EUA e Cuba – A surpreendente volta do diálogo 

Obama e Raul Castro: Noticia da volta das relações tomou de assalto o panorama mundial (reprodução)
Obama e Raul Castro: Noticia da volta das relações tomou de assalto o panorama mundial (reprodução)

Ela, uma ilha no pacífico governada por uma família que desde 1959 acredita nos ideais marxistas e comunistas como únicos no modo de vida e de tocar a economia. Eles, simplesmente a primeira palavra em poderio bélico e econômico, dono de meio-mundo com a influencia cultural e social e que acredita nos princípios de liberdade pensados por George Washington nos idos de 1776. Entre os dois, muito além do Oceano Atlântico está um mar de divergências, rivalidades, disputas e bloqueios de relações e economia que perduram desde a Guerra Fria, e que quase como um gole de mojito, sumiram num apertar hipotético de mãos que não vinha desde os tensos anos 1960.

No final de 2014, quando não esperávamos mais nada de um ano louco, com ameaças, terrorismo gritante e mortes inesperadas, eis que os Estados Unidos resolvem descruzar os braços e voltar a se entender com a pequena, porém relevantíssima, ilha de Cuba, um dos adversários mais incômodos de Washington desde que as guerrilhas em Sierra Maestra colocaram Fidel Castro no poder, em 1959. A decisão de Barack Obama veio coincidentemente num momento crucial da politica tocada por ele, onde os níveis de popularidade do governo caem e o congresso é tomado por uma leva de republicanos dispostos a tudo para atravancar ainda mais o momento vivido pela terra do Tio Sam.

O reatamento das relações é, sem dúvida alguma, um fato grande importância para o panorama mundial e uma das últimas barreiras que faltavam tombar desde o fim da União Soviética (URSS), em 1991. Moscou era o maior aliado de Havana desde a ascensão de Castro, tornando esta aliança perigosa um motivo de preocupação em todo mundo quando, em 1962, navios soviéticos iniciaram o posicionamento de misseis nucleares na ilha, visando um possível ataque aos EUA. O episódio, conhecido como a “crise dos mísseis” acendeu a luz de alerta no gabinete do já experiente presidente John Kennedy e, para alívio de um planeta inteiro, encerrou da forma mais silenciosa possível. Tensamente, mas sem mortos ou feridos.

Fidel e Che Guevara. Sinal de libertação de Cuba, mas de alerta para os EUA nos anos 60 (Eu Marxista)
Fidel e Che Guevara. Sinal de libertação de Cuba, mas de alerta para os EUA nos anos 60 (Eu Marxista)

Mas, muito além da velha briga comunismo versus capitalismo, a rixa entre EUA e Cuba tem raízes muito mais antigas do que é pensado. Em um passado bem antes de 1959, a ilha era parte dos interesses dos EUA para ampliação do território, que vinha sendo aumentado desde a independência, em 1776. A conquista da independência cubana dos espanhóis veio com muito custo e com a mão “amiga” dos americanos, que viam a chance de anexar a ilha entre os estados sob o controle de Washington. De 1891 a 1903, os EUA ocuparam Cuba, torando o poder de Havana limitado a uma espécie de “protetorado estadunidense” através da Emenda Platt, que permitia a intervenção americana em qualquer momento necessário.

Revogada em 1934, a emenda deu lugar a um tratado de relações que permitiu a continuidade da política sobre a ilha estabelecida em 1903, inclusive o arrendamento da famigerada Base Militar e Prisão de Guantánamo para o exército americano. A implantação, sob apoio estadunidense, do regime de Fulgencio Batista, que desde 1933 governava Cuba, aumentou ainda mais a ira dos cubanos, sobretudo dos guerrilheiros de Fidel Castro e Che Guevara, que não mediram esforços para promover a revolução em 1959 e se alinhar com a URSS. Tentativas dos EUA de eliminar Castro e o governo recém-implantado foram inúmeras e as hostilidades aumentaram.

Este alinhamento e as tensões entre os dois países levaram a uma consequência muito maior do que o rompimento das relações. Em 1961, os EUA decretaram o embargo econômico a Cuba, proibindo qualquer negócio entre empresas americanas e Havana, visando o prejuízo em setores vitais do setor social da ilha. O embargo ainda persiste e, para os próximos meses, a expectativa dos cubanos é que a lei seja a próxima a cair diante das atitudes de Obama e Raul Castro, irmão de Fidel e atual dirigente do governo.

A expectativa agora é pelo fim do embargo econômico, vigente desde 1961 (reprodução)
A expectativa agora é pelo fim do embargo econômico,
vigente desde 1961 (reprodução)

Ainda é cedo para se medir as consequências deste passo dado pelos EUA rumo a efetiva relação pacífica com Cuba. Em Havana, a notícia foi muito bem recebia pelos cubanos, que agora esperam o fim do embargo econômico, talvez com uma certa esperança de poder ter na ilha um pequeno lampejo de capitalismo. A palavra final sobre o fim do bloqueio comercial será, no entanto, do congresso americano, tomado de republicanos que podem promover o retrocesso em vez do avanço. Do outro lado, Raul Castro estende a mão a Obama, mas alerta que o sistema de governo e tudo mais ligado a filosofia vigente em Havana não será alterado em nenhum detalhe. Algo que não foge da normalidade e seria espantoso se fosse o contrário.

Seja quais os desdobramentos tomar, a reaproximação de EUA e Cuba é um presente de natal dos mais inesperados que o mundo em si poderia receber neste fim de 2014. Velhos inimigos, com histórias recheadas de divergências, crimes e negligencias voltam a se falar e provam o velho conselho do Papa Francisco e de muitos que durante os anos pregaram a mesma coisa: Tudo se resolve com o diálogo.

Por hora, Tio Sam e Fidel brindam o novo recomeço nas esquinas da Times Square com um sempre parceiro charuto e um generoso gole de mojito. Na chegada dos 25 anos da queda do muro de Berlim, outro simbolo da guerra fria resolveu, do dia para noite, “cair”, para o bem do mundo e da história.

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