De Kennedy a Obama: as condições diplomáticas com Cuba

O mundo ainda está debatendo as conseqüências do gesto de aproximação de Barak Obama com  a ditadura mais duradoura do planeta que começou no dia 1 de janeiro de 1959. Nesta série de reportagens especiais, apresentaremos as atitudes do governos de John Kennedy e Jânio Quadros em relação ao regime de Cuba, a condecoração a “Che”Guevara e as atuais relações dos Governos de Obama e Dilma com  a ditadura castrista.

KENNEDY – Abril de 1961

Ao assumir o governo dos Estados Unidos, no tumulto da fase de sua instalação, John F. Kennedy defrontou-se com um plano de intervenção em Cuba, preparado durante o governo de Eisenhower pela CIA (Central Intelligence Agency), então sob a chefia de Allen Dulles, o secretário de Estado que tão larga influência tivera na conferência de Caracas, na montagem continental de um sistema repressivo anti-esquerdista.

Quando Kennedy chegou ao governo, já encontrou em fase de acabamento esse plano. Os americanos estavam treinando uma força de invasão, composta de exilados cubanos, na costa ocidental da Guatemala, ao mesmo tempo que procuravam unificar todas as correntes democráticas de oposição ao castrismo, em um movimento político coerente que se aproximasse de um partido.

A intervenção armada havia sido sugerida pelo vice-presidente Richard Nixon em 1959 e a organização do movimento oposicionista fora autorizada por Eisenhower em março de 1960, um ano antes da posse de Kennedy e da tentativa frustrada de invasão.

Quando Kennedy assumiu, teve que decidir sobre o legado da força guerrilheira, sob treinamento americano na Guatemala, e do comitê civil de exilados – esboço de um governo futuro – sediado na Flórida. Kennedy, premido pela situação existente, muito difícil de se desfazer, e mal informado sobre a realidade e na natural insegurança dos primeiros dias de governo, foi sendo levado a assentir nos planos de invasão, embora, instintivamente, eles não lhe agradassem.

Kennedy não pretendia a velha ordem oligárquica: “Não objetamos contra a revolução cubana – declarou, mas  contra o fato de ela se ter tornado comunista”.

AS REPERCUSSÕES TRAZIDAS AO BRASIL

A gravidade pela crescente tensão entre Cuba e os demais Estados do Continente já se manifestara antes da posse de Jânio Quadros e John F. Kennedy, ainda nos governos de Dwight David Eisenhower e Juscelino Kubitscheck por ocasião da reunião de consulta de São José da Costa Rica em setembro de 1960.

A ascensão de Quadros e de Kennedy modificou o panorama no Brasil, mas não alterou nos EUA, que continuou preso ao esquema preparado pela CIA ao tempo de Eisenhower.

Verificou-se então, o que era natural e mesmo inevitável. O Brasil de Jânio Quadros, cuja posição em referência a Fidel era distinta da do Brasil de Kubitscheck, tentou mediar a situação entre Cuba e EUA, na esperança de poder re-integrar aquele país no sistema democrático continental.

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João Goulart, Fidel Castro e Juscelino Kubitscheck no Rio de Janeiro em 1959 (Acervo Globo)

 

Essa orientação parecia viável porque o próprio Fidel logo após a posse de Jânio, declarara em Havana a United Press, que “recebia com interesse qualquer proposta do Brasil, tendente a abrandar as tensões do hemisfério”.

Afonso Arinos de Melo Franco, ministro do exterior durante o governo Jânio Quadros revela a tentativa de mediação entre EUA e Cuba: “Embora esteja disposto a encontrar fórmula de entendimento com os Estados Unidos (o Brasil) não poderá servir como mero agente de qualquer propaganda nem prestar-se a uma simples manobra de diversão. Assim como estamos nos expondo as críticas  e restrições de vários setores da opinião nacional, por mantermos a nossa atitude de simpatia e cooperação com o governo revolucionário cubano, temos o direito de pedir a este a maior franqueza na exposição e definição de seus propósitos”.

O revolucionário Castro manifestara seu posicionamento ao afirmar que a possibilidade de entendimento entre o seu governo e os Estados Unidos aconteceriam nas seguintes bases: acatamento a soberania cubana, respeito as conquistas da revolução fidelista e discussões não restritas a qualquer assunto determinado. Porém as verdadeiras intenções dos Estados Unidos eram outras. O objetivo era canalizar a revolução latino-americana, desviando-a do domínio sino-soviético (China-URSS), com a invasão a Cuba.

A alternativa dos americanos para o Brasil era singela. O Brasil aceitaria participar do funcionamento da OEA, através de reunião de consulta ou medida semelhante, no sentido de considerar Cuba como instrumento de penetração comunista nos termos da decisão de Caracas de 1954.

O novo embaixador americano no Brasil Adolf Berle reconhecia que esta situação era de extrema dificuldade para o governo de Jânio Quadros. Caso o Brasil, não desejando cooperar diretamente neste cerco diplomático, deveria manter-se  como expectador de uma política de mãos-livres (intervencionista) nas Caraíbas, executada talvez por Colômbia, Venezuela, Nicarágua, Guatemala ou El Salvador e apoiada materialmente pelos Estados Unidos.

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Jânio Quadros a Fidel Castro: pedido de maior franqueza na
exposição e definição de seus propósitos.

 

Afonso Arinos sugere a Jânio Quadros que talvez a solução seja uma diligência bem estudada por Jânio no sentido de coordenar uma ação conjunta entre o Brasil, a Argentina, México, Chile e Uruguai, a princípio sigilosa e depois deliberadamente pública, para pressionar ao mesmo tempo as duas partes: CUBA no propósito de desvendar-lhe o panorama real, tentar retira-la a tempo da órbita soviética, mediante providências tais como eleições e restabelecimento da ordem jurídica, com a conseqüente reintegração no convívio continental; os ESTADOS UNIDOS, manifestando a opinião dos países democráticos e amigos no intuito de que aceite as conquistas sociais e econômicas já realizadas pela revolução cubana, incluindo os prejuízos aos Estados Unidos e tolerados os agravos passados.

No caso de recusa de qualquer das partes, ou de ambas, a nossa posição moral ficaria resguardada e a opinião nacional com elementos favoráveis para compreender a nossa inação posterior, no caso de eclosão do conflito que procurávamos evitar.

O autor é historiador.

Próxima Reportagem Especial: Porque Jânio condecorou Che Guevara.

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