Os planos revolucionários após os irmãos Castro deixarem Cuba

Quem terá a incumbência de levar adiante os planos revolucionários após a morte de fidel castro?  O próprio Raúl Castro, muito a contragosto, viu-se obrigado a afirmar que nenhum ser humano pode herdar a autoridade ilimitada de Fidel. Essa tarefa caberá ao partido comunista.

Na realidade se isso vier a acontecer, se o partido comunista, com efeito, depois do enterro de castro, receber a missão de governar e decidir os destinos dos cubanos será a primeira vez, dado que durante quase meio século o papel que Fidel lhe reservava era o de executor de suas múltiplas iniciativas pessoais: uma mera correia de transmissão que jamais foi consultada sobre quaisquer questões transcendentais que afetaram substancialmente a vida dos cubanos, da instalações de mísseis atômicos soviéticos no começo dos anos 1960, as prolongadas guerras africanas da década de 1970, ou os ataques a Perestróika e o distanciamento da União Soviética sob o governo Gorbachev.

Irmãos castro: 50 anos de tirania socialista.
Irmãos castro: 50 anos de tirania socialista.

Isto explica o prestígio mínimo do partido comunista entre os cubanos, a debilidade doutrinária de seus quadros dirigentes e inclusive a própria apatia dos que militam na maior organização de massas do país: todos os cubanos sabem que os líderes e os membros do partido não foram a vanguarda da revolução, mas sim um instrumento dócil nas mãos de um caudilho carente de escrúpulos.

NA ÁFRICA ERA CUBA QUE FAZIA O PAPEL QUE OS RUSSOS FIZERAM NA EUROPA, INVADINDO PAÍSES E INSTALANDO DITADORES NO PODER.

Durante todo o tempo que esteve à frente do governo, Fidel Castro exerceu o mando através de uma sucessão de conflitos nacionais e internacionais artificialmente induzidos. Para o velho comandante, governar é brigar e polemizar. Fez isso sem tréguas com os Estados Unidos, mas também em diferentes momentos contra a Rússia, a China, a OEA, a ONU  e inúmeros governos latino-americanos. Também contra o FMI, o Banco Mundial e a  Igreja Católica. A dinâmica é sempre a mesma: castro acena da tribuna com algum conflito e, em seguida coloca todo o aparato de propaganda para atacar e ofender seus adversários (algo parecido com as estratégias utilizadas por sindicatos no Brasil). Por fim fidel leva seus resignados cubanos às ruas para manifestações em massa contra o inimigo da vez, agitado bandeirolas e gritando em coro lemas revolucionários com a certeza, um tanto ingênua, de que esses exercícios servem para estimular a emoção revolucionária.

Incorrerá o partido comunista pós-castrista na mesma estratégia de assembléias, ou melhor de motins, quase adolescente, de um máximo Cheerleader que nunca superou emocionalmente a fase de liderança estudantil, que não conseguiu transformar-se em estadista responsável e permaneceu agarrado ao papel de agitador permanente?

Em todo caso, o mais previsível é que castro, como sucedeu com o caudilho espanhol francisco franco, leve para a tumba o seu regime. Por que? Porque, como se diz no jargão marxista, estão dadas todas as condições objetivas e subjetivas para a mudança.

MEIO SÉCULO DE UMA VARIANTE TROPICAL DO STALINISMO

Mesmo que Raúl Castro reafirme que a revolução cubana continua sendo uma revolução de jovens, passados quase 60 anos do fracassado ataque ao quartel Moncada, o conjunto da sociedade e sobretudo os jovens, estão cansados de um sistema que não proporciona a menor oportunidade de superação pessoal. Não importa o talento que possuam, ou a vontade de trabalhar que demonstrem, o modelo de Estado criado por castro, coletivista e improdutivo, não permite que as pessoas melhorem a qualidade material de suas vidas, ou que tenham um lar minimamente confortável, mesmo tendo uma boa educação universitária.

Um sistema político que em meio século não só não conseguiu solucionar, como agravou, as carências populares em matéria de alimentação, vestimenta, habitação, transporte, água potável e energia não pode ser percebido com ilusões por quem inicia a vida adulta e pretende conquistar uma existência melhor do que tiveram que suportar seus pais.

Soma-se a esta miséria imposta a impossibilidade de viajar e integrar-se ao mundo que tem os jovens (aos quais não é permitido sequer o acesso a internet) e será possível compreender por que o sonho da maioria consiste em emigrar.

Naturalmente, no momento em que esses jovens puderem contribuir para modificar o sistema, como ocorreu em todos os países comunistas da Europa, serão eles que darão o primeiro passo nessa direção.

DEMOCRACIA PARTICIPATIVA DE FACHADA: não há campanhas eleitorais, somente um partido, um jornal e dois canais de tevê do governo. (REUTERS/Enrique De La Osa)
DEMOCRACIA PARTICIPATIVA DE FACHADA: não há campanhas eleitorais, somente um partido, um jornal e dois
canais de tevê do governo (REUTERS/Enrique De La Osa)

É claro que o mito Fidel castro permanece influenciando e Raúl afirma que a geração histórica que liderou esse processo “vai cedendo lugar aos pinheiros novos com tranqüilidade e serena confiança”, após lembrar que atualmente mais de 70% dos cubanos nasceu após a revolução de 1959.

Mas afinal, como se dá nas sociedades dominadas por caudilhos todo-poderosos, é comum que a verdadeira lealdade dos militantes não seja a ideologia nem as  instituições, e sim a pessoa colocada no vértice da autoridade.

Uma vez desaparecida tal pessoa, com ela se esvai igualmente a lealdade partidária. Chegado esse momento, uma parte significativa dos comunistas reformistas se incorporará a formações políticas muito diferentes do partido comunista tradicional, embora vá sempre haver um pequeno percentual de nostálgicos da velha ordem política introduzida por castro na vida política nacional.

Exposição cuidadosa da imagem de Fidel preserva o mito caudilho (Reprodução)
Exposição cuidadosa da imagem de Fidel preserva
o mito caudilho (Reprodução)

Lamentavelmente, o desaparecimento físico de fidel castro e o início da transição para um regime democrático, economicamente sensato e estável , capaz de manter a ordem e induzir a prosperidade de maneira constante não acontecerá repentinamente.

As marcas morais e materiais da etapa comunista não serão subitamente apagadas. Por três gerações os cubanos tiveram de adaptar seu comportamento às arbitrariedades, pressões e desmandos de uma ditadura totalitária, e, como se dá em todos os povos que abandonaram o comunismo, isso gera na sociedade certos hábitos negativos que custarão muito esforço para ser erradicados. Entre eles, a desconfiança mútua, o recurso à mentira, a apropriação do alheio sem sentimento de culpa e uma indiferença cínica em relação às responsabilidades cívicas.

Os cubanos precisarão de um certo tempo para descobrir que em liberdade se vive de outra maneira.

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