Baixando a cabeça

Muitas coisas já disseram para enaltecer o papel do professor, e em nosso país quase sempre se recorre a comparações com os países civilizados para ilustrar o papel de segunda que a ele reservaram na nossa sociedade. Existe até invencionices, como a de que no Japão o único profissional que não precisa se curvar diante do imperador é o professor.

Violência contra professores no Rio (Foto de Publico.pt)
Violência contra professores no Rio (Foto de Publico.pt)

Uma coisa é certa: curvando-se ou não diante do imperador, o professor é respeitado até pela nobreza. Isto é, lá. Aqui o tratamento que recebe é spray de pimenta na cara, como ocorreu recentemente nas manifestações no Rio, quando professores faziam protesto diante da Câmara dos Vereadores. Um dia foi spray, outro foi bordoadas e ficou faltando balas de borracha e jatos d’água.

Há 25 anos, o senador Álvaro Dias, na época governador do Paraná, mandou soltar a cavalaria da PM em cima dos professores que faziam uma manifestação em frente ao Palácio Iguaçu. Além dos cavalos, por ordem dele a PM soltou cães, sentou o cassetete e usou bombas de gás.

Como seria bom se aqui no Brasil tivéssemos um imperador que fosse o guardião dos bons costumes e do respeito ao cidadão. Mesmo que tivéssemos de nos curvar diante de sua humana majestade, teríamos o alívio de saber que estávamos reverenciando valores nobres. Sem princípios e sem moral, os soberanos daqui acham mais fácil baixar o porrete para fazer a gente se curvar.

No grito

O PSDB quer lançar a candidatura do técnico da Seleção de Vôlei Masculino, Bernardinho, ao governo do Rio de Janeiro. Depois do fracasso que está sendo o governo de Sérgio Cabral, quem berrar mais, ganha. Hostilizado diariamente, Cabral não vê outra saída senão a renúncia, prometida para janeiro. A aposta do PSDB na fúria de Bernardinho pode parecer acertada, pois todos estão furiosos.

Mas não pode esquecer que a fúria não foi suficiente para segurar duas medalhas de ouro olímpicas que já estavam na nossa mão.

E a Copa vem aí

Inspirado no National Health System, sistema de saúde britânico, o nosso SUS – Sistema Único de Saúde vem mostrando sua ineficácia faz tempo. O pessoal da teoria da conspiração diz que o fracasso do SUS se deve a uma articulação do governo com os sistemas privados para favorece-los, ao mesmo tempo em que alivia a barra do sistema público.

Embora existam articulações maldosas em todas as áreas, não dá para acreditar que o processo seja apenas este. Quando os britânicos criaram o seu sistema após a Segunda Guerra, a população tinha sofrido horrores com os bombardeios e as privações, e um grande número de pessoas de todas as classes sociais estava precisando de cuidados médicos.

O senso de justiça prevaleceu, e o atendimento foi estendido gratuitamente a todos que habitavam o solo britânico. Não importava o tipo de exame, intervenção cirúrgica ou cuidados médicos, todos os cidadãos tiveram os mesmos direitos. Hoje os médicos que atendem no sistema britânico são altamente remunerados e a população se sente protegida.

Ao se criar o SUS no Brasil acreditava-se que era possível fazer o mesmo aqui. Seus criadores só não contaram com a nossa cultura, com nossa tradição de privilégios e desrespeito pelos mais humildes. Roubaram o que puderam, deixando sistema num caos. E o processo continua.

Falta tudo nos hospitais, até médicos, principalmente no interior. Somos então obrigados a ver esse espetáculo desmoralizante que é a importação de médicos para fechar os buracos. O engraçado é que não se ouve uma notícia sequer sobre falta de recursos para as obras superfaturadas dos estádios para a Copa do Mundo.

Deixe um comentário

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome