F1: Uma carta a Ayrton Senna

(Sutton)
(Sutton)

Ayrton…aqui comigo, me responde uma pergunta, se puderes.

Como agradecer a quem fez gostar tanto deste fascinante esporte chamado F1?

Queria só entender, mesmo que tenha te acompanhado tão pouco nas pistas. Tinha apenas três anos…minto, apenas dois, quando vi tua pintura desenhada em Donington. Não estavas naquele teu melhor ano, tudo conspirava contra, embora não parecia. Mas eu fiquei fascinado, se a F1 era aquilo que mostrasse, então não poderia eu dar-me ao luxo de deixar este esporte de lado.

Hoje, Ayrton, os tempos são outros…diria, mais tristes. Lembra quando falaste de política na F1? Pois então, você era apaixonado por correr e disputar curvas da forma mais pura. E hoje? Bom…assistimos espetáculos sonolentos, corridas desanimantes, tudo banhado a um dinheiro fútil e a uma arrogância sem tamanho. Os tempos mudaram, mas nunca deixei de seguir a F1 religiosamente.

Se tivemos campeões depois de você? Passamos perto…muitos tentaram mas, pela dureza desta vida de F1, não foram muito além. Lembra do Rubinho? Pois é, você o chamava carinhosamente de “moleque”, um moço novo que tinhas muito apreço e que prometia muito com aquela simpática Jordan-Hart

Senna e Rubens Barrichello em 1994 (Gazeta da Região)
Senna e Rubens Barrichello em 1994 (Gazeta da Região)

Pois…ele fez o que pode. Nunca teve uma situação a seu favor. Ganhou a primeira corrida dele seis anos depois de você partir ao plano superior, pareceu um capacho de Schumacher e da Ferrari…Mas, sabe, ele, enquanto esteve na F1 fez bem, fez o seu melhor e o admiro demais por isso, por não deixar a peteca cair para nós. Só o Brasil que não sabe valorizar seus desportistas. Não que tivesses sorte com seus números irrepreensíveis, mas esta é a realidade nossa, infelizmente. Mas…e eu te contar que ele correu mais GPs que o Patrese, você acredita?

Mas, veio um outro moleque, um tal de Felipe Massa. Ele, por 38 segundos tinha sido campeão mundial. Quis o destino que aquela curva da junção, aquela que você rodou em 1994, permitisse o adversário ter a chance de ser campeão. Quem era o cara? Um outro fulano chamado Lewis Hamilton, um inglês, que mandou avisar várias vezes que te admira muito.

Pois é, Ayrton, a coisa não anda aquilo que costumava ser. Tais fazendo falta, sabe? Você e tantos dos seus rivais e amigos nas pistas que continuam por ai fazendo das suas. Sabe o Prost? Pois é, ele sempre diz estar com saudade daquele “brasileiro inconveniente” que lhe tirou dois mundiais. Ele tem um filho muito talentoso, o Nicolas, que está muito bem na Fórmula E…E, antes que você me pergunte, é uma categoria de monopostos com motores elétricos. Onde a tecnologia chegou, né?

Alain Prost e o filho, Nicolas (ao lado). Alegrias na Fórmula E (Reprodução / Twitter)
Alain Prost e o filho, Nicolas (ao lado). Alegrias na Fórmula E (Reprodução / Twitter)

O Lauda? Ah, vez em quando ele passeia pelos boxes da Mercedes. O Mansell? Tirou o bigode, nem parece ele. E você acredita que o Piquet vai voltar a correr aos 62 anos? Tá, eu sei que você não é lá muito chegado no Nelson, mas eu queria fofocar. Ah, é o Comas? Lembra dele? Quando você o salvou na Belgica? Toda vez que ele toca no assunto fica emocionado, e não é pra menos.

Ayrton salva Erik Comas na Belgica, em 1992 (Reprodução)
Ayrton salva Erik Comas na Belgica, em 1992 (Reprodução)

O Berger? Bom, vez em quando ele lembra de você. Esteve nas pistas como diretor de equipe, mas hoje deve estar curtindo a vida com a esposa portuguesa. Talvez a sua mãe e seus irmãos sabem mais dele, mas pergunte a eles num sonho ou numa prece. A propósito, falando neles, queria lhe falar do Bruno. Ele bem que tentou a F1, mas faltou equipamento, o paparico da Globo era exagerado. Hoje, ele anda de carros turismo, até esteve aqui no Brasil acelerando na Stock Car…e, pasme, junto do Nicolas, o filho do Prost. Que voltas a vida dá, não é, Ayrton?

Bruno Senna e Nicolas Prost, lado a lado na Stock Car (Miguel Costa Jr.)
Bruno Senna e Nicolas Prost, lado a lado na Stock Car (Miguel Costa Jr.)

Ah, bons tempos. Mesmo, não vou esconder. Vi muitas das suas corridas na internet. Não dá pra imaginar isso hoje, ninguém queria desgrudar os olhos da tela, pois uma piscada podia significar perder um detalhe. Exceto em Monaco. Antigamente era a prova mais…vamos conver, chata do calendário. Não tinha lá tantas ultrapassagens. Hoje, qualquer coisa não ajuda, tem até autódromo em forma de fuzil visto do alto. E uma monotonia só, botaram um alemão pra desenhar essas coisas…trágico.

E vou te contar uma, não ria…Mas, antigamente ainda se aturava o Galvão, seu amigo da Globo. Hoje, a gente reza a noite para ele calar-se. Penso no Reginaldo, mesmo que você não tinha aquela relação com ele, ele vai muito bem, apenas aguentando uma patacoada ou outra do colega de bancada.

Ah, quanto a Mônaco? Não se preocupe, teu recorde ainda tá la, intacto, nem mesmo o Michael conseguiu o bater. A propósito, o Schumacher não anda nada bem. Caiu numa montanha nos Alpes da França, está de cama sem se mover e todo dia esperamos uma notícia, que nunca vem. Acho que vocês nunca se davam aquelas mil maravilhas, mas ele lhe tinha um grande apreço por ti, ao menos. Que ele fique bem, leve nosso pedido a Deus de melhoras para o alemão.

Ayrton Senna e Michael Schumacher no pódio em 1992 (Terra)
Ayrton Senna e Michael Schumacher no pódio em 1992 (Terra)

Mas, antes de eu ir, deixa eu te perguntar. Como vai o Roland? Ele está bem? A pancada foi forte, espero que ele não tenha ficado traumatizado. Pobre Ratzenberger, nem teve tempo de viver a F1. Diga que mandei um abraço.

Ah, e como vai o De Angelis? Está bem também? Deve estar tocando piano como ninguém, acompanhado do Gilles Villeneuve e daquela galera boa que não está mais conosco. E aposto que você deve ter ido pescar com o Dr. Sid Watkins. Ele tinha prometido a você la em Imola. Tempo não deve faltar agora. E quem tá pegando o peixe maior?

Senna e Sid Watkins, médico britânico especializado em neurologia, uma das mais icônicas figuras da F1 (Reprodução)
Senna e o Dr. Sid Watkins, uma das mais icônicas figuras da F1 (Reprodução)

Pois é, Ayrton. Deixo-te meu abraço cordial pelos 55 anos. Desejamos-te todas as alegrias possíveis no céu, junto a Deus e junto de outras feras da F1 que sentimos falta aqui na terra. Esperamos dias melhores nas pistas, no nosso amado país, em tantas coisas. Espero que Deus esteja nos ouvindo, teve gente que até achou que ele não era mais brasileiro, mas são apenas loucos…

E, claro, como dizer obrigado a quem me fez até hoje gostar de velocidade? Simples, meu agradecimento fica a você numa prece…

Valeu, Ayrton, até breve e vai devagar, hein!

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