França: apesar do medo, a resposta imediata  

Reféns libertados do mercado judeu na Avenida Porte de Vincennes. O segundo alvo terrorista desta sexta (AFP)
Reféns libertados do mercado judeu na Avenida Porte de Vincennes. O segundo alvo terrorista desta sexta (AFP)

Quando o mundo ainda respirava temeroso após o brutal atentado na sede da revista satírica Charlie Hebdo, a França novamente acorda sob tensão nesta sexta-feira (9/1). O dia foi de respiração presa com dois novos sequestros terroristas no centro e nos arredores da cidade-luz. Os alvos desta vez foram um supermercado judaico, no centro de Paris, e uma gráfica, localizada na cidade de Dammartin-en-Goele, nos arredores da capital francesa. O saldo no fim das ações dos cercos policiais nos dois locais foi de sete mortos, quatro reféns e três sequestradores, incluindo os suspeitos no ataque ao Charlie.

Os irmãos Kouachi, mortos pela polícia enquanto se refugiavam numa gráfica em Dammartin-en-Goele (Polícia Francesa/AFP)
Os irmãos Kouachi, mortos pela polícia enquanto se refugiavam numa gráfica em Dammartin-en-Goele (Polícia Francesa/AFP)

Logo pela manhã, os clientes do supermercado “Hyper Cacher”, na Avenida Porte de Vincennes e que atende a comunidade judaica, foram mantidos reféns por Amedy Coulibaly, acompanhado da namorada, que também é suspeita de estar envolvida na ação. Ao mesmo tempo, os irmãos Chérif e Said Kouachi, responsáveis pelo ataque ao Charlie Hebdo, se refugiavam numa gráfica em Dammartin-en-Goele, nas proximidades do Aeroporto Charles De Gaule.

Os cercos foram monitorados pela policia e pelas forças antiterror francesas, que no início da noite (fim de tarde no Brasil) tomaram o controle da situação em ambos os locais. Dos quatro envolvidos nos sequestros, apenas a namorada de Coulibaly escapou do cerco no mercado judeu e está sendo procurada pelas autoridades parisienses e pelo FBI internacional. Também no saldo, quatro reféns se juntaram as 12 vítimas na redação do Charlie Hebdo, totalizando 16 mortos desde o inicio dos atentados.

União e alianças

Mesmo com o alerta máximo contra possíveis ações terroristas, o último discurso do presidente François Hollande deu conforto aos franceses, temerosos com novos possíveis ataques no país. No pronunciamento feito nesta tarde, Hollande renovou o pedido de união ao povo francês, especialmente conclamando a participação ao ato público contra o terror marcado para o domingo em Paris. Ele também lembrou a posição de lideres islâmicos que tem condenado veementemente os atentados e as ações do extremismo como as ocorridas no país e enalteceu a participação das forças de segurança francesas no combate das ações nesta tarde.

Netanyahu: Junto do embaixador francês Patrick Maisonnave, defende ofensiva contra o extremismo (Thomas Coex/Pool/AFP)
Netanyahu (dir): Junto do embaixador francês Patrick Maisonnave, defende ofensiva contra o extremismo (Thomas Coex/Pool/AFP)

Além de Hollande, outras autoridades internacionais também se pronunciaram sobre os ataques desta sexta-feira, destacando nos discursos uma postura de união contra a ameaça terrorista presente na França. O presidente americano Barack Obama voltou a oferecer ajuda aos franceses, destacando no pronunciamento a aliança com o país, a “mais antiga dos EUA”.

Outro líder político a falar sobre os ataques terroristas na França nesta sexta foi o premiê israelense Benjamin Netanyahu. Acompanhado do embaixador francês em Israel, Patrick Maisonnave, Netanyahu defendeu uma ofensiva contra as várias organizações de extremismo islâmico, que segundo ele, “tem vários nomes e são motivados pelo mesmo ódio e fanatismo sanguinários”. Vale lembrar que a França tem a terceira maior população de judeus do mundo, perdendo para Israel e EUA, além de ter a maior concentração de mulçumanos da Europa, na grande maioria, descendentes de argelinos.

Hassan Nasrallah, lider do Hexbollah: Atentados “insultam o Islã mais do que a publicação de charges ironizando a religião” (Reprodução/BBC)
Hassan Nasrallah, lider do Hezbollah: Atentados “insultam o Islã mais do que a publicação de charges ironizando a religião” (Reprodução/BBC)

Mas a fala que mais chamou atenção sobre os atentados partiu justamente do mais improvável contestador dos mesmos. O líder do grupo mulçumano xiita Hezbollah, Hassan Nasrallah, condenou em um comunicado em vídeo os ataques terroristas em nome do extremismo. Segundo ele, os que pregam este tipo de atitude “insultam o Islã e o profeta Maomé mais do que a publicação de charges ironizando a religião”. A postura do Hezbollah é, no mínimo, surpreendente, uma vez que o grupo apoia o regime de Bashar AL-Assad na Síria, além de ter sido mencionado no pronunciamento de Netanyahu como uma das organizações terroristas mais perigosas.

Um novo embate para a França (e para o mundo)

Apesar da situação tensa em que vive, a França novamente vem demonstrando uma inabalável vontade de luta, tal como não se via desde os tempos da Segunda Guerra Mundial, quando a resistência francesa a ocupação nazista não desmoronou e, juntamente de aliados como os EUA, literalmente jogou os soldados de Hitler para fora do país. O momento, no entanto, é mais delicado, trata-se de fanáticos, extremistas dispostos a tudo na defesa de um ideal distorcido do que pensam ser o Alcorão islâmico.

Torre Eiffel as escuras em memória das vítimas dos atentados. Comoção nacional e união superam o medo na França (Jacques Demarthon/AFP/CP)
Torre Eiffel as escuras em memória das vítimas dos atentados. Comoção nacional e união superam o medo na França (Jacques Demarthon/AFP/CP)

Nas manifestações em apoio às vítimas dos ataques nota-se nos participantes um semblante maior de comoção geral do que de medo. Milhares de pessoas na França e em várias partes da Europa e do mundo já se programam para o domingo, onde Paris deve dar um grito de basta ao terror sem sentido. É mais um de tantos que já foram dados nos últimos tempos, e que mostram que se o ocidente e o mundo árabe desejam apagar esta ferida aberta é bem melhor que seja logo.

Um ponto em questão deve ser avaliado quando se fala em colocar a religião como centro da sátira. Seria imaturidade afirmar que o Charlie Hebdo “procurou a desgraça”, a sátira religiosa já é presença constante em diversas religiões, até mesmo no catolicismo, onde paródias com o Papa e outras figuras da Igreja são tratadas, se não com o ignorar dos fieis, pelo menos com uma discordância remida.

A revolta dos extremistas é puramente movida por uma interpretação burra feita por eles para com os preceitos do Alcorão, um livro sagrado que fora considerado pelo próprio Papa Francisco um “livro de paz”. Muitos clérigos islâmicos, infelizmente, defendem os atentados e as ações do “Estado Islâmico”, motivados por este tipo de ideário distorcido que contamina mentes e abre caminho para atos de violência e barbárie inaceitáveis. O Islamismo, assim como a cultura, história e o próprio Alcorão, não podem ser tomados como os motivadores desta onda repugnante de violência. Tome-se como exemplo a repulsa de nações árabes e de lideres mulçumanos europeus e mundiais aos ataques.

Aconteça o que acontecer, os próximos dias dos franceses não serão mais os mesmos que eram antes da fatídica quinta-feira no Charlie Hebdo. As esquinas de Paris, outrora exalantes de poesias, canções e romances, agora terão os olhares atentos das forças antiterrorismo na busca por ameaças. Mas, se depender da cidade-luz e da nação, não haverá espaço para o terror e para manchas de sangue na tricolor francesa.

Que o mundo tome o exemplo da França, e, unido como os franceses, faça do extremismo e do terrorismo o único inimigo a ser combatido.

"Paris Est Charlie (Paris é Charlie)", lembrança da tragédia projetada no Arco do Triúnfo, na Champs Elysees (República-EFE)
“Paris Est Charlie (Paris é Charlie)”, lembrança da tragédia projetada no Arco do Triúnfo, na Champs Elysees (República-EFE)

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