O frio, a melancolia e a ‘história da chuva’

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Há uma semana os termômetros não passam dos dezessete graus no Rio de Janeiro. E você sabe, por estas paragens uma temperatura assim pode ser considerada inverno rigoroso. Nós sulinos somos acostumados ao frio, então, por mim, tudo bem. A questão é que o frio traz uma certa melancolia, aplica um verniz de nostalgia na paisagem externa e interna; um sentimento que a gente meio que perde quando passa tanto tempo no calor tropical.

Eu moro na Lapa, um bairro historicamente boêmio, com seus bares, teatros e casas de shows sempre repletos de gente, sobretudo de quinta a domingo. Vê-se, nestes dias, uma Lapa mais recatada, mais Santa Catarina, como me disse um amigo gaúcho.

Aí eu estava pensando: como assim, não se sai para a rua por causa do frio? No sul, temos um inverno grande, em alguns meses o frio é insuportável, mas nem por isso deixamos de dar nossas voltas, encontrar os amigos… Que coisa isso de uma queda de temperatura condicionar as pessoas a ficarem em casa…

Estou movendo a timeline do Facebook e me deparo com um post do escritor Carlos Henrique Schroeder, este catarinense que vem vencendo a cada ano as fronteiras imaginárias da província e se destacando na literatura nacional como há tempos não se via. Ele faz um teaser do lançamento de seu novo livro, curiosamente para o momento invernal chamado de ‘História da Chuva’.

Ao ampliar a imagem para ler o que diz a contracapa, me deparo com algo que realmente fez minha nostalgia alcançar um nível maior: a história inicia com a morte do personagem principal durante as enchentes de 2008 em Santa Catarina, por afogamento. Que tempo traumático, lembrei.

A catástrofe de 2008, que aconteceu depois de dias de intensa chuva, foi um momento de recolhimento forçado. Por alguns dias ninguém se movia no Vale do Itajaí; um momento do qual a gente prefere nem falar, afinal resultou em muitas mortes, em muito prejuízo humano e material. Esta aí! A literatura serve também para imortalizar de uma forma mais leve um momento doloroso, talvez sem suscitar o sentimento de negação que vem sempre depois de um trauma.

Sem ler a obra, todavia, ainda é cedo para arriscar um palpite do quanto de realidade está inserido na ficção de Schroeder, do quanto iremos reviver aquele momento que derrubou pontes de concreto e serviu para erguer pontes entre os corações. A verdade é que o fato de ler a notícia do lançamento do livro, somado ao “inverno” inesperado aqui no Rio, me fez mais sensível, mais melancólico. E isso é bom.

Lembrei que o verão com suas emoções minuto a minuto é bom, mas o inverno aquieta o espírito, quando bem aproveitado acalenta a alma. Uma chávena de hortelã, um edredom quentinho e um bom livro já estou ansioso por ‘História da Chuva’ podem ser mais benéficos que uma sessão de psicanálise. O período de recolhimento que o inverno nos traz, penso, sempre nos fará esperar e e saborear o verão com mais intensidade.

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