O atroz encanto de ser blumenauense

Comecemos por um esclarecimento: eu não sou blumenauense, digo blumenauense de nascimento. Nasci em Joaçaba, cresci em Erval Velho, depois morei em Balneário Camboriú, estive uma temporada viajando pela América do Sul e só depois tive a sorte – sim, a sorte – de escolher Blumenau para estudar. Portanto, fui e sou blumenauense por opção. Deslize na tela, você já entenderá.

Cícero Nogueira
Cícero Nogueira, blumenauense por opção

Costumo dizer que sou um jornalista de Blumenau, pois foi na cidade que me iniciei nos estudos de Comunicação. Esta cidade me deu a oportunidade de me encontrar com minha vocação. Eu realmente acredito que, em muitos aspectos da vida, a gente é aquilo que escolhe ser. Não nasci blumenauense, mas já adulto, maduro, aos 22 anos escolhi ser blumenauense e assim permaneci por sete anos.

Neste sentido, posso falar com propriedade sobre meu envolvimento com Blumenau. Posso me orgulhar de ter vivido o início de minha busca intelectual nesta que é uma das melhores cidades para se viver e estudar no Brasil. Não significa que eu não seja crítico com as blumenauíces! Aliás, agora que estou distante de Santa Catarina (hoje vivo no Rio de Janeiro), consigo visualizar com mais “imparcialidade” as coisas boas e ruins que este estado maravilhoso, discreto e provinciano tem impregnado em sua personalidade; posso olhar para Blumenau estando no centro do pêndulo com o qual temos que lidar quando estamos inseridos num espaço geográfico.

Avancemos. Quando fui convidado pela equipe do Farol para escrever aqui, eu pensei “mas o que eu vou falar sobre Blumenau, se já estou há dois anos longe da cidade?”. Papo vai, papo vem, concluí que sim, é possível falar de Blumenau mesmo estando longe. É, aliás, até uma maneira de me aproximar mais da cidade, tornar tátil este laço que nunca vai se desfazer. Hoje eu falo de Blumenau com mais serenidade, pois não estou envolto por Blumenau. Continuo envolvido, mas não estou envolto. E isso tem seu lado bom.​

Acontece que eu me orgulho de dizer que estudei em Blumenau. Sempre que encontro colegas de profissão aqui no Rio eu vou logo dizendo que estudei jornalismo em Blumenau. Descobri que isso abre caminhos, que faz bem para minha imagem. Apesar dos deslizes, o “branding” da cidade funciona bem aqui no “exterior”.

E tem muitas coisas maravilhosas que fazem parte do meu “atroz” encanto de ser blumenauense. Nesta cidade há um senso de comprometimento com qualidade e produtividade que é louvável. Talvez os próprios blumenauenses não tenham consciência disso, mas em Blumenau ou você é comprometido com o correto ou você é só mais um ser apagado. Não há meio termo. É coisa que a gente vai sentindo no ar, na cultura, no trabalho, no modo de ser das pessoas, mas só traz para o campo da consciência quando há um contraponto, quando se tem algo com o que comparar; com o distanciamento.

Afora os vícios bairristas – inerente a todas as comunidades -, é possível enumerar centenas de características que tornam Blumenau uma excelente cidade para se viver, crescer e evoluir.

Quando Marcos Aguinis escreveu o clássico ‘O atroz encanto de ser argentino’, ele buscou na história as maravilhas da Argentina que já foi considerada o celeiro do mundo para confrontar com a atual nação quase inexpressiva no cenário político mundial. Não é neste sentido que eu quero me referir a Blumenau. O “atroz” da paráfrase que usei para dar título a esta crônica tem a ver com algo mais “como eu era feliz e não sabia”, algo do tipo “como vilipendiamos nosso oásis num Brasil pobre, sofrível e desesperançado”.

Hoje, quando começo a reclamar das carioquices, logo me vem no pensamento “lembra de quando você esteve em Blumenau e deu muita ênfase para as coisas que te irritavam na cidade?”. É disso que estou falando. A gente costuma ser muito crítico com a nossa terra. Naturalmente, conseguimos visualizar o lado bom quando estamos longe dela. Sem isso, não teríamos a maravilhosa Canção do Exílio de Gonçalves Dias. Será que tem que ser sempre assim? Não seria maravilhoso se todo mundo pudesse, ou quisesse, passar um tempo fora para voltar – ou nunca mais voltar – valorizando mais a cidade?

Tudo isso para dizer que sim, eu vou falar sobre Blumenau aqui neste espaço. Blumenau está em mim e eu estou em Blumenau. Tenho o direito de falar do que está em mim, pois isso é também um fragmento do que eu sou. O que eu sou estará em mim quando eu me lembrar e estará em mim também quando eu não me lembrar, já dizia Rita Lee.

Se você se interessar pelo olhar de um forasteiro que passou por Blumenau e não saiu impune, me acompanhe nos próximos textos. Vamos conversar sobre coisas que elevam nosso pensamento? Vamos colocar um verniz de poesia nas trivialidades? Vamos relembrar o atroz, o doce, o passado, o atual e o futuro encanto de sermos – por destino ou escolha – blumenauenses?

4 Comentários

  1. Eu sempre falo para todos que apesar de todos os problemas que temos… vivemos em uma cidade que é bem melhor que a realidade geral de nosso país. Eu não tive oportunidade de viver fora… mas ja viajei bastante e conheço muitos “estrangeiros” e estes amaram vir morar aqui.
    Estou ansioso pelos próximos textos.

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