Conto: Um café para nós dois

A tarde estava fria, chuviscava lá fora. As horas se arrastavam como se fossem dias. O texto precisava ficar pronto, o editor estava cobrando novamente. Precisava de mais energia.

– Outro café? – perguntou a secretária.

– Um reforço para alma – disse o rapaz.

Ele a obseravava há dias. Nova no trabalho, jovem, bonita e esbanjando disposição. Chegou tímida, mas demonstrando competência para tal. Logo, ela já dominava a rotina de trabalho, além dos pensamentos do rapaz. Enquanto ele sempre ocupado, só dispunha destes poucos momentos para se aproximar. A correria do dia a dia o consumia, e lhe restava apenas admirá-la, a distância. Gostava do que fazia, escrever era seu vício, assim como café. Colocou a moeda na máquina, o copo no compartimento. Selecionou a opção, agora era só esperar.

(Reprodução)

– Você já imaginou o quanto poderia economizar se diminuísse a quantidade de café que consome por dia? – indagou a garota.

– Não penso dessa forma, é um estimulante – se defendeu.

– Mas ele enfraquece o organismo, é o que dizem…

– E melhora a atenção, assim como o rendimento no trabalho – rebateu.

– Você deveria pensar menos no trabalho.

A máquina apitou, interrompendo a conversa. Aroma dos deuses, quentinho e pronto para ser consumido. Após acenar com a cabeça, ele retornou a sua mesa. O dever lhe chama, sempre o dever. Era assim, simples e introvertido. De casa para o trabalho, do trabalho para casa. E em seu tempo livre, escrevia. O relógio apontou 17h, agora faltava pouco. Tranquilo, foi em busca de mais café.

– Com esse já foram seis – disse a garota.

– Prometo que será o último.

Silêncio.

– Afinal, qual o seu problema com o café? – indagou o rapaz.

–  Não tenho problema nenhum, adoro café!

Então, ele realmente reparou nela. A maneira como a luz do fim de tarde refletia em seu cabelo, longo e vermelho. Ou em como as covinhas se destacavam quando sorria. Ela era linda, inteligente e engraçada. Ele poderia passar o resto do dia enumerando suas qualidades, mas o apito soou novamente, cortando seus devaneios…

Enfim 18h, o dia foi difícil. O texto já estava sobre a mesa do editor, juntou suas coisas, hora de ir para casa. Passando pela recepção acenou para secretária, como todos os dias. Ela recolhia suas coisas calmamente, uma calma que só ela obtinha. Mas se havia uma coisa que não gostava era assuntos inacabados, deu meia volta.

– Mas se você gosta de café, qual o motivo das críticas? – ele perguntou.

– Eu até gosto de café, mas em doses moderadas. Mas não é por isso que eu adoro café – ela respondeu.

– Não entendo…

– Adoro café porque é só assim que consigo conversar com você! – disparou a moça.

Dizer que ele foi pego de surpresa era pouco. Seguiram-se alguns segundos de gagueira, nossa, como essa moça lhe desconcertava. E em um súbito de coragem resolve perguntar.

– O que você vai fazer agora? Sabe, é que abriu uma cafeteria nova ali na esquina com a 5ª avenida…

Ela riu, pegou-lhe a mão, e iniciaram uma conversa sem fim.

Texto escrito por Janaína Aparecida Proença, acadêmica de jornalismo.

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