Charlie Hebdo: a imprensa no alvo extremista

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“Liberté!”…Liberdade!

A primeira palavra que enaltece os gritos de ordem do povo francês desde os tempos da revolução é a mesma que cada jornalista grita quando toma na mão a palavra e passa a escrevê-la, transmiti-la ao povo que lhe assiste, lê e ouve. Não só de palavras, mas também de traços e cores, de linhas expressivas e reações diversas que são feitos os assuntos que mexem com a humanidade. Estas, claro, são as habilidades dos “jornalistas do lápis”, os cartunistas”, que nesta quarta-feira terminaram os expedientes com um borrão vermelho-sangue ao senti os tiros que vitimaram os 12 profissionais da clássica “Charlie Hebdo”, um baluarte da charge satírica e opinativa do livre jornalismo francês.

Outra vez, como a repetição de uma peça dantesca já exaustiva e revoltadamente vista ao redor do mundo, eis que assassinos, munidos com ideias extremistas e distorcidos do que pensam ser o islamismo, são novamente os vilões do ato. Era manhã, o “Charlie” abria as portas para mais um expediente quando três atiradores promovem o tiroteio. Quatro renomados cartunistas, o editor-chefe da publicação e outros endossam a lista dos 12 mortos, além de mais 11 feridos. Foi um golpe duríssimo na terra onde a liberdade é o primeiro preceito dos ideais franceses.

Atiradores disparam contra a sede do "Charlie Hebdo", começava a manhã sangrenta para Paris e para a imprensa (Reprodução)
Atiradores disparam contra a sede do “Charlie Hebdo”, começava a manhã sangrenta para Paris e para a imprensa (Reprodução)

A comoção atinge em cheio o mundo, jornalistas de todos os cantos do planeta, em especial os cartunistas, não acreditam no que acontece. Ao primeiro olhar, é o pior atentado contra a imprensa desde as mortes de profissionais na Guerra da Bósnia, entre 1992 e 1995. Todos se entreolham e perguntam insistentemente aonde o fanatismo, a interpretação distorcida dos preceitos pacíficos do Alcorão e o extremismo ainda levarão?

As ações do EI parecem não se limitar apenas nos territórios ocupados no Iraque e na Síria, seguidores em todas as partes do mundo amedrontam nações que, temerosas, não sabem aonde será o próximo atentado, a próxima tragédia. A Austrália viveu no ano passado situação semelhante, no dia 15 de dezembro, um radical a serviço do grupo terrorista sequestrou por 17 horas o Lindt Cafe, no centro de Sydney. Três pessoas, contado o atirador, morreram. No entanto, apesar do fim daquele episódio, a tensão sobre ações terroristas em nome do EI ainda é uma constante, confirmada com brutalidade nesta quinta na França.

O periódico satírico Charlie Hebdo, assim como qualquer cartunista, tem o lápis como o instrumento de critica e comentário a sociedade atual (Bertrand Guay/AFP)
O periódico satírico Charlie Hebdo, assim como qualquer cartunista, tem o lápis como o instrumento de critica e comentário a sociedade atual (Bertrand Guay/AFP)

O atentado volta a acender o sinal de alerta para a ameaça de novos atentados em todo o mundo. O que mais espanta, com tantas declarações de lideres mundiais é uma falta de uma ação concreta e firme contra as ações dos terroristas. A expansão da ideologia do EI entre jovens desiludidos, extremistas naturais e falsos mulçumanos (aqueles que distorcem o Alcorão) é, de fato, uma questão preocupante a todas as nações. Pessoas que, motivadas por uma torta ideologia, são levadas a cometer crimes, sequestros e assassinatos. Ações que, muitas vezes, são encerradas, na maioria das vezes, com o suicídio dos próprios praticantes em nome de um extremismo ridículo.

Hollande: Luto oficial e conclamação a união do povo (Philippe Wojazer/Reuters)
Hollande: Luto oficial e conclamação a união do povo (Philippe Wojazer/Reuters)

A charge, sempre com o papel contestador e critico com relação aos assuntos mais relevantes das atualidades, é a forma mais direta e firme de compreensão de um acontecimento ou de uma opinião. Nela, não se necessita leituras, pesquisas e aprofundamentos, apenas um olhar simples e entendedor que leia nos traços do cartunista. Em vezes, a critica atravessa os limites toleráveis de filosofias e credos, mas em grande maioria de vezes é certeira e retrata com fidelidade o momento. Não é a Maomé o alvo dos lápis, mas sim a cabeça dos fundamentalistas que veem por sob os turbantes apenas as filosofias que apenas eles leem, e que nenhum bom árabe as encontra no Alcorão, um livro de paz, como o próprio Papa Francisco e outros teóricos da religião já definiram.

O que será do mundo e da imprensa depois de mais este ato? A união de todos em nome da paz e do fim do terrorismo, exaustivamente pregada há anos, agora está sendo gritada pela voz da França, que volta a dar as mãos entre si em nome da liberdade como o fizera na Segunda Guerra diante do nazismo. Aos cartunistas resta apenas a força em permanecer riscando e colorindo a dura realidade.

Seja de lapis, canetinhas, pinceis, o que for… A liberdade de expressão está borrada de vermelho, mas nada como uma borracha e muita inspiração em um mundo melhor para continuar o desenho da vida.

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