De camponeses trentinos a ítalo-brasileiros – parte II

Nos anos posteriores a 1873 os acontecimentos ao fenômeno migratório se precipitaram. “O sonho americano” se espalhou como óleo sobre água.

Os jornais trentinos falavam dele, o povo discutia, os agentes das várias companhias sul americanas penetravam sempre mais fundo nos vales trentinos e sobretudo mais gente, sempre mais gente tomara a decisão de ir-se embora.

Trento: Piazza di Netuno

A América era vista como possibilidade de mudança radical e para melhor, da vida dificultosa de todos os dias, uma catarse que teria podido zerar as desgraças quotidianas para recolocar tudo sobre a bitola do otimismo.

Muitos foram os fatores que favoreceram o nascimento desta “febre”contagiosa, entre eles certamente um componente irracional, que impeliu o povo a confiar nesta ilusão, e a por em perigo a própria vida e a dos próprios familiares para segui-la. Embarcava-se para o Brasil mesmo havendo consistentes provas que no mais das vezes, isso queria dizer anos de tragédias, sofrimentos, derrotas. Partia também quem não tinha a necessidade imperiosa de fugir da fome e da miséria.

Propaganda italiana fomentando a emigração à América, mas precisamente ao Brasil. Tradução: “Na América, terra no Brasil para os italianos. Navios partem todas as semanas do porto de Gênova. Vinde construir os vossos sonhos com a família. Um país de oportunidades. Clima tropical, alimento em abundância. Riquezas minerais. No Brasil, podereis possuir o vosso castelo. O governo dá terras e utensílios a todos. Triste Ilusão!…

 

A grave situação econômica no Trentino acelerou o fluxo migratório para a América.
É inegável, por exemplo, a drástica diminuição do bicho-da-seda, causada pelo aparecimento da pebrina (protozoário Nosema bombycis) em zona que era grande produtora de seda, influindo de maneira sensível sobre o fenômeno migratório. Mais de 8.695 emigrantes partiram rumo ao Brasil (de cidades como Trento, Levico, Rovereto, Cles e Borgo Valsugana).

Em suma quem mais produzia o bicho-da-seda mais sentiu a crise devido a queda de tal produção e mais engrossou as fileiras dos emigrados.

Catástrofes naturais que atingiram a região trentina nos anos de 1880 provocaram prejuízos enormes, sobretudo as enchentes de 1882 e 1885. Estas desgraças naturais trouxeram consigo outras desgraças de ordem econômica-política. Aumenta com efeito, os impostos em medida anormal para financiar os consórcios de reconstrução e isto levou a falência outras centenas de pequenas propriedades, o que desencadeou uma dramática queda dos valores imobiliários.

Outro fator que contribuiu para a emigração foi a excessiva carga de impostos em que viviam meeiros e arrendatários. No jornal Voce Catolica (voz católica) Padre Guetti afirmava: “A necessidade de emigrar sempre aumentou com o aumento dos impostos públicos”.
Quem possuía terrenos cedidos em arrendamento ou meação se ressarcia da exorbitante carga fiscal sobre o colono.

Desse modo dirigia-se as autoridades em 1875 Domenico Giovannini da localidade de Ravina com seu pedido de emigração:

“as taxas extraordinárias, insuportáveis, super impostos e outras tantas prepotências obrigaram os proprietários a aumentar aos pobres agricultores os arrendamentos de seus campos, compelindo-os a não mais saber como levar a sua vida neste império para encontrar do que viver”.

O colono Domenico Giovannini partiu junto com a mãe, um irmão e uma irmã, abandonando a pátria natal, dirigindo-se para a América, para encontrar do que viver, pelo menos para melhorar sua sorte.

Portanto o primeiro fluxo migratório para as Américas surgiu de uma situação econômica desesperada. Outros fatores também desencadearam o processo. Os camponeses trentinos viram no Brasil e na América a possibilidade de reconstruir uma sociedade camponesa própria, satisfazendo finalmente aquele desejo atávico por terra própria (na região trentina a terra cultivável era insuficiente). Outro fator preponderante era o cansaço dos camponeses trentinos de serem usados pelo militarismo da época como carne para os canhões.

A publicidade que os países sul-americanos faziam a seus projetos de colonização foi certamente outro fator que acelerou o processo migratório. A uma classe camponesa cansada e derrotada, martirizada pelo militarismo e esfomeada por terra, estes países sul-americanos prometiam tanta terra, isenções militares e bem-estar, além do sonho de reconstruir a própria sociedade em terras virgens e desabitadas, sem nobres nem patrões, alheias a novas morais e valores que a nova época esta insinuando.

É difícil pensar que sem estas propostas o êxodo dos camponeses trentinos, vênetos e lombardos tivesse assumido tais proporções.

 

A saída dos imigrantes, de Angiolo Tomasi, pintura sobre tela de 1896. Acervo Galeria de Arte Moderna em Roma, Itália.

Entre 1870 e 1889 somente os tiroleses trentinos que emigraram para a América totalizaram 23.846 pessoas, quase 7% da população atual da Província Autônoma de Trento. Outros 8% da população emigrava temporariamente nas demais áreas do Império Austro-húngaro e da Europa. O Brasil foi o país que mais recebeu emigrantes tiroleses. Cerca de trinta mil tiroleses desembarcaram no Brasil entre os anos de 1870 e 1940, tendo-se estabelecido principalmente nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Espírito Santo e, em menor número, nos Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia.

O Estado de Santa Catarina foi o que mais recebeu imigrantes tiroleses, principalmente trentinos. Os nomes de algumas localidades coloniais no Brasil demonstram e comprovam a ligação histórica que uniu os dois grupos étnicos do Tirol, ou seja, os tiroleses de língua alemã e os de língua italiana (trentinos). Com o nome Tirol ou Tyrol existem várias localidades brasileiras: em 1859 foi fundada a colôniaTirol no Espírito Santo por tiroleses de língua alemã; na cidade catarinense de Nova Trento (fundada por trentinos), a localidade outrora denominada Ronzenari hoje se chama Tirol; na cidade catarinense de Rio dos Cedros, uma estrada colonial que liga esta à cidade de Timbó é chamada Estrada dos Tiroleses; no Paraná, no município de Piraquara, região metropolitana de Curitiba, está a Colônia Santa Maria do Novo Tirol da Boca da Serra, fundada por trentinos em 1878. Topônimos de origem tirolesa ou se referindo ao Tirol podem ser encontradas nas cidades catarinenses de Nova Trento, Rodeio, Rio dos Cedros, Jaraguá do Sul e Treze Tílias (esta última é a colônia mais nova, fundada em 1932 por tiroleses de todas as regiões, principalmente do Tirol austríaco). Em várias cidades do Sul e Sudeste são chamados “tiroleses” os descendentes de emigrados (sobretudo trentinos).

TRENTINOS NO VALE DO ITAJAÍ

Em Mattarello, um grupo de 15 famílias, depois de organizadas e instruídas pela direção da Colônia de Blumenau, através do Comendador Joaquim Caetano Pinto Júnior, encarregado da emigração trentina para o Vale Itajaí, resolveu sair de sua querida terra, aceitando o convite que lhe fora feito. Levavam consigo apenas seus pertences pessoais: roupas, utensílios domésticos, livros devocionais, ferramentas e objetos comuns. As propriedades imobiliárias foram deixadas para os filhos casados que lá ficaram, ou vendidas por pouco dinheiro, devido ao entusiasmo e à pressa de viajar.

Mapa dos lotes dos emigrados em 1875. Fonte: Arquivo Histórico de Blumenau.

Confiantes nas promessas que lhes foram feitas, cheias de esperanças no porvir, acenaram o último adeus à sua terra de Mattarello, em demanda da nova pátria. Blumenau deveria ser a sua meta, a sua nova Mattarello. O embarque dessa primeira leva se efetuou no porto de Trieste, num navio a vapor, em dezembro de 1874. Depois de um mês de viagem, o navio atracou no porto de Itajaí/SC, em fins de janeiro de 1875, e seus passageiros se dirigiram imediatamente para Blumenau, por via fluvial. Acomodadas as famílias em barracos para esse fim, os homens de Mattarello, partiram logo, subindo o rio Itajaí-Açu, entrando depois pelo rio Benedito, até Timbó. Daí para frente, caminharam a pé pela estrada Pomeranos Santo Antônio. Era a primeira leva de imigrantes trentinos que pisava a terra de Rio dos Cedros.

MONUMENTO AO IMIGRANTE – Dedicado à fundação do município e aos primeiros dezessete imigrantes alemães, foi construído em 1900 em granito vermelho. O imigrante trentino, estabelecido na Grosara – Encruzilhada (atual Rio dos cedros) Ermínio Stinghen, pedreiro e experiente cortador de pedra foi convidado a entalhar o monumento.

Eles saudavam a nova Pátria, a sua nova Mattarello, entre lágrimas de alegria e profunda emoção. Elevaram seus braços para os céus, repetindo seguidamente: “Grazie, ò Signore!… Sia lodato il tuo santo nome! Grazie!…” Traziam consigo apenas foice, machado, facão, serrote, enxada, espingarda, martelo e pregos, sementes doadas em Timbó, alguns utensílios de cozinha, um pouco de roupa, farinha de polenta e nada mais. Os demais pertences familiares ficaram depositados em Blumenau e só seriam trazidos para “Pommernstrasse” nas suas novas residências quando viessem as famílias que lá ficaram.

 

Família de Mansueto Uber (Mattarello, 1850) e Teresa Bridi (1851).
Um dos “Matarei”(de Mattarello) de Rio dos Cedros.

Muitos desses homens, embora pobres, em Mattarello tinham uma casa para morar, alguma coisa para comer. Agora, aqui nada tinham. Tudo era diferente, mas não desanimaram e auxiliavam-se mutuamente na esperança de um futuro melhor. Cada um tinha sua terra e isso já era muita coisa.

De acordo com o gosto, uns escolheram os morros, outros as planícies. Assim cada um tomou posse da colônia que escolhera. Iniciava imediatamente a derrubada do mato, construía uma pequena moradia feita de ripas de palmitos, calafetada de barro e coberta de folhas largas, chamadas guaricanas, encontradas na floresta. Sua cama era uma armação de paus trançados com cipós. Preparada uma pequena roça, regressava em seguida a Blumenau para trazer a família.

Começava dessa maneira a nova vida de um povo, sem aquele conforto prometido que esperavam encontrar, sem recursos, munidos unicamente de coragem e boa vontade de vencer e melhorar o seu futuro.

A seguir: Contos e Histórias Trentinas – Final

Fontes e bibliografia consultada:

COLLANA DI MONOGRAFIE ‘LA PATRIA D’ORIGINE” – PROVINCIA AUTONOMA DI TRENTO Coleção de Monografias: “A Pátria de Origem” O Belo Trentino – Casa Editrice Panorama – Trento (Itália) – 1988.
GROSSELLI, Renzo Maria. Vincere o Morire – contadini trentini (veneti e Lombardi) nelle foreste brasiliane – Santa Catarina 1875-1900 – Trento 1986.
familiamansuetouber.blogspot.com.br/ acesso em 17/06/2017.

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