Saco de pancadas

Protesto em Blumenau (Filipe Rosenbrock)
Protesto em Blumenau (Filipe Rosenbrock)

Foi-se o tempo em que há três meses de uma Copa do Mundo os brasileiros faziam festa, decoravam ruas, a imprensa dava destaque exagerado para os preparativos da Seleção e muita gente corria às lojas para garantir seu aparelho de televisão. Nas copas mais recentes este “ardor patriótico” andou meio cabisbaixo e o interesse ficou mais pé no chão.

Este ano temos uma situação peculiar. Para nós, a Copa não está sendo só futebol. Ela traz um ingrediente político que deverá ser posto de lado apenas quando a Seleção estiver em campo. Os protestos que agitaram o Brasil desde junho do ano passado, e voltam esporadicamente, deverão ganhar novo fôlego. Pesquisa do instituto Datafolha, feita em fevereiro, apontou que apenas 52% dos brasileiros apoiam a realização da Copa no Brasil.

Em novembro de 2008, pesquisa do mesmo instituto dizia que a Copa contava com o apoio de 79% dos brasileiros. Muitos acontecimentos influenciaram essa mudança, mas certamente as manifestações nas ruas contra o caos no país e a revelação dos gastos indecentes deixaram até os otimistas desanimados.

A Copa não é feita apenas com estádios, tem de haver acomodações, segurança e uma estrutura mínima para a mobilidade de milhares de torcedores. E mobilidade está deixando de existir. Falta pouco para que nenhum veículo consiga se mover nas ruas do Brasil. Um exemplo ocorre no Rio de Janeiro, que está enfrentando um dos maiores congestionamentos de sua história para a realização de obras que vão durar uns dois anos. Isto a três meses da Copa.

Tudo bem, o Brasil não é um país sério nem inteligente. Isto sabemos desde criancinha, deveria até constar na Constituição, mas sempre conseguimos com nosso jeitinho enganar os outros. Só que agora viramos chacota no exterior. Recentemente circulou um texto nas redes sociais, atribuído à revista francesa France Football, esculhambando com o Brasil. Soube-se depois que o texto era falso, a tradução tinha sido feita maldosamente errada, na tentativa de uso político contra o governo. Mas que houve uma reportagem dessa revista criticando seriamente o Brasil é fato.

Na semana passada fomos destaque novamente. A revista esportiva francesa “So Foot” publicou uma reportagem sobre os preparativos do Brasil para a Copa, tentando fazer humor com a nossa “zona”. O título da matéria: “Viva a Bagunça Brasileira!” A reportagem tratou de todas as cidades sedes da Copa, apontando com doboche as condições dos estádios e aeroportos de cada uma delas. Nem Curitiba, tida como cidade modelo do Brasil, escapou.

Para a revista, que classificou as cidades de acordo com a sua atual situação, Curitiba está no grupo das cidades “em que podemos ver um jogo, mas de preferência na TV”, junto com Cuiabá e Manaus. Não adianta perder o sono por isso, os franceses têm uma concepção de organização bem diferente da nossa, assim como temos uma concepção de higiene bem diferente da deles, que nos obriga a tomar banho todos os dias.

Uma coisa não podemos perder de vista: mesmo que o Brasil estivesse fazendo a lição direitinho para agradar a Fifa e a imprensa esportiva internacional, a Copa é apenas um evento. A indústria turística ganha com isso, mas ela precisa funcionar 365 dias por ano, todos os anos, independentemente de grandes eventos. Temos de levar em conta a máxima que circula no setor turístico: para ser boa para o turista, uma cidade precisa, primeiramente, ser boa para os seus moradores. Pois é, estamos na contramão dessa ideia.

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