F1: Em corrida melancólica, Hamilton vence fácil e Nasr faz boa estreia

Hamilton comemora a primeira vitória de 2015. GP da Austrália foi uma das piores aberturas de temporada da história da F1 (Getty Images)
Hamilton comemora a primeira vitória de 2015. GP da Austrália foi uma das piores aberturas de temporada da história da F1 (Getty Images)

De 20 para 18, de 18 para 11, e de 11 para o vexame certo. Fazia tempo que ver F1 não dava tanto sono e decepção como foi a abertura da temporada, no último dia 15, na Austrália. Com uma Mercedes superdominante, equipes brigando por migalhas, um grid murcho e uma transmissão forçada e ufanista da Globo, a (que já fora, pelo visto) maior categoria da temporada deu os primeiros passos no novo ano, que parece repetir o mesmo festival prateado de 2014, com uma pitada a mais de superioridade.

As flechas prateadas foram absolutamente inalcançáveis durante todo o fim de semana, justificando plenamente o favoritismo assombroso demonstrado na Espanha, durante a pré-temporada. Lews Hamilton venceu outra vez, fazendo uma espécie de “briga mandrake” com Nico Rosberg, trocando voltas rápidas e momentos de maior proximidade, sem ameaças e com a complacência dos bocejos do mundo inteiro.

Sem dúvida, mérito do trabalho da Mercedes em buscar constantemente pelas temporadas o acerto pleno dos carros até a quase perfeição. No entanto, um domínio que incomoda e coloca a F1 em risco como espetáculo da briga constante de posição dentro da pista. A Red Bull, em posição mais exaltada e sofrendo com o apático Renault V6, levantou a voz e ameaçou largar a categoria se esta discrepância continuar. Reclamação inútil, uma vez que os austríacos já beberam da fonte da hegemonia, por longos quatro anos.

Mercedes de Hamilton, domínio da Austrália prevê-se ser bem mais contundente do que fora em 2014 (Getty Images)
Mercedes de Hamilton, domínio da Austrália prevê ser bem mais contundente do que fora em 2014 (Getty Images)

Mas, muito além do discrepante domínio alemão, um grid vazio e sofrível para se manter “cheio” foi o maior vexame da categoria na Australia, um dos motivadores para o verdadeiro sono que se abateu na prova. Antes ainda do pontapé inicial, na pré-temporada, previa-se que custo para fechar-se 20 carros para o grid em Melbournes seria sobre-humano, culpa dos altos orçamentos no novo modelo de motor turbo, que minou o financeiro de algumas equipes e abreviou o tento de outras sonhadoras. Logo nos treinos, a Manor/Marussia ja mostrou que não entraria na pista, se debatendo para, simplesmente, conseguir ligar o carro, um mico digno de qualquer Andrea Moda ou Life da vida.

Valteri Bottas também foi uma baixa para o GP, ele não pode largar por conta de fortes dores nas costas, deixando a Williams desfalcada de um carro. Na ida para o grid, outras duas baixas. Kevin Magnussen viu o caquético Honda V6 da McLaren estourar, e a Red Bull acabou vendo a caixa de mudanças de Danil Kvyat quebrar, ambos antes de chegar ao grid. Resultado, 15 carros na largada, 11 no final e decepção garantida para a prova onde tudo poderia acontecer em uma corrida “normal”.

O resto das forças da temporada

Quem ainda tem o privilégio de poder melhor ver a Mercedes de binóculo este ano é a Williams e a Ferrari. Com equipamentos mais consistentes do que as outras competidoras do “resto” do circo, será delas a briga, ao menos, pela posição que sobra no pódio e pela condição de segunda força de 2015.

Vettel fez boa pilotagem, e o equipamento equilibrado e competitivo da Ferrari o ajudou a faturar o terceiro posto (Getty Images)
Vettel fez boa pilotagem, e o equipamento equilibrado e competitivo da Ferrari o ajudou a faturar o terceiro posto (Getty Images)

A escuderia de Maranello largou a frente do time de Groove, mostrando um carro mais constante que o modelo anterior e que sabe melhor usufruir dos pneus calçados. Sebastian Vettel correu com consciência e andou forte quando precisou. O mesmo se diz de Kimi Raikkonen, que só não foi mais longe por conta de um traiçoeiro problema no motor, próximo do fim da prova. Bons presságios que fazem Maurizio Arrivabene, o novo “team principal” do Cavalino Rampante animar-se para a continuação da temporada.

A Williams acabou sendo pega de surpresa, se batendo com os supermacios do único carro do team na pista, o de Felipe Massa, já que Valteri Bottas não largou por conta de dores nas costas. O time inglês terá, evidentemente, muito trabalho para equilibrar novamente o monoposto para a temporada, sendo que, por ter motor Mercedes (que, diz Massa, é menos eficiente que o da equipe de fábrica), é a que mais pode chegar perto das flechas de prata.

Williams de Massa, a única na corrida, debateu-se com problemas no desgaste dos pneus e terminou em quarto (Getty Images)
Williams de Massa, a única na corrida, debateu-se com problemas no desgaste dos pneus e terminou em quarto (Getty Images)

Falando-se no time de Groove, o desempenho de Felipe Massa, guardadas as proporções, foi consistente e seguro. No entanto, o brasileiro foi vitima do desgaste prematuro dos pneus do Williams, sobretudo após a segunda parada do team. O quarto lugar é, sim, um bom resultado, mas Felipe sabe muito bem que há muito o que se trabalhar para limar este problema e, ao menos, garantir o posto de segunda força para Groove.

Felipe Nasr: O único despiste do sono

Entre todas as melancolias da prova, o único que a salvou da monotonia completa foi um estreante. A bordo de uma Sauber bem acabada, mas ainda com muito a acertar, o brasileiro Felipe Nasr fez uma brilhante estréia com um quinto lugar. É a melhor posição de um piloto tupiniquim em uma corrida de estreia e despertou uma certa esperança de o Brasil, com todos os problemas para a organização do próprio automobilismo, de ver um bom piloto figurar entre as promessas de titulo para o futuro.

Felipe Nasr fez uma grande estreia. Pilotou sem errar e de forma medida, garantindo um bom quinto lugar (Getty Images)
Felipe Nasr fez uma grande estreia. Pilotou sem errar e de forma medida, garantindo um bom quinto lugar (Getty Images)

Nasr correu com firmeza, resistiu bem aos ataques de Daniel Riccardo, que viu pouco a pouco a Red Bul que guiava desequilibrar-se por conta das dificuldades do motor Renault e do próprio conjunto. Foi uma corrida sem erros, nenhum abuso e com algum brilhantismo para o brasileiro, o que deixou Peter Sauber feliz depois de todas as encrencas que o time suíço passou na terra do canguru, sobretudo com o “caso Giedo Van Der Garde”. Para completar a festa, Marcos Ericsson também pontuou, em oitavo, lavando a alma do team que passou 2014 no branco.

No entanto, Felipe Nasr tem, a partir de agora, a missão de provar que sabe andar bem e que o quinto em Melbourne não foi “golpe de sorte”. O que, de longe, até parece ser. Afinal, Bottas não largou, Kvyat idem e a Lotus foi limada prematuramente da prova, com o acidente de Pastor Maldonado logo na primeira curva e um misterioso problema mecânico no carro de Romain Grosjean, o que impediu de se avaliar o real desempenho dos bólidos preto-e-dourados. Se, para alguns jornalistas mais “ufanistas” Nasr já um futuro campeão, ele terá que provar que merece a alcunha.

O desastre de transmissão…que pode melhorar

Falando em “ufanismo” exagerado, lembra-se automaticamente da própria Rede Globo, que não economizou do termo quando da conquista do quinto lugar de Felipe Nasr, sobrando até pra própria família do piloto, que contida, teve que aguentar os pedidos insistentes de euforia feitos por Galvão Bueno durante a prova. Isto é apenas a ponta do iceberg de uma atração pré-GP com cara de “Corujão do Esporte”, e que desagradou a muitos.

Ao invés de uma bancada especializada em automobilismo, cercavam o trio Galvão-Reginaldo-Burti dois atores (Marcelo Anthony e Thiago Rodrigues…quem é esse Thiago?), o respeitado ex-jogador de vôlei Giba e, as únicas presenças mais “especializadas” do lugar, da pilota Bia Figueiredo e do ex-piloto Raul Boesel, na qualidade de DJ. As intervenções forçadas de Galvão aos convidados, somadas as saídas de assunto e a falta de cancha dos atores no assunto tomou a transmissão embaraçosa, sobrando para Bia e Boesel salvarem o momento com o que dominavam no assunto, e ainda assim, com alguma dificuldade por conta da falta de intimidade ante as câmeras.

Raul Boesel no comando das pick-ups em Curitiba. Ex-piloto foi um dos que, ao menos, tentou salvar a tragédia da transmissão da Rede Globo durante o GP (UOL)
Raul Boesel no comando das pick-ups em Curitiba. Ex-piloto foi um dos que, ao menos, tentou salvar a tragédia da transmissão da Rede Globo durante o GP (UOL)

Mas, por incrível que pareça, a atração pode melhorar. Enxugar o número de convidados, chamar pilotos e especialistas no esporte a motor, cortar o ufanismo pela metade, aumentar a interatividade, entre outras medidas, podem fazer da atração um bom ponto de encontro para os fãs da velocidade discutirem opiniões concretas e certeiras. Mas, conhecendo o ego da emissora carioca, talvez mudar não seja uma opinião que se fale nos corredores do Projac. Sobra aguentar o “Encontro, com Galvão Bueno”.

McLaren: A “Marussia Premium” que referíamos

Para encerrar, a maior tragédia do GP, no entanto, não foi apenas o grid minguado. A outrora poderosa McLaren, dona de incontáveis vitórias e vários títulos, com nomes consagrados no histórico e com uma estrutura invejável viu-se em Melbourne num verdadeiro circo dos horrores. As voltas com um apático motor Honda mal-preparado e fraco, Jenson Button fez o melhor que pode para terminar…em último dos 11 que completaram a prova, duas voltas atrás do vencedor.

McLaren de Jenson Button lenta na pista. Melbourne foi um calvário para o time de Working na volta dos motores Honda (AP)
McLaren de Jenson Button lenta na pista. Melbourne foi um calvário para o time de Working na volta dos motores Honda (AP)

A tragédia é geral, o acerto do motor priorizava a durabilidade a performance, já que para conservar a unidade de força do calor os engenheiros retiraram potencia do propulsor. Mesmo andando no limite, nem Button e nem Magnussen saíram da ultima fila. Na corrida, o dinamarquês nem largou, talvez agradecendo o estouro do motor e evitando um possível vexame. Já o ingles, campeão de 2009 e que neste ano completa 15 anos de F1, teve de aguentar no ato o espetáculo dantesco da equipe de Working na prova.

Nesta semana, Fernando Alonso retorna aos treinos com as sessões no simulador, apronte final para voltar ao carro na Malásia. Lá, ao menos, a McLaren espera andar alguma coisa melhor com o bólido, o que parece dificílimo, ainda se tratando do autódromo de Sepang, muito mais rápido que Albert Park. O momento em Working é, podendo se dizer, muito pior do que foi em 1980 e 1995 e, ao que tudo indica, 2015 será um ano para se pensar em 2016.

E é em Sepang, na Malasia, a próxima prova da F1, no dia 29 de março. Vale lembrar que as principais notícias e comentários da F1 2015 estarão o ano todo aqui, no FAROL.

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