre.

  9. Olá!

    Moro em Blumenau também e realmente esta insuportável conviver com as pessoas desta cidade.
    Se julgam tão cultos mas tem preguiça de ler um texto maior que cinco linhas sobre politica para se informarem.

  10. Como dito pelo sr.Deucher, somos todos irmãos, tal como somos irmãos dos estadunidenses, alemães e angolanos. As fronteiras nacionais não excluem isso. Porém, não podemos continuar mentindo para nós e para nosso povo: O Brasil NUNCA foi um país. O Brasil é, e sempre foi, uma união de várias nações. O sul deve sim ser livre, tal como minha São Paulo que é descaradamente roubada pela União. Eu acreditava nesse discurso de união do Brasil. Mas percebo hoje que isso é infantilidade. Os paulistas precisam construir O SEU país, o país para seus filhos e deixar o resto do Brasil insistindo naquilo que acreditam.

    SÃO PAULO É O MEU PAÍS!

  11. E qual o problema separar o país? Se a população quer se separar e direito dela, antes dessas eleições já havia certo preconceito e a ideia de separatismo, então que seja feita a democracia…se irão perder com isso já é outra historia, mas eu tenho certeza de que esse país já devia ser dividido desde uns 20 anos atras.

  12. Boa noite Maria Clara.

    Entendi sua opinião mas discordo de sua posição.
    O Nordeste não tem culpa em relação ao recursos, mas Brasília sim. Há décadas é investido naquela região e não há resultados. O fato é que 79% dos impostos que recolhemos na região Sul não voltam para nós. Bom, queremos que sejam aplicados para bem de nosso povo.
    Claro que podemos investir/ajudara nas áreas pobres, isto é ser humano. Mas até quando? Também temos pobres na nossa região, precisamos ajudá-los.
    Ainda assim, na minha opinião o maior vilão é um poder central e longe, muito longe do povo … Brasília, lá nos confins do *******. Se os governantes do país estivessem em São Paulo, Rio de Janeiro ou em Joinville, poderíamos ir bater na sua porta e exigir mudanças … tal como fazemos com nossos prefeitos (o que ainda assim também não é muito efetivo).
    Culturamente as eleiçoes também foram um espelho da diferença cultural entre Norte e Sul. Ainda assim isto não importa, o fato de nos SENTIRMOS DIFERENTES já nos dá razão para uma auto-determinação.
    Sabemos que nem todos de nosso amado Sul pensa assim, tal como a senhora; mas queremos ter o direito de fazer uma consulta popular para saber se o Povo Sulista quer ou não continuar a fazer parte da federação brasileira.

    Cordialmente,

    Julio Zarnitz

  13. Queira me desculpar prezada articulista, mas por mais que tenhas tentado ser honesta em sua defesa do Brasil Unido, não consigo tirar da cabeça (e as suas palavras gritam isso) que seu artigo foi um Manifesto Xenofóbo contra pessoas que ao final queres que sejam todos irmãos. Somos todos irmãos sim e tens razão, assim como somos irmãos dos japoneses, dos sul-africanos, dos americanos, etc… Mas somos SUL-BRASILEIROS. Não nos mantenha presos a um Estado que não nos representa e que temos vergonha de estar sob sua tutela. BASTA DE BRASÍLIA! BASTA DE BRASIL! VIVA O SUL LIVRE!!!

    • ESTAMOS COM VOCÊ, VIVA O MOVIMENTO SEPARATISTA, NÃO PODEMOS DEIXAR ESSAS PESSOAS DE FORA COLOCAR IDEIAS SEM PRECEDENTES NO QUE SÓ CABE A NOS COMENTAR………

    • Perfeita colocação, a separação não será feita com um “muro de Berlim” continuaremos comprando e vendendo do Brasil e do mundo, só seremos mais um País na America latina, quem sabe não nos deixem até participar do mercosul.
      Essa separação é pela nossa autonomia, pela simplicidade e termino dos altos impostos e grandiosa burocracia.
      Sul livre JÁ

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