A Última Queda

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Quem acreditava que a noite do dia 6 de maio de 1937 seria habitual, fatalmente, teve suas expectativas derretidas feito o dirigível que cruzava os céus de Nova Jérsei. O desastre que levou o LZ 129 Hinderburg do apogeu até o seu retorno ao pó abalou os arredores da base naval de Lakehurst, no pacato Ocean County, em Jérsei.

Os ventos do final da tarde sopravam em um único tom. O criador de cavalos Josh Miazga estava incomodado com a inquietude de sua manada de quartos de milha. Seu exemplar mais maduro, Orpheu, relinxava enquanto encarava o chão, a coluna curvada, expelindo entre dentes um assovio que mais parecia uma gargalhada ácida.

“Todos os cavalos do lado sul do estábulo são criados para competições. São exímios atletas, mais maduros e seguros que os outros exemplares. Mas naquele dia, eu pude perceber algo no olhar dessas animais.”

As preocupações do responsável pelo estábulo dobraram-­se quando Theodor, cavalo frísio que a despeito de uma deficiência fisiológica que o deixava com a movimentação lenta, agitava-­se em um torpor febril. Oriundo de uma família supersticiosa, Josh já temia que seus animais tivessem sido amaldiçoados. Quando escutou um choro cada vez mais alto, olhou para os animais, porém, percebeu que o ruído mais perturbador que ouvira em vida vinha dos céus em contornos de uma vasta bola de fogo.

Um incêndio tomou conta da aeronave enquanto ela realizava manobras de aterrissagem no espaço aéreo de Jérsei. Um vazamento de gás inflamável causou uma explosão, levando fatalmente a morte de 36 pessoas, entre passageiros e tripulação. As autoridades do governo americano, anunciaram de prontidão que uma investigação sistemática já está em curso a fim de elucidar detalhes técnicos que levaram ao acidente.

Há dez anos responsável pela aterrissagem de estruturas aéreas de grande porte, Joel Howard acreditava que seu último ano em atividade terminaria longe de agitações ou maiores surpresas, assim, encerrando com chave de ouro uma carreira que havia começado por acaso. Seu derradeiro trabalho parecia ser mais uma fácil aterrissagem com o afamado dirigível alemão, no entanto, Howard notara dificuldades na execução das manobras.

“Desde que esses dirigíveis surgiram, nunca vi uma cena tão chocante. Daqui de baixo, pudi perceber a dificuldade do piloto em guiar o veículo. Ele rodou várias vezes até chegar ao pátio de pouso. De longe, percebemos algum vazamento na traseira. Depois, veio o estralo e o fogo.”

O pouso do LZ 129 Hindenburg era aguardado por dezenas de pessoas nas proximidades do campo de aterrissagem, entre elas parentes dos passageiros e da tripulação. O âmbito de expectativa e descontração entrara em suspensão tão logo a aeronave pairou debilmente no ar e uma explosão de som dilacerante anunciou o terror ígneo que começara. O drama das famílias no momento da tragédia fora indescritível.

02

Gritos vindos de fora e de dentro do veículo se confundiam em uma orquestra de pânico. As chamas consumiam cada centímetro, e ,por detrás do tecido em decomposição, só se via mais fogo. Os corações que testemunhavam a cena encheram­se de angústia. O desespero era a única resposta a aquela cena horrenda. A gôndola estava coberta por uma fumaça que se tornava densa a cada crepitar de chamas. Uma fatalidade inevitável.

Finalmente, ele aterrissou. De uma imponente maquinaria reinante aos olhos das nuvens a uma massa retorcida e sepultada no chão de Nova Jérsei. Chegara ao fim a jornada do precioso LZ 129 Hindenburg junto com 36 vidas de imensurável valor. 6 de maio de 1937, o dia em que os céus choraram. A German Zeppelin Airline Company, empresa que operava o veículo, delegou ao engenheiro Marcel Pourie a tarefa de coordenar uma perícia técnica em torno do acidente. Na opinião do profissional, o envelope que cobre o esqueleto metálico rasgou­-se liberando hidrogênio, gás que serve como combustível, porém sua facilidade em inflamar em contato com o ar torna cada viagem um jogo de azar.

“As análises preliminares mostraram algumas fendas pequenas por toda a extensão do envelope. Algumas delas possuem contornos irregulares, o que, de maneira peculiar, me traz suspeitas. Até agora não podemos dizer se foi uma infelicidade ou sabotagem que provocou o acidente. Seria precipitado.”

Os destroços do dirigível foram recolhidos pelas autoridades responsáveis, onde testes deverão indicar o que de fato provocou a explosão. Por hora, nos resta torcer para que cenas tão chocantes não se voltem acontece

03

Colaboração de Lucas Jiensen. Escreve de Fortaleza, Ceará.

3 Comentários

  1. Tão natural quanto a luz do dia.. Infelizmente, o descrito pelo grande Lucas Jiensen relata de maneira detalhada uma tragédia. A par da situação, excelente descrição pelo autor do texto.

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