De Amargo, só o chocolate

Jô era daquelas pessoas imponentes: batia na mesa, chamava palavrões e dava ordens tão firmes quanto sua calça jeans. Quando queria, era extremamente divertido e bem humorado, comentava o passado com o mesmo senso de humor e juventude de alguém com vinte e poucos anos.

O coração de Jô, de setenta e poucos anos, não era alimentado pelas peleias e lamentações da vida. Para ele, amargo, só o chocolate.

Percebe-se que a existência na terra, quase que laboral, traz encontros bombásticos. Se observava, não muito longe da sala de Jô, um funcionário de trinta e poucos anos que era Esmagado pelas lamentações e por pesos da vida.

Os dois nunca se deram bem.

Confesso que, se existisse uma balança de prós e contras, a explosão da velha guarda era positiva se comparada a amargura de meia idade. Socos quase invisíveis e o silêncio que te condena são mais desconfortáveis do que uma explosão sincera. A explosão passa, o silêncio não.

Acredito que quando somos crianças, em nossos olhos há sementes de uma juventude sem preconceitos, de uma vida baseada em esquecimento e lembrança.  Se nos magoamos com algo, há, quase de imediato, o perdão.

A criança, de acordo com Nietzsche, era o último estágio da evolução humana.

Para pessoas de meia idade amargas suas crianças não existem mais. Insistem em fazer reclamações, desabafos, e remoem sem perdão, um passado que já não existe mais. Aliás, vivem no passado: o erro dos outros, é condenação perpétua.

Precisamos estar em consonância com o tempo que nos foi permitido viver. É na amargura da mágoa que perdemos a chance de sermos felizes.

No fim, não haverá um saldo das pessoas que te fizeram mal, mas sim a alegria de ter vivido uma vida plena e doce. Igual a felicidade que atrai felicidade.

Por isso, amei trabalhar com Jô, prefiro os puxões de orelhas sinceros, do que o silêncio amargo.

De amargo, só o chocolate

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