Goethe purificado

O facínora austríaco em seu manifesto nazista e autobiográfico Mein Kampf cita o “horror de Von Goethe com o fato de casamentos entre cristãos e judeus não serem proibidos legalmente”. E enfatiza: “Goethe, portanto, Santo Deus, não era retrogrado nem idiota. O que o fazia falar era nada menos que a voz do sangue e da razão”.

Após a formação do Império Alemão, em 1871, Johann Wolfgang von Goethe foi alçado a modelo de moral da nação e passou a personificar seus ideais. Todos os aspectos de sua vida que não tivessem estreita ligação com o nacionalismo foram descartados. Até mesmo cartas foram queimadas para subtrair o lado cosmopolita, internacionalista e europeu do poeta. Como parte dessa estratégia, estátuas não só de Goethe, mas de grandes intelectuais alemães se espalharam por todo o território do Reich.

Com o fim da Primeira Guerra Mundial e a queda do imperador Guilherme II, a Alemanha se transforma radicalmente. Em 1919, num momento de profunda crise de identidade e de reconstrução do Estado-nação, as lideranças políticas germânicas se voltam para Weimar, tentando resgatar o país por meio de suas raízes. No Teatro Nacional da cidade é aprovada a nova constituição. O movimento não era apenas uma volta nostálgica ao período clássico, era também a marca de um novo tipo de cultura. Mas o modernismo, o cosmopolitismo e a democracia do período trazem consigo uma onda reacionária sem precedentes que reunirá conservadores, nacionalistas e extremistas de direita.

O facínora em Weimar – Comício do NSDAP – em frente ao monumento Goethe-Schiller em Weimar; Hitler, Sauckel e Brückner (da esquerda para a direita)

A primeira grande vitória eleitoral dos nazistas na Alemanha se deu em 1929, quando o partido foi incluído na coalizão que assumiu o governo da Turíngia. Em poucos anos, o estado passou de berço da experimentação modernista e vanguarda das artes a terreno fértil da política racial radical que mais tarde seria modelo em todo o país. Com o domínio da região, pôs-se em marcha um vasto programa para “nazificar” Goethe e para recriar uma imagem ainda mais idealizada e vinculada ao nacionalismo, agora ressaltando a sua pureza de sangue, sua linhagem ariana.

No início dos anos 1930, Joseph Goebbels e um grupo de autoridades de Weimar apresentaram a Adolf Hitler um plano para dar à casa de Goethe o status de um grande espaço de cultura e de propaganda. O Führer garantiu o necessário para o financiamento das reformas e da construção de um prédio anexo à casa de Goethe para formar o complexo do novo museu sobre o poeta. Como agradecimento, foi colocado um busto de Hitler na entrada com uma placa repleta de agradecimentos exagerados. Ao lado, havia uma “árvore genealógica” de Goethe, provando sua “herança genética”.

Goethe tinha amigos judeus, trocou cartas com Napoleão, foi maçom, era humanista. Estas e outras características o distanciavam amplamente da imagem que os nazistas queriam edificar em torno da sua figura. Goethe foi “purificado” pela máquina de propaganda a ponto de se tornar um agente cultural a serviço da ideologia nazista. No mundo distorcido e totalitário dos seguidores de Hitler, que ressignificou, a seu modo, o passado e as tradições germânicas, Goethe era mais uma peça na construção dessa nova narrativa, era parte do legado alemão que os nazistas queriam resgatar e impor ao mundo.

Goethe em vida, jamais concordaria com facínoras.

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