‘A literatura é um campo vasto e uma solidão compartilhada’

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— Alguém que se orgulha dos livros que leu e se ressente pelos livros que não leu. Um doente de literatura, que pensa nisso o dia tudo.

Assim se descreve Carlos Henrique Schroeder, o escritor catarinense de maior destaque na literatura nacional no momento. Ele acaba de lançar ‘História da Chuva’, sua segunda obra pela Editora Record, ambientada no Vale do Itajaí e submersa nas águas revoltas das cheias de 2008; já concedeu os direitos de ‘As Fantasias Eletivas’ para o cinema e anda às voltas com um romance sobre Cruz e Souza.

Nesta entrevista exclusiva ao Farol Blumenau, o escritor natural de Trombudo Central e radicado em Jaraguá do Sul conta um pouco sobre o novo livro, diz que nas duas últimas obras usou autoficção para “exorcizar fantasmas” e também lamenta o fato de a comunidade literária de Santa Catarina ser desunida e até invejosa.

[quote]— Quando um autor faz relativo sucesso de crítica aqui, por despeito e inveja muitos viram as costas para ele e tentam até boicotar.[/quote]

Em termos de mercado, você é um caso único na literatura catarinense contemporânea. Por que nossos escritores são pouco conhecidos fora do estado?

A verdade é que o mercado literário catarinense tem alguns vícios terríveis: o primeiro deles é que os autores contemporâneos não se leem. Isso se reflete no jornalismo e na crítica, e claro, nos leitores. Então é sempre preciso um autor fazer um relativo sucesso fora do estado para começar a ser levado a sério, e isso é terrível. É o contrário do que acontece no Paraná e no Rio Grande do Sul, onde se leem, se divulgam, se respeitam ou se enfrentam, mas há movimento, discussão, processo. E quando um autor faz relativo sucesso de crítica aqui, por despeito e inveja muitos viram as costas para ele e tentam até boicotar, eu vi isso muitas vezes nessas últimas duas décadas que acompanho a vida literária no estado. Há diversos blocos que preferem que o estado fique na inércia do que surja um ou outro autor interessante, com espaço, e isso é claro; muito. Então o primeiro passo é interno, que haja um entendimento e fortalecimento de nossa identidade enquanto mercado literário, para que tenhamos cada vez mais força para validar nossos ótimos autores, senão sempre dependeremos dos grandes centros e seremos uma eterna província.

As referências culturais de Santa Catarina no imaginário do brasileiro também são poucas…

Isso é normal, somos um pequeno estado de uma federação de mais de duas dezenas de estados, e são apenas dois ou três jornais que são nacionais e grandes mesmo, e meia dúzia de editoras que investem em ficção nacional, então autores dos grandes centros sempre terão mais espaço e o funil sempre será apertado. Mas é preciso buscar outros caminhos: mídias, editoras e eventos independentes, criar redes, movimentar; não é preciso enxergar o caminho da validação como no século passado: editora/jornal/crítica. Os caminhos e tempos são outros. E o estado tem ótimos escritores.

Que autores contemporâneos de Santa Catarina você recomenda?

Eu sou um leitor voraz da produção daqui e posso recomendar vivamente autores como o Caléu Nilson de Moraes, de Santa Cecília, que sairá com um livro maravilhoso de contos pela Editora da UFSC, ou a Patrícia Galelli, que é de Concórdia mas vive em Florianópolis, com um projeto de escrita coeso, ou o Guille Thomazzi, de Lages, e sua pegada faulkneriana, ou o Gregory Haertel, de Blumenau, que desde ‘Aguardo’ vem construindo um imaginário muito forte, ou o João Chiodini, de Jaraguá do Sul, que lançou aquela porrada chamada ‘Os abraços perdidos’. E muito mais: Priscila Lopes, Paulino Jr, Márcio Markendorff e Criss Lauxx de Florianópolis, Melanie Peter, Eduardo Baumann e Giovanni Arceno de Joinville, entre outros.

[quote] — A literatura não tem margens, é um campo vasto e uma solidão compartilhada.[/quote]

Quais escritores catarinenses influenciam a sua obra?

As imagens do Cruz e Sousa são muito fortes, mas eu já li muitos poetas maravilhosos como Dennis Radünz e Fernando José Karl, que tem uma voz muito própria, ou então prosadores como Fábio Bruggemann, Silveira de Souza e Péricles Prade. Mas meu mestre mesmo é Manoel Carlos Karam, um exemplo de inventividade e de injustiça no estado: nasceu em Rio do Sul e ganhou o prestigioso prêmio Cruz e Sousa, mas nunca foi bem lido no estado. No Paraná todos conhecem, tem prêmio com o nome dele, uma casa de leitura e é muito bem editado por duas editoras independentes, a Kafka do Paulo Sandrini e a Arte & Letra. Eu nasci a apenas vinte quilômetros da cidade onde nasceu o Manoel Carlos Karam, e passei a acompanhar sua obra quando venceu o Prêmio Cruz e Sousa, lá pela metade da década de 1990, com seu livro ‘Cebola’. Foi Karam quem me ensinou a palavra “possibilidade”. Sim, a possibilidade de convulsionar uma narrativa, a possibilidade de rir do leitor, de si mesmo, de tudo, e também um segredo: a literatura não tem margens, é um campo vasto e uma solidão compartilhada. Seus livros são engraçados, irônicos, originais, mas sobretudo, vivos. Gosto de recomendar o ‘Pescoço ladeado por parafusos’, onde inclusive assinei a orelha da última edição, pela Arte & Letra. Este livro é a certificação de como Karam esteve a frente de toda uma geração, e que ele, sozinho, foi um movimento literário, um submarino que só agora está emergindo.

Ouvi dizer que você tem um romance sobre o poeta Cruz e Souza em andamento…

Emperrado. Sem jeito, acho que vou abandonar de vez, a não ser que ache algumas soluções que agora parecem insolúveis. Às vezes me desafio tanto que me privo da execução.

Em ‘As Fantasias Eletivas’ você passeia por um cenário seguro: Balneário Camboriú, onde viveu por muitos anos. Além disso, um dos protagonistas, o Renê, é um recepcionista de hotel, uma profissão que você já exerceu. Agora em ‘História da Chuva’, o narrador é nitidamente Carlos Schroeder. Autoficção é uma fase ou é a tônica da sua literatura?

Não é uma fase nem uma tônica, foi a maneira que eu encontrei de exorcizar alguns fantasmas e dar um determinado tom às narrativas ao mesmo tempo, de contar essas histórias. Acho que já esgotei a cota, agora quero outros desafios, correr outros tipos de riscos e abismos. Aprendi muito com esses livros, agora quero aprender de outras maneiras. Escrever é aprender.

[quote]— Um romance, um conto ou um poema podem surgir de uma imagem, de uma música, de uma história ouvida, de uma memória verdadeira ou falsa.[/quote]

Em ‘As Fantasias Eletivas’ você tem a fotografia e a própria literatura como um “verniz”, agora, em ‘História da Chuva’ é o teatro de bonecos. Por que colocar a arte também como protagonista em suas obras e qual a sua relação com o teatro de bonecos?

Durante algum tempo fui editor de uma revista universitária sobre teatro de animação, e fui amadurecendo a ideia de escrever algo sobre o assunto, até que certa noite acordei de sonhos intranquilos e resolvi que era a hora. Acho que todos as linguagens se complementam, não seria diferente entre a animação e a literatura. Aliás, aprendi muito com os conceitos de contenção da animação. Um romance ou um conto ou um poema podem surgir de uma imagem, de uma música, de uma história ouvida, de uma memória verdadeira ou falsa. Tudo pode ser material para a ficção, e como somos a soma das nossas referências, quanto mais e melhores elas forem, melhor saberemos lidar com o que queremos ou não em nossa escrita. Para mim, literatura é sobretudo risco, você corre riscos a todo instante, na escolha dos personagens, da abordagem. Eu nunca escolho o caminho mais fácil, sempre gosto de me desafiar, então meus narradores são sempre muito desafiadores para mim. Eu sempre vejo meus livros como móbiles, algo mais orgânico, e não como algo plano, então esse livro é, na verdade, muitos livros. No meu livro anterior, ‘As Fantasias Eletivas’, a fotografia é um elemento da narrativa, e agora temos o teatro, é preciso contaminar-se. Perceba o quanto o cinema aprendeu com a literatura, com o teatro, com a dança, com as artes visuais, e vice-versa. A literatura parece que quer sempre se proteger, se contaminar menos, jogar sempre sua própria regra, e eu não acho justo. Gosto de escrever olhando fotografias, tentando entender obras de artistas visuais contemporâneos ou decifrando músicas. Viva a contaminação, a infecção.

É verdade que ‘As Fantasias Eletivas’ pode virar um filme?

O André Gevaerd, do Cinemara BC/Kinosfera, está com os direitos para adaptação audiovisual, mas cinema é uma arte muito cara, trabalhosa e coletiva, então deve demorar um bocado para sair alguma coisa, se sair.

 

[quote] — Eu gosto desse palavra, “infecção”, e essa é a questão: onde começa a arte e onde termina o mercado? Onde elas se relacionam e se infeccionam?[/quote]
Agora falando de ‘História da Chuva’, que está chegando às lojas. Como você descreveria esta obra?

‘História da Chuva’ é um mosaico criativo que parte da intrincada relação de Arhur e Lauro, diretores de um grupo extemporâneo de formas animadas, especializado em teatro de animação, para pensar o peso do fracasso na trajetória artística. A narrativa começa num ponto crítico da vida de Lauro: recém-divorciado e atordoado pela ausência de Arthur (que morreu nos desastres de 2008, quando grande parte de Santa Catarina ficou debaixo da água, castigada pelas chuvas incessantes), ele procura um sentido para suas memórias. A obra é narrada por um alter ego meu, que procura, ao tentar criar um perfil de Arthur, descobrir o quanto o teatro e a arte ainda fazem sentido para sua existência. O livro funciona como um falso documentário, que parte de elementos reais e ficcionais para provar que não há limite entre o palco e o mundo. A maior parte do enredo se passa durante uma grande e real tragédia: as enchentes de 2008 em Santa Catarina, que ocorreram depois do período de grandes chuvas de outubro e novembro, afetando em torno de sessenta cidades e mais de 1,5 milhões de pessoas.

Esta história te surgiu lá, durante os desastres de 2008? Você está exorcizando aqueles fantasmas?

É um livro muito pessoal, foi muito difícil escrevê-lo, por vários motivos, eu lembro muito bem ainda daqueles meses em que a chuva não cessava, quando havia água por todos os lados. Foi contemplado com a Bolsa de Criação Literária do Programa Petrobras Cultural 2012. Sim, fiquei decantando aquela enchente até 2011, quando comecei a rascunhar algumas coisas, em 2012 escrevi um terço do livro e quando saiu o resultado da bolsa fiquei definitivamente amarrado com o livro, se não fosse a bolsa, teria desistido, pois não foi fácil escrevê-lo. Que desafio! Arthur e Lauro, principais personagens do livro, são também a busca de uma imagem: a do artista. As duas epígrafes do livro, de Saer e Susanne Langer, tentam até apontar esse caminho, que é tortuoso e infeccioso. Eu gosto desse palavra, “infecção”, e essa é a questão: onde começa a arte e onde termina o mercado? Onde elas se relacionam e se infeccionam? Realizar o perfil de Arthur seria também catalogar os sucessos e fracassos de um artista, e enfrentar duas perguntas: é possível ser imparcial no campo das artes? Até onde vai a liberdade? Durante muito tempo achei que o teatro de animação fosse a experiência mais radical dentro do teatro, e escrevi esse livro porque não tinha resposta para nenhuma dessas questões .

*Foto: Eduardo Montecino

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