30 dias de viagem pela Europa, 30 aprendizados sobre o Brasil

Tiago Tamanini Junior – Florianópolis, Santa Catarina. www.arquisofia.com

Foram trinta dias sem saber quando era sábado ou terça, chocando-se com diferenças culturais e me adaptando ao Mundo Antigo. O mochilão me permitiu conhecer a Europa pelos albergues e sobre duas rodas em espaços públicos. Foi uma noção geral, mas deu para aprender um pouco sobre o europeu e o próprio brasileiro. Agora deixo aqui meu depoimento, um pouco precipitado e exagerado às vezes, mas fica aqui para pensarmos.

1 – Eu pensava “sorvete” e aparecia uma sorveteria. Pensava “pizza” e aparecia uma pizzaria. Se tinha algo que eu não deixei de comer um só dia neste mochilão foi pizza e sorvete. No Brasil temos excelentes pizzas como na Europa, assim como na Europa existem pizzas meia-bocas como no Brasil. Mas o que o Brasil não tem é uma pizza inteira de 36 cm a R$ 16,50 ou uma de 25 cm a R$ 9,00. Pizza na Europa tem preço de X-Burguer no Brasil. Já os sorvetes eram caros, custavam de R$ 4,50 a R$ 7,50 apenas uma bola, mas foram os melhores que comi na vida. Depois deles, sorvete expresso me pareceu artificial demais.

2 – O Brasil tem duas grandes personalidades reconhecidas na Europa: Pelé e Oscar Niemeyer.

3 – Os operadores de caixas europeus são muito rápidos. No Brasil eu faço uma pequena compra de supermercado em cinco minutos e espero na fila durante quinze. Na Europa tem um divisor entre as compras de consumidores que agilizam para que todos coloquem o máximo possível de suas compras na esteira do caixa. As máquinas de leitura são muito rápidas e os caixas não colocam nada na sacola pra você, na verdade nem sacolas são fornecidas. Se você não tiver mochila, bolsa ou sua própria sacola, vire-se como pode. No Brasil além das sacolas serem fornecidas, o próprio caixa faz esse serviço pra você, quando não raro tem um sujeito chamado empacotador que faz esse serviço tão difícil.

4 – Tudo que você puder fazer por você mesmo é melhor na Europa. Os horários do transporte público estão escritos nas paradas, os preços dos pratos dos restaurantes estão descritos pelo lado de fora e comprar passe de ônibus é na máquina, assim como gastar o passe. Mas nada se compara ainda em ser forasteiro numa cidade brasileira, onde as pessoas te ajudam demais e você parece que faz seus melhores amigos em apenas alguns minutos.

5 – Muitos motoristas brasileiros são estressados no trânsito das cidades. Muitos motoristas europeus também.

6 – Se Deus não for brasileiro, pelo menos a água é. Porque na Europa (exceto algumas cidades italianas) não existe bebedouro em local público e o preço da água em supermercado europeu é o preço da água em lanchonetes no Brasil.

7 – Quando vamos instalar um vaso sanitário, compramos o mesmo numa loja, assim como a pia. E por que o chuveiro nós construímos in locu? Na Europa quase todos as duchas são pré-fabricadas, como os outros elementos sanitários de um banheiro. Achei isso fantástico e prático.

8 – Nunca vi tantas sirenes de ambulância e polícia como na Europa, especialmente em Roma. Não sei se qualquer “casinho” de machucado é motivo para alarme ou se as cidades europeias são tão violentas e perigosas assim.

9 – Conheci muitos amigos latino-americanos em albergues, mas apenas uma brasileira. Outros brasileiros que vi estavam viajando quase sempre em luxo. Poucos ficam em albergues, estão sempre alugando carros e comem nos melhores lugares. E outra, levam muitas, mas muitas malas juntos.

10 – No Brasil eu costumo botar a roupa para lavar na máquina e penduro para secar. Na Europa eu me acostumei a botar a roupa para lavar e secar na máquina (as máquinas lavam e secam ou há pelo menos uma máquina para lavar e outra para secar).

11 – Os homens italianos de meia-idade foram as pessoas mais carrancudas que já conheci. Pedir informação parecia pedir esmola.

12 – Um alemão vale por três brasileiros. No sentido humano com certeza é um por um, mas no trabalho e fazeres do dia-a-dia o sistema alemão é muito mais eficiente. Comprar é mais rápido, ser atendido é mais rápido, andar de bicicleta é mais rápido, tudo funciona mais rápido. Por isso, para fazer o que um alemão faz, precisa-se de três brasileiros.

13 – No Brasil uma compra de R$ 3,48 custa R$ 3,50. Na Europa uma compra de € 3,48 custa literalmente € 3,48.

14 – No Brasil eu vou a bares e lanchonetes a tarde e está passando novela, filme reprisado ou programas de auditório na televisão. Na Alemanha sempre tem jogo de futebol europeu, ao vivo ou reprisado pela 10ª vez. E ainda dizem que os brasileiros é que são fanáticos por futebol.

15 – No Brasil economizamos em paredes e janelas baratas na construção e gastamos dinheiro o resto da vida em elevadas contas de energia durante os períodos de calor. Os europeus investem em paredes e janelas de qualidade e economizam o resto da vida em contas de energia durante os períodos de frio.

Festa no espaço público, cercados de bicicletas, em Amsterdã (Tiago Tamanini Junior)
Festa no espaço público, cercados de bicicletas, em Amsterdã (Tiago Tamanini Junior)

16 – Na Alemanha entendi o que é Engenharia de Infraestrutura. No Brasil, em grande parte, o que fazemos na verdade é Enjambraria de Infraestrutura.

17 – Grande parte dos brasileiros andam de bicicleta como se fossem escalar uma montanha. Fazem uma mala andando com tênis especial, capacetes caros, coletes refletores, garrafa d’água, uma bicicleta de trilha para andar na cidade, colocam suporte de bicicletas nos carros e a bike sempre tem que ficar dentro de um condomínio ou casa, parecem robocops ciclistas. Na Europa andar de bicicleta é sinônimo de praticidade e agilidade: uma bicicleta simples, tosca e velha, sem marcha, com freio de pedal, guardando a bike na rua e com a roupa de rotina, sem frescura. O Brasil não é tão seguro assim, mas algumas precauções são verdadeiros exageros.

18 – Os europeus ouvem falar de três lugares do Brasil: Rio de Janeiro, São Paulo e Amazônia.

19 – O Brasil é o quinto maior país em extensão territorial, o quinto mais populoso do mundo e a sétima maior economia (2013). Mas falar do Brasil na Europa parece falar de uma ilha da Polinésia, poucos sabem o que o país realmente é, sua cultura e história.

20 – As favelas brasileiras são tão famosas na Europa como os centros históricos europeus no Brasil. Muitos europeus querem conhecer nossas favelas.

21 – Os europeus desinformados acham que visitando o Brasil só vão encontrar carnaval e futebol. Os brasileiros desinformados acham que visitando a Europa só vão encontrar caucasianos e cidades históricas.

22 – Os brasileiros e asiáticos fazem os roteiros mais óbvios pela Europa: conhecer centros históricos.

23 – No Brasil há um complexo de inferioridade e de amor ao exótico extraordinário. Nós brasileiros não sabemos realmente o quão bons, fortes e potenciais nós somos. Falta a nós encontrarmos nosso lugar no mundo e nos impor como um país verdadeiramente grande. Nosso país é demais!

24 – Os europeus têm sistemas de eficiência energética impressionante. Em todos os lugares possíveis estão reduzindo o consumo e gerando energia de forma sustentável. Mas não é para menos: estão pagando pelos erros do passado, exploraram e destruíram demais suas reservas ambientais.

25 – As cidades europeias são lindas e os edifícios que se alojam na beira de rios, canais e lagos são maravilhosamente bonitos. Mas isso custa caro: há muito menos vida animal e vegetal nesses lugares e o preço da água é altíssimo.

Veneza, a cidade sobre as águas. Ocupação humana de um tempo que não se sabia sobre os efeitos da poluição urbana ou da necessidade de preservação do meio natural. Os prédios são belos, mas os recursos escassos. (Tiago Tamanini Junior)
Veneza, a cidade sobre as águas. Ocupação humana de um tempo que não se sabia sobre os efeitos da poluição urbana ou da necessidade de preservação do meio natural. Os prédios são belos, mas os recursos escassos. (Tiago Tamanini Junior)

26 – Agradeço meus antepassados por terem vindo ao Brasil. Fugiram das guerras, problemas econômicos e nas últimas décadas dos problemas ambientais europeus. O Brasil é uma nação-amiga de todos os países e tem todo o potencial e riqueza natural para não repetir os mesmos erros dos seus “colonizadores”.

27 – No Brasil a criminalidade vem dos próprios brasileiros e os estrangeiros querem o bem do Brasil. Na Europa a criminalidade vem dos estrangeiros e os europeus querem o bem da Europa.

28 – Os brasileiros não procuram conhecer Arte e Arquitetura Moderna/Contemporânea. Para os brasileiros os europeus pararam no Neoclassicismo. É muito raro ver brasileiros visitando museus de arte moderna, principalmente se estes museus não tiveram obras como Picasso ou Dalí.

29 – Os brasileiros trabalham demais e rendem de menos. Os europeus trabalham de menos e rendem demais.

30 – Os europeus pagam muitos impostos e ainda pagam para estudar nas universidades públicas. No Brasil pagamos igualmente muitos impostos, mas temos universidades públicas gratuitas e geralmente comer nos restaurantes universitários custa menos de R$ 2,00.

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