A fauna local

Aqui em casa já recebemos três visitas de gambás. Na primeira, eram só filhotes; ficaram pendurados nas plantas do jardim de inverno, fazendo piruetas e contorcionismo, exibindo-se para nós, despencando das plantas e tornando a escalá-las preguiçosamente. Depois de findado seu show, subiram até o telhado e foram embora, sem mais, sem adeus. Eram simpáticos. Da segunda vez, um gambá (também parecia ser um filhote) decidiu se esconder debaixo do carro do meu pai. Quando o motor foi ligado, o gambá deu um escândalo, atravessou o portão e fugiu como se pela própria vida (mas engano seu, gambá; não queríamos seu mal, teríamos te convidado para tomar chá, caso soubéssemos que você estava ali). A terceira aparição foi a mais dramática: entardecer, calor, porta da sala aberta, quando entra um gambá adulto, olhos esbugalhados e parecendo sinceramente perdido, como se viesse bater à porta errada; quase causou um ataque cardíaco na minha mãe (que, imagino, quase que também causou um ataque cardíaco no gambá).

Aqui já tivemos camundongos e cobras. Durante os verões, sapos alugam nossa garagem. Geralmente surgem em par, desaparecem quando é dia e só nos dão o ar da graça nas noites abafadas. O último inquilino foi um sapo grande e sem um dos olhos, veterano de alguma guerra de que nunca fiquei sabendo.

As capivaras moram na beira dos rios, que cercam e dividem Blumenau inteira, e parecem mais acostumadas à presença humana. Certa vez, uma capivara adulta deitou na frente da nossa calçada para tomar sol, indiferente ao fato de que precisávamos sair com o carro. Quando eu tentei chamar sua atenção, ela levantou a cabeça e me lançou um olhar que só posso descrever como cheio de tédio; e aí voltou a cochilar. Foi algo que aconteceu antes de abrirem uma oficina mecânica aqui na rua. Suspeito de que o barulho, a constante presença de carros e de jatos de tinta não pareçam mais tão convidativos às capivaras, e confesso sentir falta delas, de sua indiferença tão monumental.

(Maria Clara Madrigano)
As capivaras moram na beira dos rios e parecem acostumadas à presença humana (Maria Clara Madrigano)

Ainda outro dia, quando passava pela Hermann Huscher, vi um rapaz tentando tirar uma selfie com uma capivara gorda e gigante, a capivara completamente alheia ao que acontecia, mordiscando a grama em absoluta paz, enquanto o rapaz tentava enquadrá-la de todos os jeitos possíveis no seu celular. Em ocasião em que ficamos ilhados por conta de uma enchente, lembro da família de capivaras que cruzou a rua para escapar das águas furiosas, mãe e filhotes; quis segui-los e tirar algumas fotos, até meu pai avisar de que a mãe poderia ficar zangada se me achasse ameaça para suas crias. Nunca tive medo de capivaras até ver os dentes de roedor super-desenvolvido que elas escondem sob aquela expressão pacífica.

Aves também costumam aparecer: um grupo de papagaios gordos, empoleirados no telhado da garagem, sempre inquietos com nossa presença, como se nós os invasores; um tucano colorido, lindo, na árvore que fica bem em frente à casa; os pássaros que cantam e que me acordam todas as manhãs, os pássaros que vêm beber água da nossa piscina.

A fauna daqui jamais deixa de ser rica: se não são os animais silvestres que se procura, cães abandonados também vagam eternamente pelas ruas da Alemanha sem passaporte, cheios de sarna e de pulgas e de histórias tristes. Já houve manhã em que acordamos para descobrir que uma alma caridosa tinha largado gatos recém-nascidos na nossa porta: quatro filhotes, pretinhos e miúdos, encolhidos dentro de uma gaveta velha e quebrada, miando de fome. Enquanto nos revezávamos para alimentá-los, eles escalavam nossas roupas, desesperados por quem os aninhasse.

Há os animais que sempre viveram nas ruas, descartados desde bebês, mas aqueles abandonados por suas famílias quando já crescidos, repentinamente, conseguem partir ainda mais meu coração: eles parecem desolados, andando pelas calçadas num perpétuo ar de receio, jamais compreendendo o que ou por que aconteceu.

Dois cães de rua moraram conosco: o primeiro, abandonado com a mãe e com os irmãos em um terreno de obra; o segundo, espancado pelo antigo dono, deixado passando fome e com a barriga tomada de vermes, sobrevivendo graças à caridade de sua vizinhança. O segundo cão nunca deixou de me surpreender; porque com tudo que sofreu, ele acordava e me recebia com o rabo balançando, com uma felicidade que eu não imaginava possível, apenas grato por estar ali, com a gente, apenas grato pelo calor das pessoas.

Às vezes, eu queria que eles, nossos animais domésticos, se parecessem mais com as capivaras, nos desprezando em silêncio, ignorando nossa presença inconveniente, porque não sei se os merecemos.

Mas então: andando durante a manhã, na Rua Amazonas, vejo um rapaz passar com sua bicicleta. É um rapaz que vejo há anos. E, atrás dele, seus dois cachorros, correndo e felizes e com as línguas de fora, mais realizados do que jamais poderiam estar. E aí penso que não existe nada mais certo do que aquele afeto; e aí me sinto um pouco mais esperançosa.

Maria Clara Madrigano é escritora, jornalista e tradutora. Nasceu no Rio de Janeiro, cresceu em São Paulo e hoje, depois de muitas andanças, vive em Blumenau.

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