A geografia da conformidade

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Das notícias que chegam de Blumenau em tempo quase real pelas redes sociais, a que mais se sobressaiu na semana passada foi a comemoração do aniversário da cidade – de antemão, parabéns aos blumenauenses; 165 anos não são 165 dias! É bom viver num tempo em que os fatos são narrados com rapidez, pelo povo e para o povo, na palma da mão, a qualquer hora e em qualquer lugar.

Estive lembrando dos meus primeiros tempos de estudante aí na “Alemanha sem passaporte”. Voltei às minhas primeiras visitas ao Museu de Hábitos e Costumes, ao Arquivo Histórico… Lembrei também da leitura de ‘A Geografia da Esperança’, de Cristina Baumgarten, um romance histórico que não é lá uma obra prima da literatura, mas que cumpre sua missão de reforçar no imaginário popular a narrativa romanceada dos primeiros tempos do Dr. Blumenau e sua comitiva em terras catarinenses.

Aí observei o quanto o povo blumenauense se orgulha de sua história, de suas raízes e coisa e tal. Pensei em como é cômodo e simples se orgulhar de uma história épica, cheia de nuances cinematográficas. Não que hoje, em pleno 2015, sejamos obrigados a ficar ressaltando o lado negativo dos fatos passados, mas não podemos esquecer daquilo que os colonos não registraram em seus livros de memórias.

Bem antes de varrer a vegetação das duas margens do Itajaí-Açu, a terra foi banhada com o sangue dos aborígenes rebeldes. Não é preciso se debruçar nos livros – aqueles que ficam nos fundos das prateleiras, pois não corroboram com o henredo heróico – para imaginar que os povos originários resistiram à invasão que o Império e os imigrantes ávidos pelo progresso lhes submeteram.

Contudo, é preciso contextualizar. Para lá da Curva do Passat, de onde eu venho, também os “mocinhos” tiveram o cuidado de imprimir a sua versão da história. Apesar de admitir que os reais donos das terras (os crioulos, os índios, os mal nascidos) venceram a Guerra do Contestado, há sempre um recurso narrativo que sobressalta a bravura dos cataúchos e paranaenses – os outros eram fanáticos religiosos. O que dizer daqueles mais ao sul que até hoje comemoram na Semana Farroupilha seus “grandes feitos” apesar de não terem consumado a tão desejada República Riograndense? É tudo uma questão de discurso.  

O que o heroísmo dos colonos de Blumenau, a bravura dos guerreiros do Contestado, o fervor dos Farrapos e tantas outras histórias narradas por aqueles que detinham o poder de produzir e reverberar suas visões dos fatos têm a ver conosco, que somos os frutos filtrados e evoluídos deste passado um tanto quanto inglório? Quase nada e quase tudo. Depende do ponto de vista.

Se hoje carecemos de subsídios intelectuais para nos indignarmos com a trama discursiva de nossos políticos, é porque não nos ensinaram a ver os outros lados das histórias. O exercício da dúvida, da contestação, da crítica sempre foi visto como algo chato e dispendicioso. Leia os livros e acerte as respostas das provas, foi tudo que nos incutiram na mente.  

É ótimo ver as fotografias, os vídeos e os textos apaixonados do povo. Também seria ótimo ver a imprensa discutindo os lados ingratos da história; chamando os historiadores mais realistas para cutucar o senso comum e remexer os cadáveres do armário. Memórias são memórias, não é preciso que sejam boas, apenas devem ser realistas. É assim que avançamos: reconhecendo os erros do passado para não admitir que se repitam no futuro.

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