Climão – Protesto em Blumenau

Eles chegam vestidos de verde e amarelo. Eles vêm de todas as direções. Mãos dadas, em vans, grupos nas bicicletas. Na verdade: eles chegam vestidos com camisetas da seleção brasileira de futebol, o que me envia brevemente, pela minha máquina do tempo mental, para o ano passado. Era Copa do Mundo e estavam todos assim: pintados e mostrando as cores do país. Quando a seleção perdeu por 7 a 1, camisetas foram tímida, silenciosamente guardadas nos armários; mas agora elas retornam para me assombrar.

Está quente demais nas ruas, apesar da promessa de chuva, que só chega mais tarde, tarde demais para o meu gosto. Protesto é também sinônimo de confraternização, e aparecem na praça famílias de pelo menos quatro gerações, avô e pais e netos bebendo, bisnetos sentados nos ombros de alguém, rostos pequenos pintados com frases como “FORA DILMA.” As crianças não entendem. Elas perguntam a razão de estarem ali. “É dia 15, e viemos nos manifestar,” diz um pai, achando ter esclarecido tudo. Algumas não questionam: entram em um climão de festa e começam a desenhar cartazes e a tocar vuvuzelas pelas calçadas. Mais uma vez sou atirada naqueles dias de Copa do Mundo; aqueles dias de ouvido surdo e de não aguentar mais escutar uma única buzina sem explodir.

Não vamos falar do senhor de idade cantando rima com palavrão; não vamos. Porque ele parecia feliz, bêbado como estava, erguendo sua lata no ar e cultivando seu desgosto.

Eles marcham.

Escuto uma garota implorar por água quando vê alguém passando com uma caixa gelada de isopor, mas não é água, é Coca.

Eles seguem o trio elétrico que toca músicas do Cazuza. Eles cantam. Eles ouvem o Hino Nacional e depois aplaudem e assobiam ferozmente. Só sei que o sol está fritando minha cabeça.

Da última vez em que blumenauenses se reuniram assim, a briga era por tarifas de ônibus, mas também não era; era sobre tudo e um pouco mais; era sobre o sistema e sobre igualdade e justiça racial, mas também não era; era sobre a tal da família tradicional e intervenção militar, mas também não era.

Em 2015, adotam um rosto para o inimigo. Encontram um centro. Acham que descobriram a solução para os problemas, uma cura mágica. Alguns cartazes são improvisados, feitos de caixas de papelão, e a frase está em todos os lugares, não só no rosto de crianças.

Protesto em frente a Prefeitura (Clara Madrigano | Farol Blumenau)
Protesto em frente a Prefeitura (Clara Madrigano | Farol Blumenau)

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