Boa noite, vizinhança: o adeus de Roberto Bolaños

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Roberto Gomez Bolaños, um cidadão nascido na capital federal do México em 1929, fruto do amor de uma secretária bilíngue com um cartunista, pintor e ilustrador. Formado em engenharia elétrica pela tradicionalíssima Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM) e com uma carreira segura para os padrões de vida mexicanos.

Seria apenas mais uma história de um indivíduo que, graduado, iria atrás do sucesso e da estabilidade profissional que a carreira permitiria. Pois bem, seria isto se este rapaz atarracado, baixinho e invocado não tivesse deixado de lado os cálculos de volts e amperagem, que nunca usou na vida, para se dedicar a arte e, mais marcantemente, ao humor. Talento para criar, para interpretar e para escrever quase que compulsivamente páginas inesquecíveis de roteiros e roteiros de filmes e programas marcantes do cenário artístico do colorido México.

Talento este que transcenderia das fronteiras da nação norte-americana para o mundo, e que chegaria ao Brasil mais que por acaso, num amontoado de fitas de enlatados da emissora mexicana Televisa, onde produzira duas das criações máximas da carreira amplamente reconhecida pelos seus patrícios. Deste simples lote de fitas, menosprezado pelo presidente de uma grande emissora brasileira, nascia uma paixão arrebatadora por um moleque maltrapilho e por um super-herói as avessas.

Este é apenas um pedaço da história traçada pelo engenheiro elétrico Roberto Gomez Bolãnos, agora designado pela alcunha de “Chespirito” (“pequeno Shakespeare”) escrita pelo Brasil e pelo mundo, e que neste 29 de novembro de 2014, no conforto do lar em Cancún, era concluída com o ato final, o encontro com Deus e com os velhos companheiros de estúdio e de vida na “vila” do céu.

As várias facetas de um criador (M de Mulher)
As várias facetas de um criador (M de Mulher)

Escrever, escrever, escrever…imortalizar

Foram diversos personagens, filmes, histórias, programas, esquetes, tudo saído do passear dos dedos inspirados por máquinas de escrever e canetas onde transbordava a criatividade. Mas não se limitava apenas a escrita a história de Bolãnos, quis ele também dar vida aos personagens que criava, sendo dois deles um pedaço doce como um pirulito gigante no coração de jovens e “velhos” de nossos dias, que eram acostumados saudavelmente a rir com o humor puro e inocente criado por ele e imortalizado em bordões e cenas inesquecíveis.

Chapolin Colorado em mais uma aventura. Lutas contra os vilões e solução de problemas diários com movimentos "friamente calculados" (Fórum do Chaves)
Chapolin Colorado em mais uma aventura. Lutas contra os
vilões e solução de problemas diários com movimentos
“friamente calculados” (Fórum do Chaves)

De um lado, estava o Chapolin, um super-heroi que parecia não ter passado na prova de heroísmo na escola. Estabanado nos seus movimentos “friamente calculados”, atrapalhado, mas que pedindo a complacência de seus protegidos e do telespectador (sigam-me os bons) era o maior herói de todos os tempos. Superman, Batman, Homem-Aranha, nenhum deles tinha a perspicácia e anteninhas de vinil para detectar a presença do inimigo e acerta-lo com um possante golpe de marreta biônica. Era festejado, imitado e sempre lembrado a quem necessitava de seu socorro, afinal, “e agora, quem poderá nos defender?”

Mas do outro lado da estrada de Bolaños está, sem dúvida, aquele que é o seu invento máximo, a luz mais brilhante de toda a inspiração de anos e anos de escritas e interpretações. Era um garoto de rua, abandonado na vida e tendo um barril como seu lar doce lar. Atendia pelo nome de Chaves no Brasil, embora várias vezes quase saia da sua boca o nome verdadeiro. De roupas rasgadas, chapéu com tapa-orelhas e botinas pretas de cadarços amarelos, Chaves vivia um dia de cada vez, divertindo-se com os amigos (e irritando-os as vezes), enfurecendo os adultos e tendo um simples sanduíche de presunto como objetivo maior de vida.

Era a pura essência do humor, inocente, simples e inteligente (Fórum do Chaves)
Era a pura essência do humor, inocente, simples e
inteligente (Fórum do Chaves)

Chaves era a expressão máxima da inocência da criança, que com a curiosidade característica, descobria a mecânica das coisas de um jeito totalmente inusitado. Pedia, a cada sinal de sua incompreensão, que a vítima não se irritasse, dizia que “foi sem querer querendo” e apenas pedia compaixão para entender o mundo a sua volta. As vezes tão insensível, mas que permitia, junto das tiradas mais cômicas e saudáveis da TV mundial, lições para a vida. Você já ouviu, certamente, que “a vingança nunca é plena, mata a alma e envenena”, ou “as pessoas boas devem amar seus inimigos”, sem contar a máxima de dividir, compartilhar com quem mais precisa e aguçar a imaginação com qualquer brincadeira ou objeto.

E Chespirito, nas empreitadas como Chaves, Chapolin e tantos outros tipos, nunca esteve sozinho. Ao seu lado uma equipe de classe “A” em matéria de humor, que as vezes discutiu, separou-se, mas que não deixou o brilho das histórias se perder na frieza das brigas. Com Ramon Valdez, o “Seu Madruga”, divida os cascudos a cada pergunta sobre a estimada avó. Com Carlos Villagrán e Maria Antonieta de Las Nieves, o “Quico” e a “Chiquinha” dividia as mais mirabolantes brincadeiras e brigas campais no meio do pátio. Com Edgar Vivar, o “Seu Barriga”, dividia as calorosas recepções recheadas de atropelos involuntários. Com Ruben Aguirre, o “Professor Girafales”, aprendeu e dividiu os escorregões ao referir-se ao mestre como “lingüiça”. Tantos outros cujo espaço nem cabe em um parágrafo apenas, muitos que na terra choram saudosos a falta do amigo, e no céu, o recebem com carinho e alegria.

Bolaños não estava sozinho. Ao seu lado, um naipe de talentosos atores e humoristas que fizeram história junto com Chespirito (Uai)
Bolaños não estava sozinho. Ao seu lado, um naipe de talentosos atores que fizeram história junto com Chespirito (Uai)

Por acaso, o Brasil

Para Brasil, todo o amor possível. Alias, foi neste sentido da frase que o próprio Bolaños deixou registrado o último post no Twitter, no último dia 26 – “Todo mi amor para Brasil” – e que deixou ratificado o carinho do humorista e escritor pelo país que o acolheu quase que por acaso em 1984, e que cultivou um fanatismo e carinho imenso por desenhar na juventude de grande parte dos brasileiros bons valores e eternos risos, repetidos e repetidos no ver e rever de episódios.

Mesmo desqualificado preliminarmente por Silvio Santos, Chaves foi ao ar no Brasil pela primeira vez em 1984. (SBTPédia)
Mesmo desqualificado preliminarmente por Silvio Santos, Chaves foi ao ar no Brasil pela primeira vez em 1984. (SBTPédia)

E foi literalmente por acaso que o Brasil descobriu e acolheu Chespirito e suas criações. Em uma remessa de novelas enlatadas da emissora mexicana Televisa, vinda ao SBT em 1984, estavam alguns dos episódios de Chaves e Chapolin, avaliados preliminarmente por Silvio Santos como material “de baixa qualidade”, “com cenários feitos rudimentarmente” e “sem possibilidade de emplacar”. Não era o mesmo pensamento da equipe dos estúdios Maga (dubladora particular da então TVS, atual SBT), que insistiu na fórmula do humor inocente e saudável de Chaves em contraste com as tiradas carregadas de erotismo e malícia de outros humorísticos brasileiros. Dublando cerca de 10 episódios como experiência.

Silvio resolveu dar uma chance, e o que era pra ser uma exibição experimental iniciada em 24 de agosto daquele ano tornou-se 30 anos ininterruptos de Chaves, Chapolin e sua turma nas telas brasileiras. Para várias gerações é difícil esquecer, e mais ainda difícil admitir qualquer ameaça de retirada do ar por parte da emissora do “homem do Bau”, que vê na produção uma forma de garantir bons pontos no IBOPE.

Eis que chegados a 29 de novembro, em sua casa em Cancún, já consagrado e admirado eternamente por todo o mundo, tendo consigo o amor dos fãs e da esposa, Florinda Meza (sim, a Dona Florinda, para os desavisados), Roberto Gomez Bolaños, o Chaves, o Chapolin, o Chespirito, o “tantos outros personagens de sua mente criativa”, da o último suspiro e segue rumo a “vila” do céu. Deixa na terra fãs órfãos, que depois de tantas vezes enganados e aliviados com suas ameaças de partir, agora se conformam que o ciclo da vida cumpriu-se com a criança maltrapilha e de coração gigante que aprenderam a exaustão a viver e rir salutarmente.

Assim se vai Bolaños, e como o fim de um livro, fica um belo capitulo final, que jamais terminará de ser escrito. É a imortalidade do humor, das boas coisas da vida, da infância, de um cidadão que não trará apenas risos, mas emoção e saudades de tempos bons. Descanse em paz, Bolaños, todo nosso amor a você.

Boa noite, vizinhança!

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