Os “recuerdos” do futebol do Chile – Da ditadura ao sonho

(Globo Esporte)
A empolgante seleção do Chile na Copa 2014, histórias obscuras e persistentes de um sonho (Globo Esporte)

No mapa da América do Sul, sua extensão territorial é quase desapercebida pelo leitor de primeira viagem que o procura. Encravado na costa oeste do continente, limitando-se com Argentina (Leste) Perú, Bolívia (Norte) e tendo como vizinhos inseparáveis o imenso Oceano Pacífico e a temida Cordilheira dos Andes, encontra-se a briosa República do Chile. Um país que, dos que compõe esta metade da América, possui em sua cultura e tradição uma seleção de contrastes e marcas que vão desde as danças e a música até o passado sombrio dos tempos de Pinochet e sua ditadura.

uol
Torcedores acreditam em “algo a mais” para o Chile
em 2014. São parte de uma população prospera
social e politicamente (UOL)

Com uma população de quase 18 milhões de habitantes, o Chile goza de uma posição destacada no cenário político latino-americano, é um dos países do continente com a melhor estabilidade política e social e um dos mais prósperos. E assim como seus vizinhos, onde se inclui o Brasil, goza de uma paixão que desperta em seus patrícios sensações de amor e ódio a cada momento: Sim, o futebol.

Mesmo sendo um dos únicos dois países a não ter fronteira com o Brasil (o outro é o Equador), chilenos e brasileiros tem em muitos de seus embates nas quatro linhas histórias semelhantes, emocionantes e marcantes que são dignas de bons livros e documentários para os dias atuais. Nesta fatia das Américas, o Chile é uma das nações com o maior número de participações em Copas do Mundo, tendo frequentado as fileiras do mundial por nove vezes (contando com a Copa do Brasil). Sua Federação, apesar dos pouquíssimos títulos de renome sul-americano e mundial, é a segunda mais antiga da Latino América (1895), perdendo apenas para a Argentina (1893).

Não que seja um titã que ameace a muitos. Nos dois principais torneios de clubes da América Latina (Libertadores e Sul-Americana), o Chile acumula um título em cada um. Na Copa América, nenhuma conquista e uma coleção indigesta de quatro vices, mesmo tendo sediado a competição por seis vezes e cotada como sede da edição do ano que vem.

Mas, intrinsecamente, o futebol chileno esconde histórias curiosas, mas negras e soturnas de um passado distante. Quando o nobre esporte bretão tornara-se, na mão dos regimes militares do continente, a ferramenta preferida de distração do povo e enaltecimento de suas conquistas. Não foi diferente com o Chile, que teve até em seu palco máximo (o Estadio Nacional de Santiago) parte integrante deste passado cruel.

Um “estádio-prisão”

O ataque ao Palácio La Moneda, em Santiago, marca do golpe de Pinochet, em 1973 (Wikipedia)
O ataque ao Palácio La Moneda, em Santiago, marca do golpe de Pinochet, em 1973 (Wikipedia)

Em 11 de setembro de 1973, depois de intensos conflitos ideológicos entre os blocos de esquerda e direita da política chilena, um bombardeio ao Palácio La Moneda, sede do governo chileno em Santiago, destituiu a sangue frio o presidente esquerdista Salvador Allende. O golpe era liderado pelo general Augusto Pinochet, que se tornaria presidente-ditador do país até 1989, instalando o terror em um dos regimes mais sanguinários da América Latina.

Gal. Augusto Pinochet e Salvador Alliende (dir.), um raro momento de paz entre os opositores (vox populi)
Gal. Augusto Pinochet e Salvador Alliende
(dir.), um raro momento de paz entre os
opositores (vox populi)

Uma história que se repetia em vários países do continente durante a famigerada “Operação Condor” que, nos seus termos, evitaria uma “invasão ideológica comunista” na América do Sul. Brasil (1964), Uruguai (1973), Argentina (1976) são alguns destes exemplos que se juntavam ao Chile nas estatísticas. Ate ai, mais um conto nefasto de golpe militar e tortura, se não fosse a participação quase forçada do futebol como uma de suas armas de manutenção.

Falando em tortura e esporte, os dois se cruzam justamente no palco máximo do futebol chileno. Entre setembro e novembro de 1973, mas de 40 mil pessoas foram levadas ao Estádio Nacional de Santiago, onde foram presas, torturadas e mortas em seus corredores. Uma espécie de campo de concentração, que deixaria sua marca negra nos gritos de horror de seus presos em suas esquinas. Em meio a tortura e detenções, eis que o Chile se pega em uma repescagem contra a União Soviética, por uma vaga na Copa de 1974, na Alemanha.

Os soviéticos (que também não tinham um governo “santo”), empataram em zero o primeiro jogo da disputa, em Moscou. Restava a disputa derradeira em Santiago, que decidiria a vaga entre ambos. No entanto, com o golpe em curso e as torturas e prisões no Estádio Nacional a plena, a URSS se negou a vir ao Chile para a partida. Segundo os anais da história, o governo de Allende era alinhado com o soviético, e com a tomada de poder por Pinochet e as sistemáticas prisões e mortes do regime fizeram a potência da cortina de ferro se recusar a decidir sua vaga na capital chilena.

Mas negativa não era problema para Pinochet e os pupilos da Federação de futebol. Com a complacência da FIFA, que não atendeu os pedidos da URSS para um jogo em campo neutro, o Chile foi para campo na tarde ensolarada de 21 de novembro de 1973 para uma partida Mandrake, sem os soviéticos a sua frente. Uma festa dantesca, que coube ao capitão Valdes a “desonra” de marcar o que até hoje é conhecido como “gol de Pinochet”. 1 a 0 no placar, teoricamente classificados (pois a FIFA ainda decidiria a vaga em uma votação), restava a festa aos apoiadores do regime, e as lamúrias dos presos do Estádio Nacional.

Na Copa, o castigo veio a cavalo. Com a seleção reconhecidamente contrária ao governo e com todas as pressões internacionais, o desempenho da equipe se resumiu a dois empates e uma derrota, que eliminariam a equipe “roja” do Mundial. E como se o regime não imaginasse algo de pior ainda, no jogo contra a Austrália um grupo de chilenos invadiu o campo para protestar contra Pinochet. Para trás, ficaram os gritos dos presos nos corredores do “estádio-prisão”, em uma pagina que o Chile, por mais que viva seja, quer desesperadamente esquecer.

Exercito chileno cerca os presos políticos no Estadio Nacional, em Santiago (Vox Populi)
Exercito chileno cerca os presos políticos no Estadio Nacional, em Santiago (Vox Populi)

O velho rival

Brasil e Chile nunca foram de se dar cordialmente em campo. No entanto, a supremacia brasileira nos últimos anos é evidente, mas não perfeita, permitindo momentos de brilhantismo dos futebolistas chilenos. Até o amistoso de novembro do ano passado foram 69 confrontos, com 47 vitórias brasileiras e apenas sete chilenas. Embora que, algumas são respeitavelmente dignas de nota do lado vermelho da força.

No fim dos anos 80, os confrontos mais duros entre Brasil e Chile (Globo Esporte)
No fim dos anos 80, os confrontos mais duros entre Brasil e Chile (Globo Esporte)

Em 1987, pode se dizer que a vitória chilena na Copa América entrou para a história. Com uma seleção desarrumada defensivamente e sem nenhuma inspiração, o Brasil tomaria uma indigesta goleada de 4 a 0 em partida disputada em Córdoba, na Argentina. Naquele período, enfrentar os chilenos era quase uma guerra campal, onde não faltavam farpas, brigas, entradas violentas e “jeitinhos”.

E, em se falar de jeitinhos, como esquecer o episódio do goleiro Rojas em 1989? Disputando uma das vagas restantes para o Mundial de 1990 na Itália, Brasil e Chile entraram em campo para dois jogos dignos de batalha. O primeiro, em Santiago, acabaria em 1 a 1, com confusão, gol polêmico dos chilenos e tensão constante. A segunda partida, no Maracanã, dava plena vantagem do empate aos brasileiros. Clima tenso, um dia armado quase para uma guerra, assim rolou a bola no Maracanã.

Sabendo que precisava-se do resultado, o Chile  tentava mas não conseguia transpor a zaga brasileira, que comemorava com Careca o primeiro e único gol do jogo. Foi ai que entrou um rojão disparado em direção ao campo, e a expertise de Rojas (para o mal, claro), ao aproveitar a situação para simular que fora atingido pelo artefato.

Um episódio tenso, que colocou em xeque a classificação brasileira para a Copa. E no final uma farsa era descoberta. Rojas admitiu ter levado uma lamina escondida em sua luva, e a usaria no momento oportuno para simular uma agressão. A trapaça rendeu uma bruta punição a seleção chilena, com a suspensão dos direitos de participar das eliminatórias da Copa de 1994 e o banimento do esporte de Rojas e outros integrantes do escrete.

Mas, ao voltar nosso pensamento ao Mundial novamente, o Brasil encontrará pela quarta vez os chilenos em mundiais, tornando-se assim um dos adversários que o escrete canarinho mais vezes duelou em mundiais. E a supremacia não mente, são quatro vitórias nos quatro confrontos. A primeira foi em 1962, nas semifinais da Copa disputada em território chileno. Um 4 a 2 sentido imensamente pelos torcedores da “roja”, que sonharam com sua primeira decisão.

Robinho anota nos 3 a 0 contra o Chile, em 2010 (RBS)
Robinho anota nos 3 a 0 contra o Chile, em 2010 (RBS)

Os últimos confrontos seriam nas oitavas-de-final em 1998 e 2010. Na Copa da França, vitória por 4 a 2, e na África do Sul, por 3 a 0. Entrando em campo no próximo sábado, o Brasil se verá de frente contra uma seleção chilena que muitos dizem ser a melhor geração que o país já produziu. Não será fácil manter as estatísticas ao favor dos brasileiros, até porque o osso atravessado na garganta está do lado chileno.

É assim com altos e baixos, vitórias e derrotas, histórias obscuras e emocionantes, que o Chile segue sua trajetória como nação parelha ao futebol que joga. Produtor de bons times e jogadores, a prosperidade social e política produzida por eles ainda não chegou aos gramados, mas com tino e perspicácia, esta pequena nação na costa oeste da América do Sul escreveu suas letras com méritos entre as melhores seleções do continente. Vencer? Ficar pelo caminho? Ninguém sabe, apenas se sabe que será outra página emocionante de uma crônica que será escrita sábado, no futebol de brasileiros e chilenos.

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