Espanha – O último ato real de Juan Carlos

Na TV, rRei Juan Carlos se despede dos espanhóis e dos 39 anos de reinado (BBC)
Na TV, Rei Juan Carlos se despede dos espanhóis depois de 39 anos de reinado (BBC)

Foi pela TV, numa segunda-feira de tantas já vividas em Madrid, discursando para um país preocupado com seu futuro, que um monarca, no termo popular brasileiro, “pediu para sair”. Era assim que depois de 39 anos de reinado, somando-se instabilidades, batalhas e diálogos que o rei Juan Carlos I preferiu anunciar aos espanhóis que estaria deixando o trono.

Felipe, Príncipe das Astúrias: A nova face de uma monarquia em busca da renovação (JoyTV)
Felipe, Príncipe das
Astúrias: A nova face
de uma monarquia em
busca da renovação (JoyTV)

Aos 79 anos de idade, o velho monarca, filho da casa de Bourbon, passa o bastão de comando ao filho, Felipe, Príncipe das Astúrias, que tem a missão de renovar a cara do império, limpar o bom nome da família e guiar a Espanha para longe da crise que a assola a zona do Euro.

O anuncio oficial foi feito enquanto o príncipe estava em viagem a San Salvador, capital de El Salvador, para a posse do presidente eleito Salvador Sánchez Céren. No entanto, antes do então rei se pronunciar na TV, a notícia de sua abdicação foi divulgada pelo premiê espanhol, Mariano Rajoy.

Para Juan Carlos, a necessidade de passar o trono a seu filho se deve ao fato de buscar-se a renovação da monarquia, voltando seus anseios e ideais para a Espanha para a figura jovial de Felipe, que assume o cargo aos 46 anos. Segundo o agora ex-rei, o príncipe de Astúrias “tem a maturidade, a preparação e o sentido de responsabilidade necessária para assumir a liderança do Estado”, e completou, “quero o melhor para a Espanha, a quem dediquei toda a minha vida.”

 

Do Franquismo a nova monarquia

E não foi uma vida fácil para Juan Carlos a frente do império. Durante seu reinado, o monarca teve de

Francisco Franco: Depois da Guerra Civil, pulso firme e rigido sobre a Espanha até sua morte, em 1975 (Wikipédia)
Francisco Franco: Depois
da Guerra Civil, pulso
firme e rigido sobre
a Espanha até sua
morte, em 1975 (Wikipédia)

suportar as mais diversas tensões políticas de uma Espanha que ainda buscava a estabilidade e democracia depois de 39 anos de ditadura de Francisco Franco. O “generalíssimo” vencedor da Guerra Civil Espanhola (1936-1939) assumiu o poder após a vitória do bloco nacionalista na contenda, sucedendo-se uma política rígida e opressora, onde se multiplicavam as violações aos direitos humanos. Apesar do alinhamento com os países do eixo, a Espanha se manteve neutra, e ao passar do tempo, a ditadura franquista  começava a buscar novos caminhos para restaurar-se democrática e economicamente.

No entanto, a década de 1970 traz novas perspectivas para a Espanha. A renúncia de Franco de seu mandato como chefe de governo e a morte de seu sucessor no posto, Luis Carrero Blanco, num atentado terrorista, apressaram ainda mais o fim de seu regime. Já apontando o então príncipe Juan Carlos como seu sucessor, Franco morreria em 20 de novembro de 1975, deixando vaga a cadeira de comandante dos destinos espanhóis para Juan, que assumiria o trono dois dias depois, sob grande festa e uma certa incredulidade dos setores mais conservadores.

Veja como foi a cerimônia de coroação de Juan Carlos como Rei da Espanha, em novembro de 1975:

Mas a tarefa do Rei não seria apenas de flores, flamenco e paella. Nos primeiros anos de reinado, Juan Carlos enfrentou a pulsos firmes todo o tipo de ameaça a estabilidade e união política da Espanha. Dos atentados do grupo ETA a um golpe de estado em 1981, foram diversos os desafios, especialmente o de retomar o crescimento econômico do país e proporcionar a liberdade tão sonhada pelo povo após o Franquismo.

Apesar de já ter sido celebrado como o monarca mais querido do mundo, Juan Carlos não vivia um bom momento no cenário internacional.

Desemprego em alta: Um sintoma alarmante da crise econômica espanhola (El Paro)
Desemprego em alta: Um sintoma alarmante
da crise econômica espanhola (El Paro)

Depois do folclórico episódio onde mandaria o então presidente venezuelano Hugo Chavez “se calar” (“por que no te calas?”), a família real espanhola era mal vista dentro e fora de seu país depois de revelados os escândalos de corrupção envolvendo sua filha e seu genro. O descrédito dois espanhóis com sua liderança acontece justamente num momento difícil para o país ibérico, quando a taxa de desemprego chega a índices alarmantes, e a economia vive um período complicado durante a crise do Euro.

A saída de Juan Carlos do trono espanhol é o capitulo final de uma nova história escrita por 39 anos de retomada da democracia, altos e baixos, disputas separatistas e a busca pelo caminho da prosperidade tão ansiada pela Espanha desde a Guerra Civil. O bastão é passado a Felipe, e ele bem sabe que a tarefa de reconstruir a auto-estima do país não se resume a futebol, paella, flamenco e flores.

Juan Carlos e sua esposa, a raínha Sofia em 1975 (divulgação)
Juan Carlos e sua esposa, a raínha Sofia em 1975 (divulgação)

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